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Pelos Caminhos da Educação Ano 9 - nº 75 - 15 de agosto de 2009 O shopaholic ou a dependência das compras
Nossa sociedade - sem tempo, de correria, atividades aceleradas e relações aligeiradas, consumismo e superficialidade, culto ao prazer e ao individualismo - está transmitindo essa postura a nossas crianças e jovens. Nesse caleidoscópio de valores subvertidos, e felizmente já há movimentos que se contrapõem a tais posturas, o dinheiro ainda continua ocupando grande espaço na esfera de preocupações e desejos de nossa juventude. E é veículo para dar curso ao consumismo, cada vez maior. Seguindo essa linha de nosso raciocínio, e reportando-nos a pesquisa desenvolvida em 2009 pelo Núcleo Jovem da Editora Abril e Veja.com., os jovens das classes C, D e E têm menos dinheiro, mas comportam-se como os ricos: quando compram, preferem os lançamentos e as marcas famosas, confirmando pesquisa do site e-bit e do Instituto Análise, que hospeda lojas virtuais, segundo a qual a novidade de um produto é um dos principais atributos exigidos pelos brasileiros de 18 a 24 anos, com renda familiar até 1000 reais. Os jovens mais pobres estão dispostos a comprometer uma parcela bem maior de sua renda para adquirir produtos eletroeletrônicos. Além de desejarem inovação e marca, eles querem bens de valor mais alto, como notebooks, televisores de LCD e home theatres, que antes eram adquiridos apenas pelos mais ricos. Outra faceta da mudança no perfil desses consumidores é que entre facilidades de pagamento e qualidade, eles ficam com esta última. Os jovens de baixa renda assimilaram os hábitos de outros segmentos sócio-econômicos da juventude e também passaram a procurar ofertas na internet e a comprar em lojas virtuais. Os itens variam e incluem, dentre outros, para os mais abastados, relógios americanos para eles e suíços para elas, camisetas pólo, tênis e sandálias de salto, jeans e tops italianos, bolsas francesas, e, claro, celulares iPhone etc. etc. etc. ... Guardadas as devidas proporções, que incluem status familiar e padrão de vida, é educativamente recomendado que não se dêem muitas facilidades sem que se requeira qualquer esforço. É fundamental a aprendizagem de saber quanto esforço custa cada conquista, e materialmente falando quanto custa cada objeto, cada compra. É natural que jovens, como qualquer pessoa queira sempre apresentar-se bem, sobretudo em uma sociedade que vive da imagem como a nossa. Jovens, então, compram e compram! para vestirem-se e apresentarem-se bem, segundo seus padrões e em obediência à estética específica da faixa etária, para sair com os amigos, ir ao shopping, ao cinema ou a uma festa, ao clube, à praia e assim por diante. Mas, como diziam os antigos, in medio virtus - a virtude está no meio, e Buda formulou cristalinamente: a virtude está no caminho do meio, do equilíbrio. A questão que se põe, até - ou inclusive - para os adultos, é exatamente como resistir à avalanche de solicitações, de propaganda maciça, de convites e mensagens insistentes e glamurosas que acenam com a realização do sonho do indivíduo se ele usar tal ou qual coisa de tal marca, comprar este ou aquele item da moda e assim subsequentemente. Como resistir a tudo isso, se adicionalmente os amigos fazem "pressão" mostrando ou até mesmo ostentando que já têm - "acabaram de comprar"! - este ou aquele último lançamento de roupa, perfume, tênis, bolsa, i-pod ou qualquer outro equipamento eletrônico e até carro, já do ano seguinte! É certo que é mesmo difícil resistir sobretudo se o indivíduo não costuma fazer o planejamento de sua vida econômico-financeira, se não tem controle sobre as próprias contas, o que no caso equivale a dizer que tem pouco ou nenhum controle sobre suas emoções e impulsos. Em tempos de crise, de início podemos ficar com a impressão de que esse descontrole fique arrefecido. E de fato pode, exceto se o comprar já estiver instalado como hábito tão persistente que é capaz de tiranizar o indivíduo, que então já passou a comprar apenas por comprar. Hoje esse comportamento já é considerado como uma doença: a dependência das compras. As causas que propiciam tal vício podem ir desde a solidão e o vazio existencial até ter uma personalidade impulsiva e insegura, que desse modo procura "compensar" essas lacunas em sua vida material e emocional com as coisas que compra sem parar, e mesmo sem necessitar. O dependente experimenta uma tensão crescente que só alivia quando o indivíduo compra, cedendo a um impulso (já) irresistível ou necessidade de comprar. Muitas vezes os próprios amigos, inadvertidamente, podem incentivar, acentuar esse comportamento doentio, ao elogiarem tal ou qual compra que o doente tenha feito, ou mesmo ao comentarem ou mostrarem alguma coisa que tenham comprado, ou que tenha sido lançada no mercado. Se alguém detectar esta dependência em um amigo ou parente, deve passar a comportar-se de modo a evidenciar verdadeiro interesse pela pessoa do amigo/parente e não pelas compras que ele tenha feito, e discutir com ele se vale a pena comprar tal coisa, se essa é a melhor destinação para seu dinheiro, quais os valores que norteiam sua vida e assim por diante. Lembremos no entanto que é bastante difícil até mesmo conduzir um diálogo nessa linha se o indivíduo já estiver bastante comprometido nessa dependência. E como ela começa? Bem, ir às compras com familiares ou amigos é até normal, mas o problema começa mesmo quando isso se torna alguma coisa imperiosa para a pessoa, que passa a sentir-se cada vez mais frágil diante dessa compulsão, ou seja, quando comprar passa à categoria de necessidade, que impõe ser atendida a toda hora e em larga escala. Os compradores compulsivos fazem compras não planeja- das, e sempre em quantidade acima do que seria lógico admitir-se - embora não se possa dizer que toda compra não planejada seja indício de dependência, pois o quadro, como vimos, depende também de vários fatores sobretudo de natureza psicológica. Jovens, instados pela propaganda e marketing, e pela pressão do grupo, podem incorrer nessa escalada para a dependência, sobretudo se não trabalham para sustentar as próprias despesas e usam um cartão de crédito que simplesmente lhes caiu nas mãos sem que eles tenham feito coisa alguma para consegui-lo, e sem saber exatamente quanto ele custa, em termos de anuidade e juros etc., e cujo uso sequer lembra a realidade física do dinheiro que precisa sair da carteira por ato direto e voluntário do comprador. Assim é que o indivíduo - de qualquer idade - pode tornar-se presa (mais) fácil da dependência. Além disso, as lojas reais e virtuais são preparadas com esmero para seduzir os compradores, e dentre esses, os dependentes são, claro, os mais frágeis e "certos" para "cair na rede" - em vários sentidos. Vários campos do conhecimento estão hoje estudando o fenômeno. As mulheres jovens constituem a maioria do contingente desse tipo de dependência. O shopaholic gasta mais do que pode, compra apenas pelo prazer que isso lhe dá, e obviamente passa a ter problemas financeiros, emocionais e sociais, frequentemente entra em depressão por não conseguir evitar a compulsão. Mas há tratamento. É preciso pedir ajuda a amigos e a profissionais especializados. Mas há, é claro, medidas preventivas, sobretudo se tomarmos como base, referência e paradigma, o processo de Educação, mediante o qual professores, pais e adultos de um modo geral que estejam no entorno de crianças e jovens trabalhem o equilíbrio em todas as circunstâncias, não só nas palavras, mas sobretudo no exemplo. Sobretudo os pais devem abster-se de "cair na tentação" de comprar exageradamente, pois esta é uma mensagem que, desde criança, o indivíduo capta. Assim, se papai ou mamãe fica feliz, compra para comemorar, se fica triste compra para se distrair e assim subsequentemente. Depois, para ser mais/melhor aceito no grupo, compra para mostrar que assimilou a estética do grupo etário ou social, para sentir-se mais seguro diante das outras pessoas, para compensar perdas materiais, afetivas ou sociais. Por isso é fundamental que pais desenvolvam o hábito de examinar o estado d'alma de seus filhos, que professores analisem o comportamento e evidências até mesmo na linguagem corporal de seus alunos, e trabalhem, através de conversa leve, franca e objetiva, o processo de autoconhecimento de crianças e jovens ajudando-os a descobrirem a verdadeira razão que os leve/esteja levando a esse quadro, que, afinal, é também doloroso para quem sofre da doença. E acima de tudo, é fundamental que pais, professores, adultos de um modo geral deem o exemplo, não comprando desnecessariamente, esclarecendo que o planeta não será capaz de agüentar o extremado consumismo em que mergulhou a sociedade atual, e analisando as conseqüências de vergonha e decepção por constatarem que são incapazes de se controlarem, e os vários problemas financeiros que inevitavelmente acabam por inscrever-se no quadro dos shopaholics. Os tempos de crise que vivemos podem ser facilitadores para ações educativas de (re)aproveitamento das coisas que já temos, diminuição de volume de compras e de cultivo de valores que contemplem a essência do ser que cada indivíduo é, que deve ser respeitado e estimulado nessa dimensão. Boa sorte nesse empreendimento! *Nadja do Couto Valle é Doutora em Filosofia, Mestre em Educação, Professora Universitária, Ex-Diretora do Colégio de Aplicação da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. .................................... 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