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Pelos Caminhos da Educação

Ano 8 - nº 70 - 15 de março de 2009

Conectados.org/vida


por Nadja do Couto Valle*

Vivemos o grande desafio de prestar atenção a várias coisas ao mesmo tempo, fazendo na vida como quando navegamos na internet: vamos abrindo novas janelas sem fechar as outras, e assim acompanhamos várias páginas simultaneamente. A internet, com sua instantaneidade e simultaneidade, bem reflete as características do tipo de vida atual, e guarda, portanto, relação de (inter)complementaridade com esse contexto.

A velocidade e a sensação do efêmero infundem hoje uma percepção de que a vida é curta, de que há sempre mil coisas a fazer, em todos nós, com destaque para os jovens, cuja busca compulsiva por novidade é típica da idade. A conseqüência é a compulsão de viver intensamente: querem fazer tudo, às vezes deixando a impressão de que não sabem o que querem.

A cada 24 horas há um verdadeiro bombardeio de informações e a sensação/compulsão de que é preciso assimilar tudo!, ao mesmo tempo. E tome aula de inglês para cá, de espanhol para lá, natação, academia, ginástica, futebol, remo, lições de casa, papo com amigos ao telefone, navegação na internet, TV e som ligados o tempo todo. Além da escola, claro!

É verdade que o excesso de informação pode ser bom: saber lidar com isso é qualidade, por exemplo, no mercado de trabalho tão segmentado, fragmentado de nossos dias. E os estudos revelam que os jovens hoje utilizam pelo menos dois meios de comunicação simultaneamente. Conectados, antenados o tempo todo, os adolescentes têm mais informações do que os pais quando tinham a mesma idade, pois vivem cercados de notícias, revistas, canais, sites que falam de tudo, além da inegável influência da TV, assim fragmentada, superficial.

A diferença está em que o jovem de hoje está aprendendo a eliminar a informação excessiva, e nesse contexto, na ânsia de estar ligado o tempo todo, age sem critério ou intervalo para descanso. E a diferença entre gerações está em que, antes, o mundo exterior era a mais importante fonte de experiência enquanto que hoje a juventude prefere consumir o mundo pela tela da TV ou do computador, ou do celular. Por isso muitos adolescentes hoje não sabem sequer tomar um ônibus!

Mas será que o jovem de hoje tem mais capacidade para processar informações do que os indivíduos de outras gerações? Neurofisiologistas respondem negativamente, afirmando que o cérebro humano não mudou nos últimos dois mil anos. Depreendemos então que mudou a maneira de lidar com isso: os jovens hoje estão aprendendo a lidar com esse excesso, "deletando" convenientemente informações como fazemos/devemos fazer com roupas e outros objetos inúteis para nosso uso. Aí está uma circunstância à qual professores devemos estar atentos: nossos alunos precisam cada vez mais de estimulação através de técnicas de incentivação para ficarem "conectados", plugados no assunto de nossas aulas. E há um fato que muitos docentes constatam, às vezes até com uma certa frustração: convidado a dizer exatamente o que o professor estava dizendo, não é que o aluno que estava conversando reproduz direitinho o que estava sendo discutido?!?!

Do ponto de vista da Educação e do ensino, fica, dentre outros, um tema para nossa profunda meditação - e ação! As pessoas hoje não se preocupam em descansar, e jovens muito menos. Muitas vezes atravessam a noite em salas de bate-papo e não rendem na escola no dia seguinte, o que é de se lamentar, principalmente quando foi para a prova que "viraram a noite", supostamente um motivo "nobre" e "justo". No entanto, mais nobre, justo, didática, pedagogica e neurocientificamente correto é estudar à medida que se aprendem os conteúdos, fazendo os exercícios de casa de forma disciplinada e sistematica, e, claro, interessando-se pelas aulas (aqui reside uma responsabilidade do professor, que já lembramos anteriormente).

A neurociência informa: o sono é fundamental para consolidar as memórias do dia: portanto, sem sono, nada feito. Muitos ainda pensam que o cérebro para de funcionar durante o sono, mas a verdade é que o cérebro não para de funcionar, ele simplesmente funciona de modo diferente, e uma das conseqüências recém-descobertas é que o sono consolida a memória, ou seja, é assim que se estabilizam as modificações nas conexões cerebrais que começam a ser feitas durante a aprendizagem realizada durante o dia. Mais um motivo para pais que se interessam pelo estudo dos filhos supervisonarem o horário de dormir de sua prole. Boa sorte no empreendimento!

*Nadja do Couto Valle é Doutora em Filosofia, Mestre em Educação, Professora Universitária, Ex-Diretora do Colégio de Aplicação da Universidade Estadual do Rio de Janeiro.

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Continue a leitura da Edição 70 da Revista ReConstruir.

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