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Pelos Caminhos da Educação Ano 9 - nº 81 - 15 de abril de 2010 Ainda o mesmo e velho problema
Com alguma freqüência ouvimos de alguns pais que estão meio perdidos. Afinal, devem dar ou não limites aos filhos? E os traumas que isso pode provocar? A preocupação é legítima, do ponto de vista dos pais que desejam acertar, embora não tenham segurança a respeito do melhor proceder. Na verdade eles temem ser rígidos como os pais mais antigos, como se costuma dizer, que davam tantos limites, e eram tão rígidos em seu cumprimento, que passavam uma imagem de autoritarismo, que muitas vezes os filhos verdadeiramente sentiam na pele. Mas o curioso é que não se tem notícia de que esses pais vivessem esse dilema existencial de alguns pais de hoje, que temem ser extremamente rígidos e aí ... acabam tornando-se extremamente lenientes, permissivos! É que em boa hora, já faz algum tempo, começou-se a invocar as questões da psicologia a aplicarem-se às questões do cotidiano da relação pais e filhos. Esse é o ponto positivo - e o negativo é que a exacerbação e unilateralismo dessa aplicação descambaram para um psicologismo. Com isso os pais acabaram ficando perdidos, porque não só foi exagerado o âmbito de aplicação da psicologia como também foram os seus postulados divorciados de outras áreas, como a Filosofia, a Sociologia , a Antropologia, dentre outras, que subsidiam a área da Educação. O quadro é interessante, senão vejamos. É sabido que no campo da Filosofia Moral, ou Ética, que há interdições, ou proibições, no mundo moral, e ninguém desconhece que há, também, sanções para os indivíduos: recompensa para quem segue a norma, e punição para quem não a segue. No quadro das relações na sociedade em geral, para toda transgressão deve haver uma punição, e a cada grave transgressão das regras deve corresponder uma real punição. Ora, como ficaram então os pais? Divididos entre a postura orientada pelo psicologismo a que nos referimos ainda há pouco, e que faz eco, ainda nos dias de hoje, à liberalidade dos anos 60, e os conceitos modernos de educação que refletem o princípio da Filosofia Moral de que deve haver sanção para todo ato ou transgressão grave. Tais conceitos modernos recomendam então que deve haver punição das crianças como forma de corrigir comportamentos errados em que as crianças sejam reincidentes. Esse conflito de direções na orientação dos filhos redunda nessa insegurança dos pais com relação à melhor forma de educar suas crianças. Afinal, pensam eles, e desabafam conosco, se somos liberais e primamos pela compreensão, somos permissivos, coniventes até! E se proibimos, brigamos, colocamos limites, somos autoritários, insensíveis até, provocamos traumas. Ora, ninguém vai morrer porque lhe foi colocado um limite. Mas, é claro que colocar limite implica em saber por que está-se colocando o limite, qual o objetivo dessa providência e - importantíssimo - como se está colocando o limite. Há pressupostos e características do "não" que devem ser observados para que ele efetivamente sirva à proposta educativa. Dentre outras coisas, o "não" deve ser consciente, coerente, firme, justificável e explicado às crianças e jovens, mas deve ser também amoroso, gentil, sem rudeza e sem autoritarismo e, repetimos, amoroso. "Porque sim" e "porque eu quero" não são justificativas para a criança ou jovem, que precisa entender o motivo da proibição até para perceber que não se trata de vingança ou arbitrariedade. Assim cai por terra a opinião de algumas pessoas que ainda hoje acham que dar limites é dizer "não" e que isso significa deixar filhos e alunos infelizes, mas isto, como se vê, não é verdade. Até porque é rigorosamente necessário estabelecer o equilíbrio entre o "não" e o "sim", como elementos complementares que integram o processo de educação. O importante é não dizer o " sim" e o "não" por comodismo, indiferença, pressa. A experiência com o "sim" e com o "não" redunda em rico movimento íntimo no campo da educação da emoção e propicia autoconhecimento da criança e do jovem na forma como reage a essas situações, equipando o indivíduo a treinar liberdade de escolha e disciplina, para chegar ao equilíbrio desejável através da experiência tanto com um como com o outro, ensejando condições para o equilíbrio das relações pessoais. Tratamos do tema, riquíssimo, no capítulo 3 de nosso livro Pelos Caminhos da Educação 2. Há muito mais informação para os pais de hoje do que para os nossos pais ou nossos avós. Essa base científica não exclui, no entanto, a participação da força do amor e do instinto no processo de educação dos filhos. Não há, portanto, hoje, motivos para os pais ainda se sentirem inseguros, com sentimento de culpa. Equipados com amor - mas sem pieguismo! - instinto e informações científicas, eles podem bem cumprir a sua missão. Afinal, os pais chamados "antigos" não sentiam culpa porque acreditavam que realmente estavam fazendo o melhor para o bem e a felicidade de seus filhos. E os pais de hoje também podem construir essa postura de segurança, sem se sentirem culpados, se orientarem suas ações educativas pelas conclusões científicas que estão hoje disponíveis para eles, e se revestirem suas ações de amor e confiança de que estão efetivamente fazendo o seu melhor para o bem e a felicidade de seus filhos. *Nadja do Couto Valle é Doutora em Filosofia, Mestre em Educação, Professora Universitária, Ex-Diretora do Colégio de Aplicação da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. .................................... Continue a leitura da Edição 81 da Revista ReConstruir.
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