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Pelos Caminhos da Educação Ano 8 - nº 74 - 15 de julho de 2009 O ter e o ser: o dilema de sempre
O mundo hoje configura-se bastante diferente do que era apenas algumas décadas atrás. Pais têm de um modo geral alguma dificuldade em acompanhar a alucinante e vertiginosa sequencia de mudanças que são absolutamente corriqueiras para os filhos. Mas algumas coisas não mudaram, e uma delas é o esforço da família em oferecer aos filhos condições de instrumentalizá-los com padrões de educação, saúde e lazer para que possam estar diante dos desafios da vida e da sociedade, com exigências de mercado de trabalho e de situações de vida que escapam às estimativas de hoje. Sentindo-se seguros com a proteção da família, não é de se estranhar o resultado de pesquisa divulgada no início de 2009, realizada pelo Núcleo Jovem da Editora Abril e VEJA.com, segundo a qual para 77% dos jovens a casa é o lugar do mundo em que eles mais gostam de estar, e em segundo e terceiro lugares, respectivamente, estão o cinema e o shopping. Trinta e um por cento dos adolescentes passam praticamente a tarde inteira em casa, e 76% dos jovens se dizem sempre ou quase sempre felizes. Segundo essa mesma pesquisa, os jovens das classes C, D e E têm menos dinheiro, mas comportam-se como os ricos: quando compram, preferem os lançamentos e as marcas famosas, confirmando pesquisa do site e-bit e do Instituto Análise, que hospeda lojas virtuais, segundo a qual a novidade de um produto é um dos principais atributos exigidos pelos brasileiros de 18 a 24 anos, com renda familiar até 1000 reais. Os jovens de faixas socioeconômicas mais baixas estão dispostos a comprometer uma parcela bem maior de sua renda para adquirir produtos eletroeletrônicos. Além de desejarem inovação e marca, eles querem bens de valor mais alto, como notebooks, televisores de LCD e home theatres, que antes eram adquiridos apenas pelos mais ricos. Outra faceta da mudança no perfil desses consumidores é que entre facilidades de pagamento e qualidade, eles ficam com esta última. Os jovens de baixa renda assimilaram os hábitos de outros segmentos socioeconômicos da juventude e também passaram a procurar ofertas na internet e a comprar em lojas virtuais. Os itens variam e incluem, dentre outros, para os mais abastados, relógios americanos para eles e suíços para elas, camisetas pólo, tênis e sandálias de salto, jeans e tops italianos, bolsas francesas, e, claro, celulares iPhone etc. etc. etc. E já que estamos falando de preço, dinheiro, despesas ... que tal lembrarmos o que a pesquisa da Abril/VEJA apontou no quesito Mesada? Aos 13 anos, os pais gastam em média de 100 a 300 reais, aos 14 anos entre 150 e 400 reais. Ou seja, o valor mínimo começa com 100 e o máximo bate em 300 reais, e na progressão, a cada ano de idade a faixa mínima sobe 50 reais e a máxima sobe 100 reais. Assim, com o filho de 15 anos, os pais gastam entre 200 e 500 reais, com o de 16 anos entre 250 e 600 reais e com o de 17 anos gastam entre 300 e 700 reais. Guardadas as devidas proporções, que incluem status familiar e padrão de vida, é educativamente recomendado que não se dêem muitas facilidades sem que se requeira qualquer esforço. Em suma, é preciso aprender o valor de cada coisa - com trabalho e mérito próprios. Lembremos que cumular o jovem com extremas facilidades, com mesada alta, que às vezes chega a ser superior ao salário de muitos chefes de família contraria os princípios do que poderíamos chamar de uma "ética do gastar". Nessa mesma linha inscreve-se o cartão de crédito, que passa a funcionar como uma espécie de mesada extra. Nesse particular, é fundamental oferecer ao jovem a oportunidade de aprender o autocontrole quanto aos gastos, o que em muitos casos revela-se difícil até mesmo para alguns adultos, incluindo-se eventualmente os próprios pais, naturalmente. Recomenda-se portanto que, se esse for um caminho escolhido pela família, o jovem conheça seus limites no uso do cartão, e, sobretudo, o quanto lhe custará o pagamento dos gastos além dos limites traçados pela família como escopo de sua mesada, seja ela em dinheiro ou mediante o uso do cartão. É no entanto mais eficaz - e todos nós podemos atestar isso - usar o dinheiro, em espécie, como se diz, pois é alguma coisa concreta, que acaba literalmente saindo de nossa mão, o que, psicologicamente, nos dá ideia mais precisa de que efetivamente estamos gastando, e de que realmente temos menos dinheiro a cada compra efetuada. Muitos pais enfrentam o que para eles torna-se um dilema: o que fazer quando o filho ultrapassa os limites, e a mesada acaba antes? É preciso fazer valer a regra que deve ter sido estabelecida desde quando foi instituída a mesada: ele é responsável pela administração daquele "patrimônio" e precisa aprender a: a) fazer escolhas - o que tem realmente condições de comprar; b) renunciar - o que já está implícito em toda e qualquer escolha que fazemos em qualquer circunstância de nossa vida; c) esperar - um valor que todos sabemos ser de altíssima aplicação ao longo de nossas vidas; d) educar o desejo. Todas aprendizagens fundamentais para o bem viver, para o atingimento de equilíbrio na vida, e em muitos casos também para evitar verdadeiras catástrofes de endividamento de jovens por falta de controle e/ou de esclarecimento. Por isso é mesmo imperativo que os pais ofereçam a oportunidade de os filhos amadurecerem com a administração financeira da mesada, usando a relação com o dinheiro como elemento propiciador de aprendizagens práticas para a vida adulta, cidadã. Curiosamente o jovem de hoje tem como projeto de vida, segundo apontam as pesquisas, ganhar bastante dinheiro com seu trabalho, mas não pensa em poupar nem em contribuir para o rendimento da família enquanto não chega lá. Como se tornou bastante pragmático, e perdeu o idealismo, desenvolveu uma postura do "ter" em detrimento do "ser", até porque suas relações também passaram à categoria do superficial. É pois fundamental que os pais - mesmo tendo condições materiais, financeiras, para esbanjar mesadas, presentes e facilidades, ensinem seus filhos a relativizarem as coisas, a estabelecerem comparações com balizamentos sociais e humanos, frente à realidade do país, e hoje até mesmo do mundo, mergulhado em profunda crise, justamente pelo descontrole na percepção dos limites do querer, que começa evidentemente no plano do indivíduo e dele espraia-se por toda a sociedade. Segundo as mesmas pesquisas já citadas, comparado com a realidade de três décadas atrás, o adolescente classe A de hoje custa à família cinco vezes mais. Para se ter uma ideia, os gastos com computador, telefonia e aparelhos eletrônicos são dez vezes superiores aos da década de 80. Hoje os cálculos dos institutos de pesquisa incluem gastos com alimentação, telefone, televisão, escola, cursos, material didático, alimentação escolar, transporte, academia ou clube, cinema, teatro, shows, viagens, saúde, computador, celular, roupas, calçados e poupança. Isso acaba dando um total de gastos anuais de cerca de 97000 reais com o filho de 13 anos e vai subindo até 104000 reais com o filho de 16 anos e bate os 113000 reais com o filho de 19 anos. Fica pois um alerta também para os pais: o dinheiro, como qualquer outro valor, é neutro, e depende de quem o usa. Educação é processo de natureza libertadora, e é nosso dever estar atentos para que nossas crianças e jovens não caiam nas armadilhas do ter, tão estimulado por uma sociedade de consumo como a nossa, que subverte os valores e privilegia coisas em vez de pessoas, levando nossa juventude a uma postura de extremado pragmatismo, segundo apontam as pesquisas. Aprender a relacionar-se com o mundo material, com os apelos do consumismo, do desejo de ter - estimulado às conseqüências do "ter a qualquer custo" - faz parte do processo de Educação, segundo as aprendizagens que assinalamos antes. Mas isto em um tipo de relação em que o indivíduo possua o dinheiro e outros bens materiais, e não seja possuído por eles. Sabemos que quando isso acontece, a vida do indivíduo - quaisquer que sejam sua faixa etária ou status - passa a ser marcada por um vazio existencial, porque centrada em coisas e em uma espécie de frieza para com os outros valores do ser. E mesmo que no início não se dê conta disso e não faça esse diagnóstico, acabará por descobri-lo, e igualmente dar-se-á conta de que, com isso, pode ter perdido anos e até fases importantes da vida, no desperdício do "ter" em detrimento do "ser". Ele mesmo acaba descobrindo-se como alguém referenciado apenas a esses valores materiais, como o salário, a conta bancária, as aplicações, casas, carros e assim subsequentemente. Possuir tais coisas certamente não é condenável. O perigo instala-se quando elas se tornam o ponto central de projeto de vida do indivíduo, o que o afasta até mesmo do ser que ele, em essência, é. Muito bom sabermos que podemos ajudar nossas crianças e jovens para evitar esse quadro preparando-os para uma vida de equilíbrio entre o ser e o ter. E interessante pensarmos, enquanto é tempo, que coisas corriqueiras e "banais" como dar mesada e aplicar regras para que eles aprendam a lidar com essas situações podem constituir-se em instrumentos eficazes para que esse objetivo de Educação seja alcançado. Boa sorte nesse nobre empreendimento a todos os pais, professores, educadores. *Nadja do Couto Valle é Doutora em Filosofia, Mestre em Educação, Professora Universitária, Ex-Diretora do Colégio de Aplicação da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. .................................... Continue a leitura da Edição 74 da Revista ReConstruir.
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