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Pelos Caminhos da Educação

Ano 8 - nº 73 - 15 de junho de 2009

A geração zapping e o estar-no-mundo


por Nadja do Couto Valle*

Muito se fala - e se reclama - da correria que caracteriza o cotidiano de todos nós. Todos querem que a pizza chegue imediatamente após o pedido, o ônibus esteja esperando por nós quando chegamos ao ponto, o porteiro atenda logo o interfone e assim por diante. Mas por que chegamos a isso? E como? Quanto mais sofisticamos os procedimentos em nossas vidas, quanto mais simplificamos algumas atividades com os recursos da tecnologia, menos tempo temos, mais atividades surgem cumulativamente em nossa jornada.

São inegáveis as contribuições da informática, da internet para essa simplificação e simultaneamente para os desdobramentos que esse quadro acarreta, gerando, por exemplo, uma série quase interminável de mensagens que demandam um tempo imenso para baixarmos e assim por diante. Tudo isso nos transformou, quase da noite para o dia, em verdadeiros "atletas sociais" e domésticos, que têm que atender múltiplas atividades e papéis ao longo do dia, da semana - incluindo-se o final de semana - enfim, por todo o tempo!

Assim, vivemos correndo. E na maioria das vezes, nem sabemos exatamente para onde, nem por que motivo. O fenômeno da "velocização" da sociedade planetária, que começou "imperceptivelmente" com a televisão, continua sua marcha na direção de engolir nossa tranquilidade. E atinge nossas crianças - que correm de um lado para outro, com aulas co-curriculares e outras atividades de línguas estrangeiras, balé, vários esportes, lutas marciais etc.

Muitos adultos ainda estão tentando adaptar-se a esse novo ritmo de vida, mas ele é perfeitamente natural para nossas crianças e jovens, que, aliás, já foram/estão sendo criados sob o signo da velocidade, que os habilita a acessar informações com muito maior rapidez, embora - de um modo geral - com superficialidade.

Essa é a geração zapping, de nossos alunos e filhos que interagem com computador e televisão, videogames, celular e iPods, para citarmos alguns, a tal ponto que esses itens passam a ser como que extensões de seu próprio corpo; que manipulam o controle remoto, procuram programas incessantemente, mudam de canal a cada instante, passam torpedos, atendem o celular, abrem páginas sobre páginas na internet, vivem com i-Pods, e com pelo menos três ou quatro outros gadgets, ouvem música, recebem e passam e-mails - tudo em avassaladora velocidade, e até simultaneamente! É claro que esse é um modo aligeirado de agir/reagir perante o mundo. Isto tornou-se uma forma de estar-no-mundo, coletiva, a despeito de inicialmente, e por definição, ser algo inerente ao sujeito.

Estará então essa geração fadada a essa forma aligeirada de viver e superficial de pensar? Afinal, será que essa geração da velocidade não leva nenhuma vantagem com essa característica? Se bem observarmos, essa geração leva vantagem porque reage a estímulos rapidamente e assimila novidades tecnológicas. O mundo do trabalho hoje exige dos profissionais reações rápidas aos impactos das inovações tecnológicas, que devem ser assimiladas ao universo de procedimentos em cada área específica no mundo laboral. Esse quadro espelha o perfil da sociedade pós-moderna e de seu mercado fragmentado. Por outro lado, jovens que vivem mudando de tudo o tempo todo, no que poderíamos dizer que estejam "zappeando" a própria vida, poderão adaptar-se melhor a um mundo no qual as empresas valorizam pessoas que estão prontas para encarar o novo a toda hora, e portanto que sejam capazes de adaptar-se a estruturas, mecanismos, posturas da empresa e assim por diante.

Uma outra característica da geração zapping - qual seja a de interagir com várias pessoas e grupos em chats, e-mails etc. - que lhe traz vantagem é a capacidade de lidar com grupos, de estar com o diferente, pertencendo ou ligando-se a duas, três ou mesmo quatro tribos, embora elas já tenham hoje perdido seu cunho de natureza ideológica, e seu conteúdo já tenha sido esvaziado. É que passou a época dos punks, hippies e comunistas como tribos que praticamente desapareceram. Os jovens que pertencem a um grupo ou tribo hoje fazem essa adesão com menos comprometimento e como uma espécie de experimentação, sem critério de valor, que eles podem abandonar na hora em que bem desejarem, ou seja, é como ceder a um modismo. Em outras palavras, aos jovens de hoje falta ideologia: eles não têm mais projetos coletivos como os das gerações anteriores, e estão buscando coisas mais pragmáticas, como passe escolar, cotas, redução no valor de mensalidades e assim por diante. Alguns comportamentos já se tornaram típicos: cortar o cabelo e deixá-lo crescer logo em seguida, aprender a dançar um outro gênero, mudar de estilo, tentar sair de casa e logo voltar à casa dos pais. A esse propósito, pesquisa divulgada no início de 2009, realizada pelo Núcleo Jovem da Editora Abril e VEJA.com, atesta que para 77% dos jovens a casa é o lugar do mundo em que eles mais gostam de estar, e em segundo e terceiro lugares, respectivamente, estão o cinema e o shopping. Trinta e um por cento dos adolescentes passam praticamente a tarde inteira em casa, e 76% dos jovens se dizem sempre ou quase sempre felizes.

Mas enfim, "mudar sempre" passou a ser normal - em se tratando de coisas, gêneros de leitura, lazer, tribos etc., de não gostar de perder tempo nem de se prender a coisa alguma por muito tempo, de gostar de arriscar-se enquanto vive a juventude - tudo isso compõe o perfil do jovem de hoje, segundo atestam especialistas e várias pesquisas.

Curiosamente o jovem lida com as coisas de sua vida e de sua relação com o mundo da forma como os pais e adultos de um modo geral lidam com as chamadas commodities, como eletrodomésticos, por exemplo: adultos jogam fora os objetos de que se cansam, jogam fora coisas muitas vezes ainda em condições de uso e/ou coisas antes preciosas para eles. Ora, os jovens então também descartam coisas, pessoas, situações de sua vida, com um desprendimento que chega a deixar perplexos os da(s) geração(ões) anterior(es).

Enfim, trocar, mudar, variar - isso é valorizado pelos jovens pois consideram que estar antenado nas novidades é uma qualidade, e como essa é a característica do mundo hoje, eles transplantam isso para a própria vida. Essa postura acaba indo ao encontro de uma necessidade que mais cedo ou mais tarde vão ter que enfrentar, constituindo-se em outra vantagem que lhes traz o quadro que vivem hoje. Estando assim familiarizados com o novo - e preparar o individuo para estar diante do novo é um dos objetivos do processo de Educação - mais fácil lhes será adaptar-se ao mundo laboral, no qual as expectativas do mercado de trabalho hoje requerem flexibilidade e adaptabilidade de seus funcionários. Como sabemos, já faz tempo que a cultura organizacional já não valoriza mais tanto o funcionário que chegou à empresa praticamente um menino e foi fiel a ela até o final de sua vida, tendo sido esse o único emprego que teve em toda a sua existência. Atualmente, é até esperado que o profissional tenha várias experiências em várias empresas, e isso hoje é valorizado na construção e administração de uma carreira.

Pais e professores podem e devem aproveitar essa inevitável relação de nossas crianças e jovens com a velocidade de nossos dias buscando otimizar essa experiência para desenvolver velocidade de raciocínio e tomada de decisão, por exemplo. Mas devem, ao mesmo tempo, valorizar outras experiências que ficam comprometidas com essa quase fixação que nossos alunos e filhos acabam desenvolvendo na relação com as máquinas. Essas experiências são as que dizem respeito aos valores fundamentais da interação com a família, o contato com a natureza, a meditação, a análise de situações que podem emergir de novelas e espetáculos de futebol ou de manchetes no campo da política à luz dos valores que a família tem como pilares na formação de seus filhos. Para isso, impõe-se o limite que decorre do trabalho da razão: determinar tempo de exposição de crianças e jovens a todos esses gadgets, para que possam também desenvolver valores e laços afetivos duradouros, imprimindo às suas relações - com as pessoas, com o mundo, as coisas, a profissão e tudo o mais - um outro ritmo, ditado pelo seu tempo psicológico, pela afetividade, pelo respeito, pela valorização do outro e da própria vida e felicidade - da Vida, enfim.

*Nadja do Couto Valle é Doutora em Filosofia, Mestre em Educação, Professora Universitária, Ex-Diretora do Colégio de Aplicação da Universidade Estadual do Rio de Janeiro.

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Continue a leitura da Edição 73 da Revista ReConstruir.

 

 

 

 

 

 

 

 

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