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Pelos Caminhos da Educação Ano 9 - nº 78 - 15 de novembro de 2009 A síndrome do final de ano
De repente, já estamos quase no final do ano. Algumas pessoas, algo exageradas, vão logo dizendo que "o tempo voa, passa tão rápido que nem sentimos ... já estamos no final do ano!" Exageros à parte, é claro que já entramos mesmo no último trimestre do ano. E já estamos todos ouvindo o tilintar natalino dos sinos de dezembro pelos shoppings afora, das caixas registradoras nas lojas ... Vai ficando cada vez mais difícil as pessoas não "entrarem no clima", até porque a época tem um dos mais fortes apelos - talvez o mais forte deles - para a liberação de obrigações e para o envolvimento mais leve nos relacionamentos, na vida enfim. As ideias cada vez mais fixas em compras, presentes, férias, lazer, celebrações de despedida ... Para as crianças o apelo é mais do que sentido, é quase obrigatório. Este é um momento de alerta para os pais, que não se devem deixar envolver pelo clima, devem, antes, mais do que nunca supervisionar a produtividade dos filhos na escola. É claro que a função supervisora dos pais deve ser permanente, o que certamente vai monitorando os fatores motivacionais das crianças e jovens ao mesmo tempo que vai permitindo correções de "acidentes de percurso" na linha de aproveitamento deles. Cabe aqui uma observação a respeito da responsabilidade supervisora da família. Muitas vezes adultos verificam os registros escolares, as notas e conceitos, os apontamentos e recados nos diários das crianças enviados pela escola. E reclamam, advertem, quando os resultados deixam a desejar. Impõe-se investigar as causas, que podem ser de natureza fisiológica, emocional, psicológica, psicopedagógica. Interessante no entanto também observar que às vezes algumas distrações da família na supervisão das atividades dos filhos podem contribuir para a queda de rendimento das crianças, sobretudo na linha dos valores que todos transmitimos uns aos outros - e no campo da Educação é fator crucial - ainda que de forma não consciente. Vejamos algumas situações que podem ser graves, por falta de assertividade, quando se trata de as crianças: 1. cumprirem horário de ir dormir, pois durante o sono sabidamente o organismo libera o hormônio do crescimento; 2. pararem de usar o computador, com o agravante dos perigos na internet que hoje envolvem nossa infância e juventude; 3. desligarem a televisão, caso em que circunstancialmente podem até estar reproduzindo o comportamento dos pais, que não desligam o aparelho; 4. pararem de distrair-se com joguinhos etc., que, se não forem interrompidos um bom tempinho antes do horário de dormir, fortalecem a dificuldade de adormecer, e que devem ter seu horário restrito também durante o dia, para o cumprimento das tarefas como trabalho de casa etc. Há, ainda, outras distrações da família a respeito das quais aconselha-se a maior atenção, pois interrompem a rotina de trabalho/estudo da criança/jovem. Professores e a equipe escolar costumam observar os prejuízos para o processo educativo, de aprendizagem, quando pais, mães marcam saída para viagem no horário escolar do filho, ou marcam dentista, médico etc. em cima do horário das aulas, e às vezes vão, os próprios pais, solicitar à escola a liberação dos filhos antes do horário de saída ou mesmo fazem os filhos faltarem às aulas para saírem para o feriadão etc. Eis um grave momento para todos fazermos exercício de auto-avaliação, no sentido de identificarmos quais os valores reais que estão sendo transmitidos aos filhos. Estes ouvem que é importante estudar, ser pontual, assíduo etc. e de repente são instados a abandonar a aula, o estudo para saírem a passear. Bem, mas o que isto tem a ver com o clima de final de ano e de um certo, eventual, afrouxamento no cumprimento de obrigações? Ora, se um feriadão ou simples final de semana é motivo para afastar a criança da escola, então, que não se poderá dizer das festividades de final de ano! E as notas baixam, há queda de rendimento acadêmico, embora, às vezes, o quadro possa decorrer mesmo de preguiça do aluno. Então tem início um outro ciclo igualmente nocivo à criança e ao jovem. Começam as "providências" do desespero para "tirar a diferença": "virar a noite", tomar bastante café e/ou/com algum tipo específico de refrigerante para ... ficar acordado. Interessante o paradoxo desse momento: de um modo geral crianças e jovens no Brasil dormem habitualmente muito mais tarde do que em outros países - como atesta a conclusão de pesquisa divulgada hoje - mas com a diferença de que o fazem porque estão-se distraindo, e no momento de que estamos tratando crianças e jovens já estão preocupados com a aprovação na escola e com todos os seus desdobramentos e então acham que "precisam" de providências como essas. Naturalmente que o mais importante, desejável, saudável é o aluno dedicar-se igualmente durante todo o ano letivo, caso em que não precisará estressar-se nem à sua família. Importante observarmos que os alunos ainda podem reverter a situação de "perigo": ainda há tempo para o aluno dedicar-se mais em atenção durante as aulas, em fazer cuidadosamente os trabalhos de casa, em estudar um pouco mais além do que lhe é recomendado regularmente, restringir situações de lazer, portanto concentrar-se, focar no que é essencial, que é estudar para lograr aprovação. Mas, sobretudo em fases como essa, crianças e jovens precisam de estímulos sistemáticos, com a companhia física e emocional, psicológica, dos pais e da família de um modo geral. Se necessário, pais, abdiquem de seu lazer, por solidariedade aos filhos, e o resultado certamente compensará. Sem falarmos nos valores humanidade, disciplina, solidariedade, desprendimento, cumprimento do dever - do ponto de vista tanto do aluno quanto dos pais, dentre outros. Mas é fundamental que isso seja feito com sinceridade, sem que, pela via da linguagem não-verbal, a criança ou jovem perceba aquele ar de enfado, o olhar de crítica por ser ela ou ele "responsável" pelo fato de os pais não estarem saindo para estar com os amigos, ou ir ao teatro, ao restaurante etc. Agora, sobretudo, é fundamental que pais acompanhem com maior atenção ainda os trabalhos de casa e o ritmo de provas, testes e trabalhos dos filhos, e seu índice de aproveitamento, e, se for ocaso, estudando junto com eles. O apoio psicológico, emocional da família é fundamental nesta como em qualquer outra fase da vida do indivíduo. Acaba sendo um momento de teste para todo o conjunto familiar, que acaba fortalecendo seus vínculos e dilatando afetos. E os frutos desses movimentos são valiosos investimentos para toda a vida, de todos. Boa sorte a todos, nesse empreendimento! *Nadja do Couto Valle é Doutora em Filosofia, Mestre em Educação, Professora Universitária, Ex-Diretora do Colégio de Aplicação da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. .................................... Continue a leitura da Edição 78 da Revista ReConstruir.
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