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| Ano 11 - nº 88 - Janeiro de 2012 - A revista do educador www.educacaomoral.org.br/reconstruir |
| Pelos Caminhos da Educação Nadja do Couto Valle Cyberbullying A violência, que campeia no mundo, avança sobre nossos lares e nossas casas, e agora, também nas escolas, onde implicâncias, apelidos etc. sempre foram resolvidos com ações educativas bem sucedidas através de solução conciliadora junto aos alunos envolvidos, que continuavam amigos. Mas hoje a violência virtual, o cyberbullying, ocorre através de e-mails, mensagens humilhantes, ameaçadoras e depreciativas da moral, do corpo, do modo de ser e de se vestir ou de se comportar de alguém, com fotos da vítima em torpedos e em sites de relacionamento associadas a textos depreciativos e constrangedores, demolidores, a respeito da vítima, podem chegar a ser indecorosos e a ofender a honra da vítima. Lamentavelmente, o fenômeno, que é mundial, aumenta rapidamente no Brasil. Segundo estudo da organização não governamental Plan, a maior parte das vítimas – 69% delas – tem entre 12 e 14 anos. A pesquisa, realizada neste ano de 2010, ouviu 5000 estudantes brasileiros de 10 a 14 anos, e concluiu que 17% já foram vítimas de cyberbullying no mínimo uma vez e dentre esses, 13% receberam insultos pelo celular e os 87% restantes por textos e imagens enviados por e-mail ou via sites de relacionamento. Na escola, segundo as pesquisas, as consequências, para a vítima e para os agressores, são déficit de atenção, falta de concentração, desmotivação para os estudos. Aliás, o mesmo aluno pode ser vítima e agressor ao mesmo tempo, ou seja, ele reage agredindo outro: “escolhe” outra pessoa mais indefesa e passa a provocá-la, com isso tornando-se agressor e alvo ao mesmo tempo. A impunidade e o anonimato que a rede proporciona estimulam essas ações doentias, patológicas, maldosas, injustas, injustificadas, oferecendo oportunidade de agredir sem expor-se às consequências, o que, do ponto de vista do processo educativo, é dos maiores erros e de graves consequências para a formação do indivíduo ético, cidadão, equilibrado, responsável. Tais indivíduos podem manter esse tipo de comportamento por muito tempo, e continuar, na idade adulta, depreciando, agredindo outras pessoas para chamar atenção sobre si mesmos. Por volta dos 10 a 12 anos, começa a necessidade de o indivíduo buscar referências externas, no convívio social, diferentes das que já tem no ambiente familiar, e isso é importante para a construção da personalidade. É a época de aprender a lidar com a própria imagem, no mundo exterior. E se, nas fases anteriores, em família, e também na escola, a criança e o pré-adolescente não desenvolveram bem a autopercepção de sua figura, imagem corporal, auto-estima, auto-imagem etc. poderão desenvolver prazer mórbido em debochar, menosprezar, desqualificar o outro. Que comportamentos são recomendáveis para pais e professores? Dentre outros, lembramos: 1. Observar atentamente a criança e o jovem em suas mais discretas manifestações, como mudança repentina no comportamento da vítima; 2. Acompanhamento permanente, por parte da escola, para tomar providências enérgicas com o objetivo de afastar essas agressões do cotidiano; 3. Promover atividades que incentivem o desenvolvimento de tolerância entre os alunos, de respeito à diferença; 4. Planejar e executar reuniões conjuntas escola-família, com vistas a desenvolver acompanhamento dentro e fora de sala de aula e de outras dependências do ambiente escolar, visando prevenir contra esse quadro e combater o problema; 5. Ficar atento. Observar para ver, sentir o outro e seu mundo; 6. Dar limites. Do ponto de vista da Educação, é fundamental estabelecer normas e justificar sua razão de ser, e, portanto, o motivo de serem seguidas. 7. Realizar reuniões com grupos de alunos e de conciliação entre vítima e agressor, com a participação de um professor/membro da equipe escolar e de um aluno representante do corpo discente. Uma das providências de prevenção é de iniciativa do professor, que deve discutir com os alunos os comportamentos adequados para o bom rendimento das aulas e das relações pessoais no grupo e com os professores e demais integrantes da equipe escolar, bem como os comportamentos indesejáveis e intoleráveis. Assim, os próprios alunos, junto com o professor, estabelecem as sanções, punições, e com isso aprendem o respeito ao outro, à vida, às diferenças. Desse modo torna-se muito mais fácil trabalhar os limites pois foram os próprios alunos que construíram esse código de ética. Observar e ouvir, conversar e reunir-se com as partes envolvidas são fundamentais para o processo de educação e isso vale para todas as situações da vida, no lar, na escola, no trabalho, no lazer, enfim, em toda parte e a toda hora. Mudanças no comportamento, tanto em casa quanto na escola, ajudam a identificar casos de bullying e de cyberbullying: sintomas e comportamentos, como dor de cabeça e outros tipos de dor, desmotivação para relações sociais e até para atender o celular e para entrar na internet, enjoos, má digestão, dificuldade de conciliar o sono e revelam isolamento social e virtual, e, evidentemente, falta de vontade de ir à escola. E o que fazer quando são identificados vítima e agressor? Bem, em primeiro lugar, não expor ninguém. O melhor a fazer é conversar com cada qual, em particular. É claro que a escola não vai legitimar a atuação do agressor, não pode eximir-se de sua responsabilidade, tampouco pode ser conivente com tal crime, e nesse caso precisa tomar providências rigorosas de forma a inibir qualquer comportamento que sequer se aproxime desse ato perverso. Mas que punições aplicar? Como qualquer punição tem que guardar relação direta com a natureza e a extensão do ato praticado, nesse caso premeditado e consciente, o aluno agressor precisa, da mesma forma, retratar-se também publicamente, retirando o que disse no mesmo meio, e-mail, blog, celular etc. Isso faz o próprio e todos os demais se darem conta de valores superiores, como respeito e assunção de responsabilidade. Em último caso, em situações-limite, é possível encaminhar o caso a delegacias especializadas em crimes digitais. Lembramos que para que os e-mails e outros atos possam ser juridicamente considerados como provas, é necessário que eles sejam impressos, mas igualmente fundamental que sejam guardados no computador para possibilitar o rastreamento da origem de tais “correspondências”. Trabalhando contra todo tipo de violência, como o bullying e cyberbullying, dentre outros, estamos todos contribuindo para uma sociedade mais tolerante, justa e feliz, estamos contribuindo para a paz. Nadja do Couto Valle é Doutora em Filosofia, Mestre em Educação, Professora Universitária, Ex-Diretora do Colégio de Aplicação da UFRJ. |
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