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Pelos Caminhos da Educação

Ano 9 - nº 79 - 15 de fevereiro de 2010

O início das aulas e os cuidados com nossas crianças


por Nadja do Couto Valle*

É tão bonito vermos a cada dia as crianças que vão para a escola ou de lá voltam para casa, em alegre e infantil algazarra, como aves implumes que se preparam para o voo ... e todos nesses momentos percebemos o quanto às vezes é penoso para elas carregarem uma quantidade imensa de livros em suas mochilas, já vindo por sua vez de salas eventualmente mal iluminadas, nas quais usaram carteiras que os deixaram com dores nas costas ... Mas será que essa fase tão importante e linda de descoberta do mundo e dos códigos de trabalho com as várias áreas de vivência no mundo tem que necessariamente trazer consigo uma tal carga de desconforto?

A resposta é, obviamente, negativa. E há soluções ou alternativas para tratar da questão? Aí a resposta é afirmativa.

Já faz algum tempo que grandes empresas perceberam que a infra-estrutura adequada é fundamental para o bom desempenho dos funcionários, pois a produtividade é maior. E em boa hora algumas escolas e muitos pais passaram a ficar atentos também a esse aspecto, que pode proteger ou comprometer a saúde das crianças e jovens, sobretudo em matéria de postura.

Nesse quesito, avaliemos inicialmente a questão pontual das mochilas e depois pensaremos na escola como um todo.

São as grandes vilãs em 60% dos casos de crianças com problemas nas costas e nos ombros, segundo pesquisa desenvolvida pela Academia Americana de Pediatria. E por que isso acontece? A causa está, basicamente, na forma errada de carregar a mochila, com excesso de peso, o que pode prejudicar a criança agora, mas pode também trazer sérias repercussões na vida adulta.

São várias as conseqüências associadas ao mau uso de mochilas, e nomeamos algumas, para observarmos atentamente nossas crianças e jovens, como também para avaliarmos as bolsas que, como adultos, carregamos diariamente: a) problemas de postura de um modo geral; b) lordose; c) cifose; d) escoliose; e) deformidade, em casos extremos.

Há algumas orientações e regras para evitar as dores.

1. Peso: no máximo 10% do peso do estudante;

2. Posição: mochila ou bolsa deve ficar apoiada na região dorsal, e nunca com as duas alças sobre o mesmo ombro, porque o peso deve ficar distribuído por ambos os lados do corpo, e não concentrado em um lado só;

3. Cinturão abdominal: é recomendado o seu uso, para evitar o atrito da mochila ou bolsa com as costas e ajuda a manter a distribuição correta do peso a manter a distribuição correta do peso da mochila ou bolsa nos dois lados do corpo;

4. Alças acolchoadas e anatômicas: porque evitam lesões nos ombros;

5. Design: com poucos bolsos, para diminuir o peso da própria mochila, e também porque mochilas grandes ou cheias de pequenos compartimentos, funcionam como uma espécie de "convite" a carregar material desnecessário;

6. Malas com rodinhas: são adequadas quando, na altura certa, pois a criança não precisa abaixar-se com ela.

Na escola, desde a fase escolar, o indivíduo pode estar "construindo" problemas de postura que podem redundar em situações mais graves. Estudos têm mostrado que é mais freqüente do que se pensa encontrar jovens empregados da iniciativa privada afastados por lesões ocupacionais. Aos 25 anos, muitos são afastados precocemente por lesões ocupacionais importantes.

Em termos gerais, não há uma política para a prevenção de doenças adquiridas na infância, apenas tentativas ou esboços de medidas de combate às doenças do sistema músculo-esquelético.

Relativamente à escola, muitos fatores, que aliás os pais devem levar em consideração quando escolhem a escola para o filho, influem na postura em sala de aula, tais como: o mobiliário, a iluminação e a ventilação adequadas, porque, quando incorretas, podem obrigar o aluno a procurar posições alternativas que facilitem a leitura, por exemplo.

Por exemplo, as cadeiras devem ter apoio para as costas e altura que permita plantar os dois pés no chão; as carteiras e escrivaninhas devem ser ajustadas ao tamanho da criança. Devido à rapidez do crescimento, o ideal é que ao menos a cadeira tenha mecanismo de regulagem de altura para pernas, braços e espaldar. Já para a mesa do computador vale a mesma orientação dada com relação a mesas e cadeiras na escola, com o cuidado adicional de que a altura da tela também deve ser adequada de forma a evitar que haja postura desconfortável para a coluna, para o pescoço. O micro deve ter apoio para os pulsos, mas a minha experiência pessoal é de que o apoio até os cotovelos aumenta o conforto, os pés devem ficar no chão, em ângulo reto com o piso, joelhos e tronco, como é o caso das carteiras e cadeiras de que já falamos no item anterior, e semelhantemente, se o móvel não for regulável, a criança vai precisar de uma caixa ou outro objeto. Relativamente à iluminação correta, a criança deve regular o nível da luz da tela de acordo com sua sensibilidade ocular. Professores e pais evidentemente devem estar atentos a isso, na escola e em casa, com relação aos filhos e a eles mesmos.

A rigor, não há escola perfeita em termos de ergonomia, segundo os fisioterapeutas, embora todas tentem sempre evitar danos à coluna e articulações dos alunos.

De um modo geral, o que falta às escolas são equipamentos reguláveis à altura de cada criança. Mas também os espaços usados pelos professores devem merecer grande atenção, como, por exemplo, cuidados com ergonomia: investir nas condições de trabalho representa prevenção de doenças ocupacionais nos profissionais que detêm a responsabilidade de levar a cabo a consecução dos objetivos do projeto educacional da escola. Levando-se em consideração a realidade econômica do país e as dificuldades que a instituição possa atravessar, usar soluções práticas e baratas deve ser o plano de ação da escola.

Bom início de aulas para todas as famílias, porque, como sabemos, o início das aulas envolve diretamente toda a família.

*Nadja do Couto Valle é Doutora em Filosofia, Mestre em Educação, Professora Universitária, Ex-Diretora do Colégio de Aplicação da Universidade Estadual do Rio de Janeiro.

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Continue a leitura da Edição 79 da Revista ReConstruir.

 

 

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