Ano 10 - nº 87 - Junho de 2011 - A revista do educador
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Vamos Conversar?
Cleide Arantes
Sociedade tecnológica: a relação informal e a comunicação

De modo geral, a tendência da maioria das escolas é a de adotar atitudes unilaterais diante do fenômeno da tecnologia. A tecnologia, no entanto, deve ser considerada como uma oportunidade para a democratização do conhecimento e da cultura, para a ampliação dos sentidos, para a aprendizagem. A escola deve preparar-se para os meios de comunicação de massa, e não condená-los.

Segundo Pierre Levy (1993),

Vivemos num ritmo de velocidade pura; não há horizonte, nem ponto-limite, um "fim" no término da linha. Ao contrário, vivemos uma fragmentação do tempo, numa série de presentes ininterruptos, que não se sobrepõem uns aos outros, como páginas de um livro, mas existem simultaneamente, em tempo real, com intensidades múltiplas que variam de acordo com o momento. Enquanto na era da escrita o mote é "construir o futuro", hoje vale o que ocorre neste preciso momento”.

A tecnologia é uma ferramenta de acesso ao conhecimento. Nas escolas, a chegada dos computadores precisa significar as oportunidades de avançar, de acompanhar o progresso. Digo progresso nas relações, nas descobertas, nas chances de ampliar o saber quando de posse de um instrumento que agiliza esse "transporte”. Estamos numa sociedade cada vez mais informatizada, tecnologias avançadas, porém, essa situação não nos permite generalizar e dizer que estamos todos preparados. É preciso ir mais além.

Segundo Ladislau Dowbor (2001) as tecnologias sem a educação, conhecimentos e sabedoria levam-nos apenas a “fazer mais rápido e em maior escala os mesmos erros”. É necessário repensar o caminho e a própria concepção do ensino, e a partir daí, vemos que não é um desafio simples e prático, pois os professores precisam estar preparados para preparar o aluno para trabalhar nesse universo tecnológico.

José Manuel Moran (1995), em seu artigo sobre “As Novas Tecnologias e o Re-encantamento do Mundo”, diz que a produção capitalista é que muda a sociedade, não as tecnologias. Precisamos usar as ferramentas e liga-lás ao nosso uso de forma adequada, interativa e participativa.

Sobre a imagem disponibilizada na Internet, Andrea Cecília Ramal (2000), em seu livro “Ler e Escrever na Cultura Digital”, diz que o acesso dos alunos às imagens passa a ser também mediadora para o conhecimento do mundo: “Imagens falam, muitas vezes, mais do que palavras”. A ilustração conquista o espaço da mensagem. Imagem e som ganham o status de "linguagem" e, portanto, invadem o espaço do significante escrito para tornar-se, também elas, novos textos, concebidos com diferentes modelos e igualmente relevantes para a comunicação social. O convite que faço, no entanto, é que estamos muito atentos aos descompassos, ao desequilíbrio das forças que tentam nos arrastar por mais que tentemos resistir. É o que chamarei de “olhos vidrados”. O que me espanta é o fato de muitas vezes, permanecermos “vidrados” na TV, no computador, e comecemos a criar alguns distanciamentos, ao invés de aproximações. Num cenário neoliberal é possível compreender isso: pessoas preocupadas com o próprio desempenho e com a concorrência, diariamente. A tecnologia repercute na sociedade justamente pela razão de ser o resultado de pesquisas que apontam os seus benefícios. Mas a aplicabilidade dessa tecnologia não pode fazer o indivíduo esquecer-se do outro. As facilidades são muitas, mas o diferencial está em saber usá-las.

Encontramos as ideias de alguns teóricos e pegamos “carona” novamente nas alucidações de RAMAL (2000) quando ela fala sobre sonhos e possibilidades. Comenta as ideias bem resumidas - mas que concentram a essência - de alguns pensadores que marcaram uma época e que fundamentam as bases da educação que desejamos:

Ivan Illich sonhava com uma educação que não fosse limitada às instituições, que formalizam tudo. Jean-Jacques Rousseau pensava numa escola que não corrompesse o homem, deixando simplesmente vir à tona o que temos de melhor. Jean Piaget queria que os níveis mentais fossem respeitados, sem pular etapas, para que não tivéssemos que aprender aos saltos, ou decorar o que não entendemos... Freinet sonhava com uma escola que permitisse o prazer, a aprendizagem agradável e divertida. Paulo Freire sonhava com um lugar em que o saber do aluno fosse valorizado, onde a relação vivida nas aulas fosse o ponto de partida para uma grande transformação do mundo. Goleman escreve sobre uma escola que permita desenvolver o lado emocional, que tenha espaço para as artes, a música, as coisas que, enfim, nos fazem mais humanos...”

Ela lamenta o fato que, de um modo geral, não sabemos concretizar muitos desses sonhos. Ela faz um diagnóstico apresentando as possíveis causas para a dificuldade, dizendo que “talvez ainda não tivéssemos tempo, porque era preciso primeiro preparar aulas, corrigir provas, anotar no quadro e nos cadernos tantas e tantas explicações...”. daí o meu desejo de enfatizar o equilíbrio das forças que precisa existir se na verdade queremos uma sociedade mais equânime. O começo dessa possibilidade será quando revermos nossos currículos. Com o acelerar dessa era tecnológica é fácil considerar as mudanças à frente. A linearidade dará lugar ao hipertextual, ao móvel, ao flexível. A escola será desestabilzada pelo descentramento, pela contínua produção e negociação de sentidos e de novos discursos. A tecnologia entra nas escolas, chegam os computadores, o professor não sabe bem como trabalhar com tudo isso.

Segundo Ladislau Dowbor (2001), no capítulo 4 – “O deslocamento dos paradigmas da educação”, de seu livro “Tecnologias do Conhecimento: desafios da Educação”, ele desenvolve o sentido “reequilibrador da sociedade”, a tendência de reforçar as polarizações e desigualdades. Fala sobre os “dois gumes” da tecnologia, explica que tanto pode servir para a elitização e o aprofundamento das contradições sociais, como pode gerar uma sociedade mais justa e mais equilibrada.

Apropriamo-nos das ideias de DOWBOR (2001, p.2), quando diz:

É essencial enfrentarmos de maneira organizada a compreensão das novas tecnologias, do seu potencial, dos seus perigos, das suas dimensões econômicas, culturais, políticas, institucionais. Poderemos ser a favor ou contra certas tecnologias, - ainda que na realidade ninguém esteja nos perguntando se somos contra ou a favor - mas o que não podemos nos permitir, inclusive para orientar as novas gerações, é delas não termos um conhecimento competente.”

O conceito “Sociedade Tecnológica” é muito amplo, e por isso complexo. Não há como fugir daquilo que se estabeleceu: muda o mundo e precisam mudar as formas de ensino. Esta Sociedade é “em rede” exatamente porque estão interligados, cada vez mais, conhecimentos diversos. Quanto mais plural a formação de um profissional, quanto mais acesso às informações, melhor estará ele preparado para exercer seu papel.

Já Marco Silva, sociólogo e doutor em Educação, em seu site “Sala da Aula Interativa” – (descobri isso “navegando” na internet) - a respeito de interatividade, explica que é preciso garantir duas disposições, basicamente: A dialógica que associa emissão e recepção como pólos antagônicos e complementares na co-criação da comunicação; e a intervenção do usuário ou receptor no conteúdo da mensagem ou do programa (...). O autor contribui para o presente texto quando diz sobre o esquema clássico de comunicação, uma “mudança paradigmática” ocorre: o emissor não emite mais no sentido que se entende. Ele não propõe uma mensagem fechada, ao contrário, oferece um leque de possibilidades... O receptor não está mais em situação de recepção clássica. (...). Ele se torna, de certa maneira, criador. Quanto a sua repercussão em nossa sociedade comecemos a pensar de forma mais profunda no assunto. Afinal, seja a “simples pintura rupestre”, seja o computador, ambos trouxeram modificações inegáveis – e sem retorno! – para a vida humana. Isso significa que “fechar os olhos” não nos manterá afastados destas repercussões; em especial no âmbito escolar. Sabemos que a melhor opção seria o caminho do meio; ou seja, como pedagogos, profissionais da Educação, não deveríamos ter posturas extremistas; deveríamos, sim, analisar as situações e perceber onde estas tecnologias poderiam ser benéficas ou maléficas. E a escola – nós somos a escola! – deve assumir sua responsabilidade de oferecer a melhor relação possível dos alunos com as novas tecnologias!

Cleide Arantes é Pedagoga e Professora de Educação Infantil.



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