Ano 10 - nº 87 - Junho de 2011 - A revista do educador
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Pelos Caminhos da Educação
Nadja do Couto Valle
Férias: síndrome, direito ou dever?

Às vezes nem nos damos conta, mas é provável que estejamos contaminados pelo que costumamos chamar de “síndrome do descanso”: trabalhamos o dia inteiro, ansiosos pelo momento de ... voltar para casa ou ir para a happy hour; trabalhamos cinco ou seis dias, e ficamos ansiosos para ... chegar logo o fim de semana; trabalhamos ao longo de onze meses, ansiosos pelo período de ... férias!; trabalhamos ao longo de anos, ansiosos para a época da ... aposentadoria!, quando então, finalmente, vamos poder viajar, fazer nada, ir ao cinema no dia e horário em que bem quisermos, etc.

Hoje entendemos, cientificamente, a necessidade do repouso, excluídos, naturalmente, os nossos exageros. Por que isso é necessário, e por que, em última análise, é bem provável que tenhamos razão em desejar o tal descanso, após um dia, cinco dias, um mês, alguns anos de trabalho? É que temos uma espécie de alarme no cérebro, a chamada “região azul”, cuja função é nos deixar em estado de alerta, prontos, tensos, preocupados com os problemas a resolver. E não são poucos, e que ninguém venha pensando que compras no supermercado, contas a pagar, prazos para entrega de trabalhos, horário e menu de refeições da família não são questões que tomam nossa atenção e que podem, sim, deixar-nos tensos, ansiosos – porque é tudo bastante cansativo, física e mentalmente. Diante disso, esse estado de alerta não é de todo ruim, porque, antecipando, temos mais chances de dar melhores soluções aos problemas.

Mas isso tudo gera também ansiedade, essa capacidade nossa de nos preocuparmos antecipadamente com coisas que talvez nem cheguem a acontecer. A questão é que, tão logo resolvemos alguns problemas, logo surgem outros! Então, decidimos ignorar esses novos, futuros, problemas, por algumas horas, dias, um mês e ... saímos para a happy hour, para o final de semana ou tiramos férias. Esse, sim, é um período bom, durante o qual não nos preocupamos com o futuro, só com o presente; no fundo, nesse período talvez preferíssemos mesmo ficar na condição das bactérias e outros seres que não têm cérebro, e, portanto, não se preocupam nem com o tempo nem com problemas. Mas já nos basta ficar com as questões básicas de férias: nossa preocupação com o souvenir que vamos levar, o restaurante que vamos escolher, a praia a frequentar, o teatro ou museu que vamos visitar e outros “cansaços” desse tipo. Mas para que isso funcione, há providências a tomar: em primeiro lugar, não levar computador; usar o celular só para resolver essas questões imediatas, esses “cansaços”; não querer visitar muitos lugares em um só dia, ou dez, quinze cidades em apenas uma semana, quando é o caso, por exemplo, de se viajar pela primeira vez à Europa; usar outras estratégias, SMS etc. para emergências. Mas e se não der para fazer isso? O jeito é usar o final de semana como férias, ou “com clima de férias”, e seguir essas providências.

Mas nesse quadro, geral, destacam-se alguns seres queridos, que vivem uma grande dúvida, e uma preocupação, que a família também partilha: os vestibulandos. Afinal, esse período é para esses estudantes descansarem ou estudarem? A razão dessa preocupação está no fato, justificado, de que eles não podem “perder o ritmo” e todos sabemos que o ritmo é muito mais importante do que a concentração exagerada de energias em apenas um pequeno período. É que depois, todos sabemos, fica bem mais difícil de recuperar o ritmo. Mas há, aí, uma outra questão que envolve o cérebro, o sentimento, o corpo de um modo geral: é fazer uma coisa, pensando em outra. Também sabemos que, nesses casos, não fazemos adequadamente nem uma coisa nem outra.

O jeito, então, é ... fazer as duas coisas no mesmo período, mas não simultaneamente, com o corpo ocupado com uma coisa e a mente com outra. Portanto, devemos reservar um tempo específico para cada uma delas, alguns minutos ou algumas horas por dia, para descansar e outras para estudar: o importante é a qualidade do estudo que o aluno vai fazer. Pode dormir até mais tarde, e, se quiser, ficar fazendo nada, mas sem culpa. Com isso, passamos a viver o período de “descanso dinâmico”, ou ativo, ou seja, enquanto o vestibulando – ou aluno de qualquer outra faixa escolar ou etária – descansa, seu cérebro, através de sua memória, está armazenando tudo que foi estudado. É por essa razão que precisamos dormir ao final de cada dia para armazenar o que estudamos, aprendemos, com aulas, reuniões, exercícios e tarefas resolvidas. Em se tratando de um estudante, é fundamental aprofundar pontos em que ele saiba que precisa melhorar seu desempenho, fazendo revisão ou mesmo buscando apoio de um profissional. Alternando descanso e estudo no período de férias, o aluno sente como “gente normal”, integrado às atividades da família, participando do grupo, “curtindo” amigos, e com isso vai, também, “recarregar as baterias” para voltar, a pleno vapor, para o segundo semestre, mais preparado para aprender e armazenar o aprendido! Boa sorte e boas férias!

Nadja do Couto Valle é Doutora em Filosofia, Mestre em Educação, Professora Universitária, Ex-Diretora do Colégio de Aplicação da UERJ.



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