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Pelos Caminhos da Educação

Ano 9 - nº 82 - 15 de maio de 2010

Conversando com o adolescente sobre sexualidade - I


por Nadja do Couto Valle*

É sabido que o jovem atravessa desafios durante a puberdade - fase de natureza biológica e durante a adolescência - fase que envolve muitos outros fatores com implicações variadas, tanto no plano físico quanto no emocional, psicológico, social e até mental.

As mudanças no corpo pressionam o indivíduo a ajustar a percepção psíquica do eu que se constrói ao longo da infância e que é forçada a modificar-se na adolescência: a consciência do eu é a consciência do próprio corpo, ou seja, do eu físico, segundo definição de Ajuriaguerra. Esse eu corporal, psíquico e somático, é designado pela psicologia moderna como esquema ou imagem corporal. O adolescente então vê-se na contingência de ter que inaugurar uma nova relação com o corpo, inclusive com alterações aceleradas que ocorrem no plano físico. Como processo biológico, tem início no sistema nervoso central, na região do hipotálamo e da hipófise, situados na base do cérebro e que produzem hormônios, os chamados hormônios sexuais, que estimulam as gônadas, ou seja, ovários e testículos. É nessa fase que o adolescente começa a "mudar de cara" e a definição de gênero patenteia-se no rosto e no corpo.

Medos, inseguranças, rebeldias, ansiedade, desafios de toda ordem compõem um painel na vida do adolescente que todos os adultos já atravessaram, mas do qual a maioria não lembra, ou teima em não lembrar.

Mas ele vai crescer e vai aprender a fazer escolhas, aprendendo igualmente a ser responsável por elas, a responder por elas, pelo uso do livre-arbítrio. Para isso ele vai aprendendo também que tudo tem consequências, andar de moto a 200km, fazer sexo sem usar camisinha etc. - enfim, ele vai aprender a fazer a análise do benefício e do custo de cada opção que faz na vida,e vai aprender também que ninguém vive completamente isolado em tribos, e que cada opção que fazemos tem conseqüências para muitas pessoas e repercute em várias situações, no presente e no futuro e que, com raríssimas exceções, tem consequências exclusivamente para a própria pessoa. Fundamentalmente, se pensarmos em termos filosóficos, a liberdade, que ele tanto deseja, é um bônus - mas que, como qualquer outra coisa, também tem seu preço!

Aqui entramos no campo de como ensinar nossas crianças e jovens a fazer escolhas responsáveis. Inclusive no exercício da sexualidade. Para isso, é fundamental conversar, dialogar. Vamos nós aqui agora desenvolver este assunto tão importante para eles, para os pais e para os professores e educadores de um modo geral.

Este é um exercício que se revela tão importante e até talvez igualmente difícil para ambas as partes; no entanto é indispensável insistir e ... praticar, porque os resultados positivos logo surgirão.

Esse "papo" deve revestir-se de um tom que não seja imperativo, do tipo "lição de moral", ou do tipo "eu já passei por isso, agora sente-se e ouça a minha experiência" etc. Quanto mais espontâneo, descontraído, melhor. E se você, como pai/mãe, professor(a), irmã(o) mais velha(o), realmente ainda não se sentir à vontade, pode dizer isso abertamente ao seu interlocutor adolescente - até porque ele já deve ter percebido imediatamente, e vai valorizar o fato de que, apesar de não estar à vontade como gostaria, você está ali, investindo na relação aberta com ele e dando conta de seu papel.

Importante que os pais não se detenham apenas na parte relativa à prevenção. Eles têm dito que já aprenderam isso na escola, com os amigos, com a mídia e admitem, na maioria, que isso é importante, sim, mas que agora eles querem mesmo é falar sobre o que acontece com a sua cabeça e com o seu coração quando se apaixonam, namoram e ... fazem sexo! Portanto, ao falar com o adolescente, devemos abrir o leque de comentários para abranger os aspectos correlatos como amor, paixão, aceitação do corpo, amizade, rejeição, desejo, ciúme, sentimentos e emoções, valores relacionados a todos esses aspectos.

Enfrentando a hipótese, real, de ele não querer "se abrir", de não querer falar, o que fazer? Respeitar o direito dele de resguardar sua via íntima, e mesmo diante da rejeição, dê um jeito de deixar bem claro para ele que você continua disponível para ele. E se houver resistência, rejeição, cumpre ao adulto estabelecer um clima de aliança, e não de luta, de guerra, de espaço de poder. Por isso, esta é uma "regra de ouro": não inicie uma conversa com o objetivo de castigar, de criticar, de menosprezar, de colocar-se acima dele etc.

Esse clima de informalidade, confiança e abertura na abordagem de assunto tão delicado para o mundo íntimo de todos nós, é a base segura sobre a qual se pode estruturar uma relação de abertura para se conversar com o adolescente sobre a sua própria sexualidade, sem menosprezá-la e sem temê-la. Boa sorte nessa empreitada! Continuamos nossa conversa em nosso próximo encontro. Até lá!

*Nadja do Couto Valle é Doutora em Filosofia, Mestre em Educação, Professora Universitária, Ex-Diretora do Colégio de Aplicação da Universidade Estadual do Rio de Janeiro.

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Continue a leitura da Edição 82 da Revista ReConstruir.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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