Ano 10 - nº 86 - Maio de 2011 - A revista do educador
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Pelos Caminhos da Educação
Nadja do Couto Valle
A disciplina como valor

As manchetes hoje em dia estão povoadas de notícias desveladoras de um fenômeno de inversão de valores, tanto na vida pública quanto na vida privada, que revelam desrespeito a normas, regras, leis tanto jurídicas quanto morais; ao patrimônio público e material, de propriedade de cidadãos, e à pessoa humana. No âmbito dos ambientes escolares, têm aumentado substancialmente as dificuldades dos professores para a realização de sua tarefa como instrutores e educadores, que, para ser bem sucedida, precisa estar solidamente alicerçada no respeito, na disciplina.

A relação família-escola é fundamental para a orientação de crianças e jovens, atentos que devemos estar para o fato de que ambas as instituições devem guardar identidade de valores e objetivos, e que devem interagir permanentemente para o acompanhamento do processo de seus filhos e alunos.

Relativamente à disciplina, é inegável a influência que têm a família e a sociedade de um modo geral nesse quadro, que tem repercussão na saúde física, mental e psicológica de crianças e jovens, de adultos e profissionais, incluindo-se os professores e demais profissionais da área. Há repercussões na auto-estima dos professores e no desenvolvimento do trabalho docente, pois não há como separar as várias etapas de uma aula do ambiente em que ela deve ser desenvolvida. E para isso são fundamentais o respeito, a disciplina, o silêncio ativo, para desenvolver a observação e o raciocínio, e, consequentemente, para internalizar a aprendizagem.

Lembramos que variadas vezes os pais têm comportamentos que vão na contramão do trabalho educativo da escola, eles próprios desrespeitando regras básicas de disciplina no seu relacionamento com a escola e em seu compromisso de estruturação da escala de valores de seus filhos. Para citarmos apenas um exemplo, lembremos os pais que marcam consultas médicas dos filhos no horário das aulas ou permitem que eles faltem ou solicitam que eles saiam mais cedo em vésperas de feriadões.

A disciplina começa em casa, com os pais como modelos, e continua na escola, onde o modelo é o professor.

Tecnicamente, há procedimentos docentes que contribuem para o processo de orientação da conduta, também chamado de manejo de classe. São rotinas que têm objetivos próprios, específicos, e que contribuem fundamentalmente para o bom resultado da execução da aula. A chamada, que também tem técnica específica, é um desses procedimentos, pois atende ao objetivo de controle, desejável em todo e qualquer processo, e prepara o grupo para a aula, criando atitude de “início de aula”, de “vamos (re)começar o estudo”.

O trabalho de casa, com objetivo de fixação de aprendizagem, revela a disciplina do professor em diariamente passar a tarefa para casa e sistematicamente corrigi-lo na aula seguinte, atendendo ao conjunto de técnicas específicas para esses procedimentos.

A coerência do professor em sua relação com a profissão, com cada aula e com os alunos é fonte e linguagem de disciplina, que alunos incorporam subliminarmente. A esse propósito, é eficaz a providência de o professor, já no primeiro dia de aula, estabelecer com os alunos uma espécie de código de ética que, construído por todos, deverá ser respeitado por todos, incluindo-se o respeito ao outro, a paciência, o uso de termos respeitosos condizentes com o local e a tarefa etc. Por sua vez, o professor não deve aceitar provocações, discernindo entre o que algum aluno faz ou diz visando sua figura de autoridade ou como ofensa à sua pessoa.

Não nos escapam as situações de exacerbação de abuso de alunos que xingam, espancam, e até matam professores. São casos de polícia, que lamentavelmente estão ocorrendo no seio de instituições escolares, e que demandam outro tipo de análise. Mas esta é uma conversa para outra oportunidade.

Importante é que professores e todos os demais profissionais da Educação não desistam da tarefa nobre a que dedicam suas vidas, não permitindo que graves situações como essas nos afastem dos altos e nobres objetivos da Educação e de nossa contribuição para a formação de uma sociedade mais equilibrada, justa e humana, para uma nova sociedade, com o homem renovado em suas percepções, porque renovado em seus valores. Felicidade a todos nesse empreendimento.


Nadja do Couto Valle é Doutora em Filosofia, Mestre em Educação, Professora Universitária, Ex-Diretora do Colégio de Aplicação da UERJ.



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