Ano 10 - nº 86 - Maio de 2011 - A revista do educador
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Vamos Conversar?
Cleide Arantes
A indisciplina, o erro e os agentes da mudança

A conduta dos educandos e a disciplina em sala de aula têm sido as preocupações de muitos educadores. Não é de hoje que se houve falar em turmas indisciplinadas, alunos desatentos, tensão e violência no ambiente escolar. Que fazer diante dessa situação? Muitos métodos foram apregoados no passado (note bem, no passado) em que era comum o uso da palmatória, réguas, varas ou joelhadas em grãos de milhos como meios de punição para os erros de alunos indisciplinados ou que não respondessem adequadamente às perguntas feitas pelo professor. E mais, a intensidade e as variações do castigo eram em conformidade com a “gravidade” do erro e a “vontade” do professor. As causas de comportamentos indisciplinados são múltiplas. Parece-nos que a desagregação familiar, a ausência de valores, de limites, de regras de conduta, de respeito ao outro, a permissividade e a omissão dos pais em relação à educação dos filhos são fatores que produzem a indisciplina. A inadequação dos currículos, a metodologia descontextualizada, a heterogeneidade das turmas e o conseqüente insucesso escolar.

Segundo SAVIANI (1999), a “escola se organiza, pois, como uma agência centrada no professor, o qual transmite, segundo uma graduação lógica, o acervo cultural aos alunos.” Essa visão magistrocêntrica da Pedagogia Tradicional produz esse tipo de comportamento e o professor é dominado muitas vezes por esses alunos indisciplinados. Notamos, portanto, uma dimensão recursiva em que tanto o professor produz a indisciplina quanto a indisciplina produz o professor.

Costumava-se dizer que para ensinar é preciso “gostar de criança”. Notamos a despreocupação com a qualidade da educação nessa circunstancia. Para se lecionar bastava ter uma boa moral e conduta, ser cristão e não ter antecedentes criminais. O “professor” não precisava apresentar nenhum documento que comprovasse sua profissão. Felizmente, retornando aos dias atuais, vemos que a situação mudou, e mudou muito. Não se concebe mais um professor que não esteja “antenado” com o movimento da realidade à sua frente. Já a conduta do professor “desatualizado” é aquela que desenvolve a aula tentando “descobrir” quem de seus alunos não aprendeu a lição. Aplicam provas e testes para aferir uma nota que, na maioria das vezes, não expressa seguramente que o aluno aprendeu a “lição”. Esquecem-se do processo e de que somos unos e múltiplos ao mesmo tempo. SEVERINO (1995) esclarece em sua obra O Uno e o Múltiplo: o sentido antropológico do interdisciplinar. Cada criança é una quando nos referimos ao seu caráter essencial, especial, específico. E cada aluno é múltiplo porque ele representa um universo de culturas, valores, conceitos que não podemos negar. Taxá-los, rotulá-los, condená-los é anular esses fatores que nos faz sujeitos. Com ALVES (2003), no seu livro Conversando sobre Educação, temos a metáfora das cebolas. Das várias camadas que tem a cebola. Somos assim, segundo Alves, como cebolas. Se jogados ou abandonados cheiramos mal, mas se “olharmos” as potencialidades das cebolas sem nos prendermos ao gosto e ao cheiro para irmos para além, saberemos preparar deliciosos molhos, saladas que jamais sonharíamos!

Para a indisciplina, o castigo físico. Era uma prática do passado, bem sabemos. Expor publicamente um aluno e sua fragilidade era um desrespeito ao ser humano. Deixá-lo retido em sala de aula ou impedí-lo de ir ao recreio também é. Outras ameaças mais sutis são feitas, como aquelas em que o professor diz que no dia da prova vai “arrebentar” com a turma, de que o aluno será reprovado... O clima de culpa, castigo e medo têm sido comum na prática docente, o que compromete a aula ter ou não um clima de alegria, satisfação de estar ali e não em outro lugar.

E quando o aluno inculca uma culpa extremada servindo de entrave a qualquer tomada de decisão. Ele “acredita” que já não possa mais acertar as questões da prova; que não se sairá bem no exercício; ele tem medo de chegar atrasado e ser zombado pelos colegas. Esse poder tirânico que tem o professor gera um grande conflito interior difícil de contornar. Daí criar um jovem ou adulto inseguro e frágil, não falta tanto.

LUCKESI foi muito feliz como nos situou dentro do problema e nos coloca como agentes da mudança; nós educadores. Não existe o erro, o que há é uma ação que não satisfez a um determinado objetivo e que o aluno deve compreender para superar. O erro deve ser encarado de forma diferenciada respeitando o movimento e o “tempo” de cada um nesse processo. A ansiedade de professores e pais para que o aluno “aprenda logo” é uma herança, um paradigma que deve ser aos poucos quebrado. O erro é um suporte para o crescimento na medida em que eu questiono como e o porquê eu errei. O erro só existe porque há um padrão pré-estabelecido. Quando não há padrão construído, o que se tem é o insucesso ou êxito para a solução do problema. É a hora do professor replanejar suas estratégias e reformular seus objetivos. A avaliação do próprio professor, onde está? Não anulamos a importância de se avaliar a aprendizagem, porque é indiscutível. A proposta é redirecionar nossos olhares na tentativa de melhor lidar com questões que vão surgir, inexoravelmente. Por exemplo, existe uma turma de alunos de 5ª série do ensino fundamental uniforme? Todos quietinhos, atentos, alegres e correspondendo a todos os objetivos traçados? Não. Portanto, aquele que deseja ardentemente assumir a sua tarefa de educador não deve prescindir de uma boa dose de paciência, tolerância, discernimento, autocontrole, renúncia e boa vontade. Sentimentos e atitudes que devem fazer parte do dia a dia de todo professor. Desenvolver virtudes sem medo e sem pré-conceitos.

REFERENCIAS:

LUCKESI, Cipriano Carlos. Avaliação da Aprendizagem Escolar: estudos e proposições – 12º ed. – São Paulo : Cortez, 2002.

ALVES, Ruben. Conversando sobre Educação. Campinas, SP: Versus Editora, 2003.

SAVIANI, Dermeval. Escola Democrática: teorias da educação, curvatura da vara, onze teses sobre educação e política. 32ª ed. – Campinas, SP: Autores Associados, 1999, p.: 18

SEVERINO, Antonio Joaquim. O Uno e o Múltiplo: o sentido antropológico do interdisciplinar. In: JANTSCH, Ari Paulo e BIANCHETTI, Lucídio. (orgs)- Interdisciplinaridade - para além da filosofia do sujeito. 4ª ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1995.

Cleide Arantes é Pedagoga e Professora de Educação Infantil.



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