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Pelos Caminhos da Educação

Ano 9 - nº 76 - 15 de setembro de 2009

A formação de hábitos e a drogadependência


por Nadja do Couto Valle*

A juventude tem sido fonte de muitas interrogações desde tempos remotos. Hoje, as perplexidades se agigantam, particularmente em função de novos agentes e contornos culturais, situacionais, sociais, que se lançam sobre nossos jovens e cada vez mais exigem da família e da escola ações educativas firmes embora sempre afetuosas, mas jamais coniventes. A psicanálise muito contribuiu para a abordagem à problemática do jovem, inclusive para desmitificar a afirmação da intratabilidade dos adolescentes. A partir dos anos 50 do século passado, a juventude inicia uma forma de contestação, fazendo surgir os hippies, as drogas, a luta pela liberdade sexual, os protestos estudantis, uma verdadeira revolução de hábitos, linguagem e indumentária que aliás atingiu até os adultos.

Hoje, segundo as pesquisas, os jovens de todas as classes sociais também se interessam por indumentária, como é natural, mas a estética "da vez", se comparada ao "look" dos hippies, está muito mais para "patricinha/mauricinho", com as compras em lojas virtuais e reais, que absorvem a maior parte das mesadas, e avançam nos cartões de crédito, tema de que tratamos na edição passada. E para que se vestem assim? Para sair com os amigos, ir ao shopping, ao cinema ou a uma festa. Por falar nisso, se os pais deixarem, festa é o que não falta: eles acabam indo a uma balada a cada noite, e algumas dessas saídas podem mesmo arrastar-se até o dia seguinte.

A questão nos convida a uma reflexão do ponto de vista da Educação: é fundamental trabalhar os limites em qualquer faixa etária em que estejam os filhos. Os pais devem estabelecer horários para os filhos chegarem de volta à casa vindo de suas festas e passeios. Mas, diga-se de passagem, essa orientação deve ser habitual desde tenra idade, desde quando a criancinha vai brincar na casa do amiguinho e em qualquer - absolutamente qualquer - circunstância. Ora, não é depois de passar toda a sua vida, desde a infância até a pré-adolescência ou adolescência fazendo o que bem quer, mandando e desmandando no espaço e no tempo da própria vida, e da vida e da casa dos pais, que o adolescente vai aceitar docemente um limite - e só agora, e justamente com relação a uma coisa que lhe dá as tão desejadas independência e autonomia, e ainda por cima afastando-o de junto de sua turma? Não é o caso de cercear a sociabilidade, a liberdade, a autonomia do filho, mas é uma questão de educar o desejo, de disciplina, de valores, enfim. Rotinas de horários para a higiene desde tenra idade, para a escola e para os deveres em casa, para ver televisão, videogame, internet etc. são investimentos que os pais fazem para que os filhos se tornem adultos responsáveis e dotados de civilidade e respeito ao sentido de grupo, tanto na esfera familiar quanto no ambiente de trabalho e até mesmo no de lazer.

E já que falávamos de festa ... hoje as estatísticas chegam a ser assustadoras relativamente ao uso do álcool por parte dos adolescentes - e de crianças. Lamentavelmente, os números têm apontado para um aumento crescente do álcool entre as meninas, e particularmente na faixa dos 9-10 anos! Está baixando cada vez mais a faixa etária a partir da qual nossas crianças e jovens entram para essa triste estatística.

Nas festas e nessas saídas, pode haver muita bebida, e até droga, sobretudo as sintéticas. Os números no Brasil assustam: são a taxa mais alta da América Latina, segundo pesquisa da ONU, a Organização das Nações Unidas, que concluiu que 35% dos adolescentes brasileiros de 12 a 14 anos consumiram algum tipo de bebida alcoólica no mês anterior ao estudo. O número sobe para impressionantes 56% na faixa de 15 a 16 anos. Com lamentável destaque para as meninas, que cada vez mais precocemente se expõem ao álcool e às drogas, inclusive pela facilidade que têm de entrar nas festas dos mais velhos, onde a bebida corre sem controle algum, porque elas amadurecem antes dos meninos, inclusive fisicamente.

Em várias telerreportagens de veículos de grande alcance midiático, todos já tivemos oportunidade de ver pré-adolescentes e adolescentes falando dessa sua experiência, alguns deles entrevistados em supermercados - coisa que nós próprios assistimos com facilidade quando vamos fazer nossas compras - e o que eles dizem, já tendo várias garrafas de bebida alcoólica no carrinho? Que é a sua cota para a festa, ou então, para beberem antes em casa, para "esquentarem" antes de chegar ao local festivo. É sabido que muitos entram nas festas com vodka em garrafas de ... água mineral ... !

Mas de onde e de quando vem isso? Já sei, todos lembramos imediatamente daquele velho exemplo do bar na sala da família, como se fosse uma espécie de altar; da família oferecendo às visitas - imitando as cenas das telenovelas e dos filmes - um drink (porque em inglês fica mais "chic"), assim que os convidados chegam; da célebre e tristemente famosa chupeta que o pai - geralmente o pai - molha na cerveja e dá ao filhinho de pouquíssimos anos de idade. E outros exemplos mais. Essas situações enquadram-se no que o psiquiatra argentino Eduardo Kalina chama de família pré-adictiva, que é o grupo familiar que dá esses sinais na direção do vício, sem explicitá-lo, assim como, em linguagem não-verbal, a mãe ou o pai sinaliza para o filho, desde que este é pequeno, que é válido tomar um comprimido quando se está tenso, quando se tem um problema ou se tem insônia, quando se está gordinho e quer perder peso e assim por diante. E sem consultar o médico!

Analisemos: mesmo que os pais verbalizem para os filhos que não devem beber, fumar, tomar drogas etc. a mensagem mais forte que fica é a do ato praticado, do exemplo que os próprios pais estão dando. É fundamental comentar com os filhos quando isso acontece em uma festa a que a família compareceu, ou em uma novela ou filme - por isso insistimos na imperiosa necessidade de os pais assistirem televisão junto com os filhos ou irem com eles ao cinema. E para que? Para estreitarem laços, vínculos afetivos com os filhos, para que estes criem confiança nos pais, o que leva os filhos a "se abrirem" com os pais, e assim estes passam a saber dos movimentos da alma de suas crianças e jovens, antes de eles se envolverem tanto com problemas como esses, do álcool e das drogas. Esses momentos de lazer informal e de camaradagem funcionam também como pano de fundo para as orientações educativas que são dever dos pais, que não devem sentir culpa, ou remorso, nem mesmo medo, ao dizer aquele nosso velho conhecido "não". É claro que ele deve ser amadurecido, fundamentado em valores, e deve ser dito, com equilíbrio e afeto, às crianças e jovens, que vão acabar compreendendo os motivos da negativa, porque trata-se precisamente disso: só a compreensão dos motivos leva à adesão à norma, ao limite. Até porque os pais também dizem - e devem mesmo dizer - "sim", que também deve ser amadurecido, fundamentado em valores, tudo isso conhecido pelas crianças e jovens. O mesmo vale, claro, para os professores.

É possível que os jovens ouçam em família: "Deixo de fumar quando quiser!", ou: "Paro de beber quando bem entender!", até porque "bebo apenas socialmente", como se houvesse "álcool social". O fato é que, com raríssimas exceções, nem mesmo quando adulto, o indivíduo é capaz de perceber que está entrando em um círculo literalmente vicioso, do qual dificilmente sairá sozinho, e sem seqüelas, quer físicas quer emocionais. Porque, logo nas primeiras ocorrências, está em curso o princípio da Psicobiofísica de que tudo começa com a primeira vez. Assim, quando os jovens experimentam álcool, tabaco, outras drogas, estão iniciando uma viagem macabra que pode vir a solapar-lhes a vida, e certamente vai-lhes roubar saúde, alegria, felicidade e bem-estar. E roubar tudo isso também a todos os que os amam. Assim, vai-se, em qualquer idade, da primeira vez, ao hábito, à adesão, à adição, ou seja à dependência!

Devemos considerar que muitas vezes o jovem se deixa envolver nesse caminho tanto infeliz quanto enganoso, para sentir-se aceito pelo grupo, até mesmo para ter a sensação de que é amado. É a humana necessidade de "pertencimento" prevista na famosa Pirâmide das Necessidades Humanas Básicas de Abraham Maslow. Mas o fato é que desse início "inocente" na família, no grupo de amigos ou de "amigos", em uma festa, ou mesmo na escola, como vimos, ele rapidamente chega à adesão, e, passo seguinte - também bastante rápido - chega à adição. Abre-se então uma fase de sofrimento individual e familiar, de desgaste físico, emocional, psicológico e material, pois os tratamentos são caros.

Questiona-se hoje a escalada monumental da drogadependência, do tráfico e dos outros males que vêm "a reboque" desses quadros. Especialistas buscam-lhes as causas e desenvolvem estudos. Devemos, ao lado deles, também estimular e desenvolver uma outra escalada também em proporções de monumentalidade: a escalada dos valores superiores do ser, da vida, da Educação pelo Amor, que desemboca na Amorterapia. Possam também e principalmente os nossos jovens ser capazes de amarem a vida preservando-se da adesão a caminhos equivocados. Sigamos com eles, filhos, alunos, jovens! Quaisquer que sejam! Todos merecem bons exemplos, valores superiores, estímulo, alegria, autorrealização, felicidade!

*Nadja do Couto Valle é Doutora em Filosofia, Mestre em Educação, Professora Universitária, Ex-Diretora do Colégio de Aplicação da Universidade Estadual do Rio de Janeiro.

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Continue a leitura da Edição 76 da Revista ReConstruir.

 

 

 

 

 

 

 

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