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Pelos Caminhos da Educação Ano 9 - nº 80 - 15 de março de 2010 (In)coerência de pais e adultos
Duas senhoras, um dia desses, reclamavam dos filhos que não seguiam as orientações que recebiam. "Já cansei de dizer a ele, mil vezes eu já disse!, agora ele já é um menino crescido, quase um rapazinho, e já não fica bem, não é mesmo?" A outra disse: "Pois é, filhos criados, trabalho dobrado, ainda bem que a minha ainda está pequena, e por enquanto, pelo por enquanto, só me dá preocupação com a comida, não consigo fazer com que ela coma verduras!" Pois é, essa conversa tão simples, e até prosaica, diríamos, envolve, como vemos facilmente, preocupações de níveis diferentes. Uma delas retrata uma linha que privilegia como ensinar a alimentar, vestir, como estimular as crianças a brincar e assim por diante. Esse é, inegavelmente, um aspecto importante de nossas ações educativas, porque envolve questões ligadas à saúde das crianças, sobre a qual os pediatras são incansáveis em alertar a população. Mas em outras partes do mundo, em outros lares, e portanto em outras culturas, essa parte da conversa não faria muito sentido. Além do mais, à medida que vão crescendo, crianças e jovens vão estruturando hábitos alimentar-se de acordo com sua cultura, com seu gosto pessoal. No entanto, vale aqui uma ressalva: não se pode desconsiderar o fato de que há/tem havido uma espécie de "colonização do estômago", pois no mundo inteiro as crianças, jovens e até mesmo adultos, comem o mesmo tipo de fast food, de sanduíche e de refrigerante etc. A Escola de Medicina da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, acaba de divulgar o resultado de pesquisa a respeito do crescimento de casos de obesidade infantil, atribuindo a causa desse quadro ao fato de que pais de filhos com sobrepeso sabem exatamente o que faz mal à saúde das crianças, mas sentem insegurança em proibir os maus hábitos e os alimentos que causam tal quadro. Os médicos recomendaram aos pais das 440 pais de crianças entre dois e doze anos, com sobrepeso, que constituíram o universo da pesquisa a proibir refrigerantes, aumentar o número de refeições, obrigar a prática de exercícios físicos, vetar refeições diante da televisão, bem como reduzir o consumo de fast food. Mas os pesquisadores observaram que as mudanças nem sempre aconteceram porque os adultos sentiam-se castigando as crianças ao darem esses limites, e dentre os itens mais desrespeitados, ficaram a restrição ao uso da televisão e as refeições em família. O estudo também identificou uma relação entre pais que estavam no peso ideal sentiram-se mais à vontade para impor os novos comportamentos, enquanto que os pais obesos revelaram-se mais relutantes em observar as recomendações dos médicos pesquisadores. Mas voltemos à outra parte da conversa. Do que se pode depreender da fala da outra senhora, o filho tinha um certo comportamento quando era menor, comportamento esse que agora, ao que parece, não é mais admissível, ou pelo menos já não é mais admitido. O que está por trás da fala dessa mãe? Que quando o filho era pequeno, os pais permitiam esse comportamento, ou a mãe, pelo menos, o permitia. Pelo visto, não se trata de certos movimentos, hábitos, comportamentos mesmo típicos de faixas etárias mais baixas, até por razões de natureza fisiológica, biológica, e que são automaticamente deixados, à medida que a criança cresce. Agora, vejamos: isso que está por trás da fala da mãe, de que a própria talvez não tenha consciência, varia de cultura para cultura, de lar para lar? A resposta, claro, é não, não varia, porque diz respeito a um dos aspectos da essência da vida familiar. E não somos só os filósofos que vivemos buscando a essência de tudo. Como educadores, precisamos distinguir com precisão os aspectos imutáveis da vida familiar, qualquer que seja a cultura. Isto está relacionado com o que chamamos valores eternos, a respeito dos quais não podemos transigir ou mesmo negociar, nem mesmo quando os filhos e alunos estão em faixa etária baixa, porque crianças em faixas etárias iniciais podem - são capazes de - perceber seus limites e vão aprendendo os valores que fundamentam tal ou qual situação. Essa conversa fez-me lembrar o psicólogo Laurence Steinberg, da Temple University, um dos profissionais mais conceituados dos Estados Unidos, autor de cerca de uma dezena de livros e de quase duzentos artigos para jornais e revistas sobre desenvolvimento infantil. Em seu livro Os dez princípios básicos para educar os filhos, ele se concentra, exatamente, nas questões essenciais na vida familiar, e que por isso mesmo não variam de uma para outra cultura. No caso da mãe que agora não admite mais que o filho continue a apresentar o comportamento que tinha quando era menor, estamos diante de uma situação que perfeitamente se inscreve nesse quadro. Alguns pais são permissivos quando suas crianças são pequenas mas depois, para "compensar" essa concordância, essa cobertura, quando os filhos crescem transformam-se em verdadeiros fiscais, guardas - reportando-nos aqui apenas ao aspecto de seu trabalho que esses profissionais precisam imprimir às suas ações por força da função que exercem e que é indispensável em nossa sociedade. Por isso é fundamental os pais fazerem seu exercício de autoavaliação, que é de autoconhecimento, para saberem se incorrem nesse tipo de incoerência. *Nadja do Couto Valle é Doutora em Filosofia, Mestre em Educação, Professora Universitária, Ex-Diretora do Colégio de Aplicação da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. .................................... Continue a leitura da Edição 80 da Revista ReConstruir.
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