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Pelos Caminhos da Educação

Ano 9 - nº 83 - 15 de junho de 2010

Conversando com o adolescente sobre sexualidade - II


por Nadja do Couto Valle*


Não são poucos os desafios que enfrenta o jovem ao atingir a fase da puberdade, que é fenômeno biológico, simultâneo a um outro, mais amplo e profundo, que diz respeito ao conjunto de perplexidades que assolam e mesmo sobressaltam a mente juvenil: a adolescência. Se por um lado a questão do corpo é estudada do ponto de vista estritamente físico, biológico, segundo estratégias da evolução perfeitamente encadeadas e previsíveis, por outro lado, do ponto de vista da forma como o indivíduo vive essa fase, inevitavelmente marcada pelo relógio biológico, há delicadas interfaces desse momento em que o indivíduo precisa adaptar-se, inclusive psicologicamente, a uma espécie de ‘novo eu’ que surge sem que ele tenha controle sobre isso.

Pais e professores muito podem fazer nesse sentido, se não se tornarem presa fácil de constrangimentos, que são até compreensíveis se olhados sob a perspectiva da história da relação da sociedade com o exercício da sexualidade. Mas impõe-se, muito especialmente nessa fase, o diálogo, como sempre, aberto, sincero, direto. É o que às vezes fica difícil para alguns pais e mães, e é sobre isso que continuamos a falar neste nosso encontro.

É claro que nenhuma relação começa logo com tão excepcional qualidade a ponto de a conversa imediatamente versar sobre o exercício da sexualidade, de forma aberta, harmoniosa. Para que isso ocorra, é necessário que tenha havido, desde tenra infância, um clima de companheirismo, de confiança, de verdade entre pais e filhos, de tal modo que passa a ser absolutamente comum, a partir de uma certa fase da vida dele - adolescente, falarem também sobre sexo. E no caso de isso não ter acontecido desde a infância, os pais têm que ter imensa paciência para começarem a criar esse clima de aproximação, verdade, intimidade, para poderem abordar a vida íntima e aspectos tão pessoais de seus sentimentos e emoções.

Em qualquer das circunstâncias, o recomendado é que devemos evitar ficar bisbilhotando a vida, as emoções, as conversas do filho, não cedendo à tentação de fazer perguntas diretas sobre transa, namoro, intimidade e intimidades etc. Cumpre-nos respeitar a privacidade dele, até porque os adultos não precisam de detalhes para saber o que está acontecendo, não é verdade?

Facilita muitíssimo se você conseguir entrar no mundo dele, mas isso, como já vimos, nem sempre acontece desde a infância, o que não significa que não possa ser construído mais tarde. Portanto, é fundamental “entrar no mundo deles”, e isso não quer dizer usar as roupas e a linguagem – o discurso – que eles usam. Conhecer seus amigos, sua escala de valores e o que eles pensam, demonstrar interesse pelo que eles sentem e pensam sobre esta ou aquela pessoa ou situação, perguntar a opinião deles em vez de ir logo apresentando a sua, como se fosse a única verdade, são posturas que certamente encaminham bem o assunto, a relação, e, claro, a conversa.

Mas o que fazer quando a situação fica mesmo muito constrangedora, sobretudo para os pais? Nesse caso, uma boa opção é “terceirizar” o sujeito/personagem do assunto. Uma boa estratégia é ver televisão com o adolescente, e ir discutindo com ele as questões ali postas, quanto aos valores, às decisões, às causas e ... consequências! dos atos, escolhas e decisões da parte de personagens ali no enredo. Isto pode ser feito no intervalo, depois de terminado o capítulo, ou, eventualmente, se houver “clima”, mesmo durante o bloco em que o assunto esteja sendo ilustrado por situações da trama.

Esta estratégia tem a vantagem de deixar o adolescente à vontade para falar de um assunto “de outra pessoa”, e às vezes é vantajosa também para os pais, pois não estão falando diretamente de uma questão íntima do filho(a)!, com o(a) qual eles têm necessariamente que interagir. Nessa mesma linha, é também eficaz usar pesquisas, notícias e até mesmo casos ocorridos na vizinhança ou com amigos, enfim, casos que estejam tematicamente próximos do assunto.

Outra postura fundamental é a do timing: pais não devem esperar que o(a) filho(a) chegue a uma situação-limite, que já tenha tomado uma decisão definitiva. Para isso é fundamental também acompanhar os movimentos da alma do filho, preferencialmente desde tenra idade, a ponto de já conhecer e “ler” as mínimas contraturas faciais, identificando os estados d’alma, as emoções que ditaram tais contrações faciais, às vezes praticamente imperceptíveis, mas que não devem escapar aos pais. É claro que esse processo de “alfabetização” dos pais na leitura dos padrões reativos dos filhos, e não apenas das expressões faciais, deve começar desde tenra idade das crianças, e será tanto mais eficaz quanto mais cedo começar e na razão direta do interesse dos pais com relação à forma como seus filhos se sentem e (re)agem a tudo e a todos. Como é próprio da natureza de qualquer processo, por definição, o desenvolvimento aprimora o resultado final, também nesse processo, os pais vão alcançando padrões cada vez mais acurados na leitura das emoções, posturas, comportamentos, pensamentos, reações dos filhos. Mas sempre é tempo de começar. Melhor começar um pouco – ou até mesmo muito – depois, do que nunca.

Uma forma de descontrair logo de início a conversa é começar abordando a insegurança, dizendo que ela é própria da adolescência, e os pais devem dizer que também viveram essa situação, que é normal nessa fase da vida; nesse contexto, funciona também o comentário, quase confissão - o que estreita os laços de afetividade durante o diálogo - de que eles, como pais, recordam que quando tinham essa idade, também tiveram incertezas, inseguranças, medos.

Importante é não minimizar ou mesmo negar a sexualidade do adolescente, qualquer que seja a situação, durante a conversa – que então não frutificará em benefício do jovem – e nem em outras situações de convívio, como reuniões com amigos ou mesmo em casa etc.

Mas não fiquemos com a impressão de que para tudo deve haver tanta compreensão por parte dos pais que os adolescentes podem dizer e fazer tudo que desejam. Não. Se os pais têm valores que os adolescentes estejam, deliberadamente ou não, afrontando, devem deixar isso bem claro para os filhos, sem rudeza, mas com firmeza, como, por exemplo, horário de voltar para casa, namorar de portas fechadas no próprio quarto a noite inteira etc.

Dar limites é também uma prova de amor e de interesse pelo outro, e os adolescentes também são capazes de compreender isto, ainda que nem sempre ao nível consciente.

Fundamental também é ouvir o que o adolescente tem a dizer, quando ele resolve “abrir-se”, e isso deve ser valorizado pelos pais, que devem ouvir, escutar, e não elaborar juízos de valor, não criticar, não fazer julgamento, mas, se for necessário, discutir o que está em jogo, os valores que estão determinando tal ou qual posicionamento do adolescente.

O assunto, tão delicado, requer sensibilidade e paciência. E amor, acima e antes de tudo, mas sem pieguismo, sem concessões que venham a gerar arrependimentos no futuro – de ambas as partes.


*Nadja do Couto Valle é Doutora em Filosofia, Mestre em Educação, Professora Universitária, Ex-Diretora do Colégio de Aplicação da Universidade Estadual do Rio de Janeiro.

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Continue a leitura da Edição 83 da Revista ReConstruir.

 

 

 

 

 

 

 

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