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Pelos Caminhos da Educação

Ano 8 - nº 69 - 15 de janeiro de 2009

Ensinando a pensar


por Nadja do Couto Valle*

Você sabe pensar? Todos pensamos, claro!, mas pensar é mais do que produzirmos idéias simples, isoladas umas das outras. Pensar implica basicamente em: a) analisar dados, ângulos da situação, pessoa, teoria, sistema, obras, comportamentos, conjunto de elementos concretos ou não, e assim subseqüentemente; e b) estabelecer nexos de causalidade entre coisas, situações, eventos etc. e muito mais.

Apresenta-se assim uma questão fundamental: É possível ensinar a pensar? Na verdade este é o desafio - "enorme" - da escola de nossos dias, porque hoje a escola não é mais a provedora de informação, pelo menos não a única. Cada um de nós é literalmente 'bombardeado' por algumas centenas de informações novas por dia, que podem chegar ao milhar, segundo as pesquisas.

Impõe-se então à escola a tarefa de preparar, instrumentalizar o aluno a estar diante de tais elementos de forma a poder discernir o que é interessante ou descartável para ele ou o que lhe é nocivo. E se lembrarmos agora toda a avalanche apenas de e-mails que recebemos diariamente, vamos logo entender melhor o que estamos dizendo.

O educador brasileiro Paulo Freire (1921-1997), respeitado no mundo inteiro, com atuação e reconhecimento internacionais, propôs uma prática em sala de aula que pudesse desenvolver a criticidade dos alunos. Ele condenava o ensino oferecido pela maioria das escolas de seu tempo: quando a escola oferece informações aos alunos de forma automática, configurando assim o que ele chamou de "educação bancária", uma espécie de procedimento mediante o qual o professor - a escola - deposita(m) informações dentro "da caixa" ou "do caixa", que é o aluno, ou seja, o professor deposita conhecimento em um aluno apenas receptivo, dócil, no sentido de que não reage como pessoa que elabora seu próprio posicionamento, seu estar-no-mundo.

Então qual a tarefa da escola? Segundo Paulo Freire o objetivo da escola é ensinar o aluno a "ler o mundo" para poder transformá-lo. Em última análise, dizemos que a tarefa da escola, sobretudo agora que não é mais a única provedora de conhecimento, é a de ensinar a pensar, ou seja, oferecer ao aluno oportunidades que solicitem dele certas posturas e habilidades tanto cognitivas quanto emocionais. Em uma comparação podemos dizer que o pensamento é como uma espécie de músculo, que se atrofia quando não se exercita.

A questão que se põe e impõe agora é: e como na escola, em sala de aula, na estrutura curricular, na abordagem metodológica, podemos propiciar condições ao aluno de desenvolver o pensamento, o raciocínio? Vejamos juntos apenas três possibilidades de estratégias didático-pedagógicas, que, aliás, com adaptações, servem também aos pais em sua tarefa como educadores:

1. O diálogo, a conversa
Evidentemente essa fundamental herança para a Humanidade é legado da exponencial figura de Sócrates (469-399 a.C.), filósofo e educador da verdade, que privilegiou a razão e colocou o princípio dos raciocínios na essência das coisas do mundo, formulando seu método - a maiêutica - como legado para todos os tempos. Esse diálogo como método consiste basicamente de dois momentos, com o objetivo de facilitar ao interlocutor a apresentação de suas opiniões, fazê-lo perceber as próprias contradições ou ignorância - para então chegar à depuração das idéias e a conseqüente reconstrução do conceito. Aí está portanto o caminho para a auto-correção, em termos intelectuais e também afetivo-emocionais.

Portanto o professor deve adotar a conversa técnica como atividade didático-pedagógica em seu planejamento, e executá-la de forma sistemática, para "treinar" a mente do aluno nessa postura de análise e investigação iniciais para a posterior elaboração de juízo e formação de conceito e de postura diante do tópico em questão. Assim, professor, questione sempre os "comos" e os "por quês" das ligações entre os itens de conteúdo, através de perguntas que se vão encadeando de maneira lógica a partir das respostas que os alunos vão dando, até que eles próprios cheguem à conclusão que é, na verdade, a regra, a lei, a teoria, o sistema ou o que quer seja e que esteja sob análise naquele momento.

Essa postura não é exclusiva do momento de apresentação do conteúdo, e deve ser também aplicada no momento de correção, com a turma, de exercícios, quer sejam os de casa ou os de sala de aula. Lembramos aqui que nenhum exercício ou tarefa deve deixar de ser corrigido(a), sob pena de darmos mau exemplo ao aluno, no mínimo, do ponto de vista técnico do planejamento e do processo de incentivação. A execução da correção de trabalhos por via desse método tem sua importância não só porque não é apenas fixação de aprendizagem, mas porque, além de atingir outros objetivos, é também estímulo ao aluno para raciocinar, refletir, "exercitando o músculo-raciocínio".

2. Organicidade e coerência interna
Todas as atividades de sua aula e todos os passos de cada atividade devem necessariamente relacionar-se entre si - é o que chamamos de organicidade do conteúdo, coerência interna do planejamento, o que inclui evidentemente também a ligação direta entre as aulas. Para isso, professor, relacione sempre o que está sendo feito ou dito em sala de aula eu em casa com o que foi feito ou dito anteriormente em outra aula ou atividade.

3. O "pensar junto"
Através de discussões, diálogos, conversas entre nós e os alunos ou entre os alunos com o nosso acompanhamento, como atividades técnicas, conduzidas tecnicamente. O objetivo fundamental é ajudar os alunos a se interessarem - e às vezes nós mesmos, professores, também nos interessarmos - pelas idéias, opiniões, sugestões e posturas e escolhas das outras pessoas.

4. O valor do pensar como superveniente ao valor 'quantidade' de conteúdo
Essa dosagem é fundamental para apresentar formas de pensamento às crianças e jovens, formas de pensamento que eles já sejam capazes de absorver e trabalhar, como aconselha o psicólogo bielo-russo Lev Vygotsky(1896-1934).

Tudo isto ajuda a turma a valorizar habilidades cognitivas, de raciocínio, de linguagem: as que estão sendo desenvolvidas e por extensão todas as demais. E ajuda também você, professor, a criar uma espécie de clima de investigação, reflexão em sua sala de aula.

*Nadja do Couto Valle é Doutora em Filosofia, Mestre em Educação, Professora Universitária, Ex-Diretora do Colégio de Aplicação da Universidade Estadual do Rio de Janeiro.

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Continue a leitura da Edição 69 da Revista ReConstruir.

 

 

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