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Pelos Caminhos da Educação

Ano 9 - nº 84 - 15 de julho/agosto de 2010

A queda de um ídolo


por Nadja do Couto Valle*


Já conversamos algumas vezes aqui, Pelos Caminhos da Educação, sobre a necessidade imperiosa, do ponto de vista de ações educativas eficazes, consequentes, de os pais verem televisão com os filhos, de irem ao jogo de futebol e de outros esportes com seus filhos e de discutirem o que acontece em quadra, em campo ou na piscina etc. E por que? Para que os atos do cotidiano possam ser vistos e percebidos pelas crianças e jovens como revestidos – como realmente o são – de valores. Aliás, como temos enfatizado incansavelmente, são os nossos valores reais que determinam nossas escolhas e nossos atos, e não os valores que proclamamos, que dizemos ter acatado e seguir.

Atualmente, em todo o mundo, a ciência tem cada vez mais comprovado os altos benefícios da prática do esporte para a saúde, tanto física quanto mental. E de tal maneira isso se consagrou, que atletas são ídolos para as torcidas de todas as idades. A imprensa, a exposição na mídia, os altos salários, a vida de luxo, os contratos com marcas de luxo que indicam status, as festas etc. – tudo isso funciona como apelo, quase inevitável, para pessoas de todas as idades. Então, surge o ídolo.

Como se constrói um ídolo, sobretudo no esporte, e nesse particular, no futebol? A Copa da África do Sul nos mostrou quebra de regras por parte de juízes e de bandeirinhas, pancadaria, deslealdade com golpes maldosos, gratuitos, e até perversos, de vandalismo, agressões físicas de diferentes formas etc. em plena partida! Comportamentos anti-esportivos, desleais, que ferem as regras do jogo e os valores de convivência.

E o torcedor nisso tudo? É só paixão, envolvimento com o país, o clube e, com o atleta! Este se transforma em herói de partidas, e, dependendo da faixa etária e/ou do grau de maturidade do indivíduo vira herói e modelo também na vida do torcedor. A questão mais delicada que se põe, nesse contexto, é a do torcedor mirim, crianças que se espelham no comportamento do ídolo, do herói, que resolve tudo na partida, e, com muito mais “lógica”, passa a ser símbolo de solução de coisas na sua própria vida, passa a “exportar” comportamentos.

Pelé, Guga, Senna, Cielo, Xuxa e Gustavo Borges na natação, e tantos outros que cuidam da imagem e dão exemplos altamente positivos, em alguns casos impecáveis, para as crianças e os jovens, inscrevem-se nesse universo de educação pelo exemplo, através da prática do esporte. O caso de Zico é exemplar, aliás ele é atleta exemplar, e já é exemplo para filhos e até para netos de seus torcedores quando era jogador; seu clube ganhou muitos torcedores graças à sua figura, como homem e como atleta, clube no qual ele agora é diretor executivo de futebol.

Mas a imagem antisséptica, asséptica, limpa, desses atletas encontra hoje contraponto na imagem de muitos que ficam nas antípodas de seu comportamento. Hoje, segundo informações da imprensa, atletas fumam, consomem drogas, fazem anúncios de bebidas, e muitos saltaram das páginas esportivas da mídia para as páginas policiais, numa espécie de “cultura bad boy”, que começou com ligeiras flexibilizações comportamentais como fugir da concentração, faltar aos treinos etc., e avança até festa com traficantes, brigas em boates, dirigir em alta velocidade causando morte no trânsito etc. – tudo isto está nas manchetes.

Esses atletas nitidamente revelam dificuldade em lidar com o sucesso. De um modo geral oriundos de segmentos sociais, de classes menos favorecidos, passam a sentir-se, por um lado, poderosos, com o dinheiro, fama, facilidades de todo tipo etc. e por outro, diferentes, pois a súbita ascensão social e econômica que traz o sucesso faz com que eles se sintam de uma certa forma “fora do contexto”, pelo menos ao qual eles estão acostumados. Sucesso e confiança começam a andar lado a lado, no início, mas a maioria desperta para a realidade de que a sua referência de estabilidade emocional está nos laços de amizade da infância – que na maioria dos casos não está tão longe assim – e passa a ser comum a constatação de que até para gerenciar os negócios do atleta “novo rico” são convocados os amigos de seu ambiente de origem. Nesse contexto ele não se sente mais “diferente” e “sente-se melhor”, apesar de gostar de estar desfrutando os recursos que sua nova condição financeira lhes faculta.

Ao que parece, não é um fenômeno exclusivamente brasileiro. Nem dentro nem fora dos cenários da prática do esporte que tais atletas representam e que têm como profissão. Dão a impressão de que não sabem o que representam, nem para o esporte nem para o meio social no qual estão inseridos. Alguns têm essa noção e chamam a si a responsabilidade, assumindo-a. É o caso de Zidane, que, na Copa de 2006, teve comportamento anti-esportivo, desleal, em uma partida, mas que pediu desculpas, publicamente, aos franceses, e particularmente às crianças francesas.

A situação é pertinente: em uma mesma semana, essas crianças, como de resto, todas as outras, podem viver essa espécie de “minueto emocional”: em um dia, um passinho à frente – seu ídolo defende a camisa, o clube, até o país, e no outro, dois passinhos atrás em sua vinculação emocional com esse mesmo ídolo – seu herói está envolvido em uma série de confusões, de situações estranhas, ilícitas, ilegais, e até mesmo criminosas.

E qual a reação da mente infanto-juvenil, sobretudo infantil? A criança fica aturdida: o que é isso? Tem um choque ético-emocional: seu ídolo tem pés de barro? E por que ela reage assim? Bem, admitamos, que, em alguns casos, até mesmo adultos chegam a aturdir-se. O mecanismo em curso é o da idealização: a criança – e às vezes até mesmo adultos – não consegue “ver” a humanidade do atleta, porque ele faz coisas tão inacreditáveis no desempenho profissional, que a criança passa a percebê-lo como “sobrenatural”, como acima do comum das pessoas, não apenas quanto às habilidades específicas na profissão, mas também na vida de um modo geral. Para ela, o ídolo está além da realidade, passa a habitar no plano da fantasia, e portanto a criança não tem, nesse caso, condições de perceber que aquele “herói” é, antes de tudo, uma pessoa, que tem fragilidades, fraquezas, defeitos e até vícios.

E diante do inevitável, esse choque de realidade deixa as crianças afetadas a tal ponto que podem desenvolver até mesmo uma grande tristeza diante dessa realidade, a de desmoronamento de seu ídolo. Mas uma criança saudável pode lidar com isso, mesmo com algum sofrimento, perfeitamente compreensível, pois ele o é até mesmo para adultos. Ela entende que era/foi um equívoco da parte dela. Mas, não se chega a essa postura da noite para o dia, nem a criança nem mesmo os adultos. Tudo é processo. E, nesse caso específico, ver televisão e ir aos jogos e campeonatos com os filhos é profundamente recomendável, diríamos até mesmo imprescindível, pois é nesses momentos, de descontração, que se apresentam as melhores condições para que a mente infanto-juvenil acate as orientações, sobretudo quanto aos valores importantes para a família e que devem nortear sua vida – e todos sabemos que há valores universais por todos reconhecidos como tal. Portanto, ao ver televisão e/ou assistir a jogos – e até mesmo a todos os demais programas sociais ou de lazer – os pais podem inocular tais valores, ao discutirem com os filhos as situações que se apresentarem; o que você acha disso? Quais as causas desse comportamento de tal ou qual atleta? Observemos que isto vale para qualquer outra situação. Quais as consequências? Será que ele pensou nelas? Você faria isso? Conhece alguém que tenha feito tal coisa, ao burlar regras, por exemplo, ao colar na escola, ao ser desleal com o companheiro na partida ou em outro cenário e situação da vida? Tais questões aplicam-se também a personagens de novelas e livros, artistas, políticos, enfim pode-se aplicar a todas as situações, oferecendo-se como oportunidades para tais ações educativas de despertamento para com os valores através do diálogo.

A questão está posta hoje no mundo inteiro, ao que parece. Ao que tudo indica, em seu mecanismo de autopercepção, alguns atletas acabam acreditando, por força de uma espécie de delírio do poder que o dinheiro, a fama, o prestígio etc. trazem, que podem tudo mesmo, podem burlar regras dentro e fora de campo, em casa e em sociedade. E nessa espécie de privação de sentidos para com a sua própria pessoa, revelam também não saber a importância que têm, e muito menos a extensão de tal importância – e responsabilidade – que têm perante seu público, seus torcedores, seus fãs, enfim. Conversar com os filhos e alunos sobre tais fatos e circunstâncias pode ajudá-los, e muito, a analisar e encarar a realidade, e a superar as frustrações naturais daí decorrentes.

Mas como contribuir para que tais fenômenos não mais ocorram, ou pelo menos que sejam minimizados ao máximo? Questões exclusivamente pessoais à parte – do ponto de vista da responsabilidade da família, que às vezes desde tenra idade deixou escapar uma série de oportunidades para infundir valores junto ao futuro atleta – será que o clube não poderia oferecer formação ético-moral, acompanhamento psicológico, se necessário, e uma série de outros cuidados? Parece que sim, sobretudo se pensarmos que nas categorias de base os clubes recebem crianças ainda, em fase de vida eu que estão, obviamente, mais permeáveis à orientação quanto a valores, e fortalecimento na defesa desses mesmos valores. Portanto, uma sugestão para os diretores de futebol dos clubes: ofereçam educação em todos os sentidos aos seus futuros atletas, e o mundo ficará muito melhor, o esporte ficará muito melhor e nossas crianças e jovens certamente passarão a ter muito menos tristezas e frustrações, e viverão, também, muito melhor.


*Nadja do Couto Valle é Doutora em Filosofia, Mestre em Educação, Professora Universitária, Ex-Diretora do Colégio de Aplicação da Universidade Estadual do Rio de Janeiro.

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Continue a leitura da Edição 84 da Revista ReConstruir.

 

 

 

 

 

 

 

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