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Pelos
Caminhos da Educação
Ano
8 - nº 68 - 15 de novembro de 2008
Conflitos
também ensinam

por Nadja do Couto Valle*
Duas
mães conversavam, na verdade desabafavam!, dizendo que não agüentam mais
as brigas dos filhos! E isso é grave? Bem, depende do grau de agressividade
que as crianças coloquem nas tais "brigas". E isso é normal? Até certo
ponto sim, porque conflitos acontecem em toda parte, inclusive no lar
e na escola. Fazem parte dos mecanismos das relações humanas.
Como
se apresentam? Filhos, irmãos e colegas na escola geralmente brigam, e
na maioria dos casos fazem fofoca, cometem agressões físicas, ou verbais,
ou furtos até. Na verdade as brigas são, também, uma linguagem, através
da qual as crianças podem também expressar-se.
E o que
faz você, pai? mãe? professor? Em primeiro lugar, você precisa fazer um
exercício íntimo: o que você acha, mesmo, dessas brigas? Como você as
vê e sente? Este é, também, para você, um exercício de auto-conhecimento,
a pedra angular do pensamento de Sócrates (469-399 a.C.) que considerava
que só voltando-se para seu interior o homem chega à sabedoria e à auto-realização
como pessoa.
O modo
como cada um encara essa ou qualquer outra situação é fundamental para
definir a estratégia, a forma de a pessoa posicionar-se diante do quadro,
para solucioná-lo. Afinal, na condição de educadores, precisamos sempre
aproveitar todas as situações e oportunidades como experiência de aprendizagem
para as crianças - filhos ou alunos - mas são aprendizagem também para
o professor! É importante analisar as brigas e seus contextos, porque
elas podem ser sinais que indicam situações ou dificuldades que precisam
ser trabalhadas. Mas atenção, hein! Nada de pressa, nada de tensão para
resolver a questão.
Então,
como agir? Deve-se colocar as crianças uma em frente da outra, e obrigá-las
a darem-se as mãos e se beijarem quando ainda estão com raiva?
Afinal,
o que devemos fazer como professores, pais, educadores, todos, enfim?
1. Não
comece logo "passando o maior sabão", "dando bronca", como se diz;
2. Como Sócrates, use o diálogo como método de educação e de investigação;
3. Mas sem autoritarismo: mais vale sua autoridade moral;
4. Evite ferir susceptibilidades das crianças - filhos ou alunos;
5. Seja firme e gentil, mesmo sabendo que ambos são responsáveis, e que
um é mais responsável que o outro, de um modo geral;
6. "Ah, mas o motivo desta vez foi grave!" exclamam às vezes pais e professores.
Bem, pode até ser, mas qualquer que tenha sido o motivo, atue como mediador,
é o que se espera de um educador, e nessa condição, você precisa induzir
as crianças a encontrarem uma solução que satisfaça ambas as partes. Sem
castigos ou recompensas, e sem interferências do comportamento em notas
e provas, como propõe Pestalozzi (1746-1827);
7. Qual a primeira coisa a fazer? Espere as crianças se acalmarem;
8. Desaparte a briga, separe as crianças, não seja parcial;
9. Não tome partido, espere que elas se acalmem;
10. E só então converse, e muito, com elas, em separado. Aqui você vai
precisar daquela sua habilidade de conseguir que cada um tenha bastante
confiança para expor seus sentimentos;
11. Incentive-os a fazer isso, mas não somente nos momentos de reconciliação:
desenvolva o hábito de suas crianças verbalizarem seus sentimentos, angústias,
sonhos, projetos etc., coisa que de modo geral se revela difícil até mesmo,
ou principalmente, para adultos; essa postura evita mal-entendidos e sofrimentos,
e também doenças no futuro;
12. O momento é muito bom para promover um exercício de empatia, que requer
de cada um colocar-se no lugar do outro, e imaginar como o outro deve
ter-se sentido, e ter sofrido.
13. Então faça com que cada criança diga diretamente ao irmãozinho ou
colega na escola o motivo de ter ficado zangada com o outro;
14. Ajude-os a discutir o que poderia ter sido feito - e o que ainda se
pode fazer, para evitar a briga, o conflito;
15. Faça isso com cada criança separadamente, depois reúna-as e discuta
abertamente com elas a(s) solução(ões) por elas propostas;
16. E isto deve ficar entre quatro paredes, ou no segredo entre o professor
e os estudantes. Pergunte a eles, seus filhos e alunos, e só use o exemplo
para os outros irmãos ou colegas aprenderem com a experiência ... se eles
consentirem, pois segundo Pestalozzi, o amor promove o processo de auto-educação.
Com isso você está também ensinando respeito à privacidade e à vida alheia.
Você deve ter notado: com isto estamos trabalhando na linha da Educação
para a paz.
*Nadja
do Couto Valle é Doutora em Filosofia, Mestre em Educação,
Professora Universitária, Ex-Diretora do Colégio de Aplicação
da Universidade Estadual do Rio de Janeiro.
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a leitura da Edição
68 da Revista ReConstruir.
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