![]() |
![]() |
|
|
Pelos Caminhos da Educação Ano 8 - nº 67 - 15 de outubro de 2008 Valores, diálogo e adesão íntima a norma
Um dia desses, visitando uns amigos que me mostravam a casa nova, deparamos com o quarto das duas menininhas completamente bagunçado, brinquedos em número excessivo, e espalhados por toda parte, além de roupas também. A mãe, visivelmente encabulada, repreendeu as crianças, perguntando, um tanto zangada, por que as meninas não tinham arrumado o quarto, "até porque", disse a mãe, "vocês sabiam que hoje íamos receber visita!" As meninas fizeram aquela carinha de dengo, marotice e talvez também de enfrentamento brando, e soltaram um "Ah!, mãenhê!!", ao que a mãe arrematou, em tom de ameaça: "Depois vamos conversar, vamos conversar!" O que você achou dessa cena? É provável que lhe tenham chamado a atenção o fato de a mãe ter destacado que a família receberia visitas, e também a "ameaça" de conversa! Esses indícios revelam que há efetivamente aí um problema a requerer uma ação educativa eficaz. Alguns poderão perguntar se essa advertência da mãe já não terá sido suficiente. As pesquisas têm confirmado que crianças e jovens são muito mais sensíveis ao comportamento dos pais do que a conselhos e lições. Outras pessoas podem advogar o comportamento da mãe considerando que as crianças desobedeceram e enfrentaram a ordem - e a autoridade - da mãe. O que você pensa a respeito? Ora, todos sabemos que todo filho reclama das regras, e dependendo da idade, do temperamento e da qualidade que tem a sua relação com os pais, vai fazê-lo de forma diferente: o bebê chora, grita, berra, e crianças mais crescidinhas também, outras podem fazer as coisas escondido, e assim por diante. Esse é, portanto, um comportamento esperado. E quanto à carinha de dengo, marotice e enfrentamento brando, lembramos que talvez essa pode ter sido a linguagem das meninas para dizerem à mãe que afinal, aquilo, na percepção delas, não é assim tão grave. Elas não entendem que há um certo orgulho adulto de expor a casa impecável às visitas. E há, ainda, um elemento que realça da situação: a mãe ameaçou as crianças com uma conversa "depois", entendemos que seria depois que as visitas saíssem. Aqui está uma situação tão contraditória quanto ineficaz do ponto de vista do processo da Educação. O diálogo, sobre o qual todos nós sempre falamos tanto, e tão detalhado por nós em suas características e modos de ser desenvolvido, continua a ser, como incansavelmente especialistas temos enfatizado, o recurso maior para viabilizar-se o processo de Educação, para a internalização de valores - isso que temos chamado de acatamento, de adesão íntima a valores morais. Ora, a forma como a mãe anunciou o momento do diálogo, que ela chamou de "conversa", fez certamente que isso soasse como uma ameaça. Qual o resultado que se pode esperar disso? Bem, de um perigo ou ameaça qualquer a pessoa foge, afasta-se. É exatamente isso que essa mãe está inculcando na mente infantil de suas filhinhas: o diálogo é uma coisa ruim, desagradável, uma situação muito desconfortável que realça o lado negativo das coisas, situações e pessoas, facultando ainda o exercício do autoritarismo parental. Pois é, tudo isso coloca-se na contramão do que se recomenda para ações educativas eficazes, que devem ser associadas a emoções, momentos e situações agradáveis. A forma como a questão foi conduzida pode, como conseqüência, mobilizar mecanismos de defesa do indivíduo, qualquer que seja sua faixa etária, e pode fazê-lo enveredar pelo caminho da desobediência e da rebeldia. Qual
seria então o comportamento adulto equilibrado e desejável? Tudo isso deve ser conduzido através de uma abordagem indutiva, ou seja, fazendo uma conversa de perguntas e respostas de ambas as partes, usando termos adequados à faixa etária das crianças, de forma clara, objetiva, induzindo as crianças e jovens a entenderem por quê devem comportar-se dessa maneira. É o que temos chamado de adesão íntima, livre e consciente das normas. *Nadja do Couto Valle é Doutora em Filosofia, Mestre em Educação, Professora Universitária, Ex-Diretora do Colégio de Aplicação da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. .................................... Continue a leitura da Edição 67 da Revista ReConstruir. |
IBEM Interior
da Alma Análise
e Crítica
|
|
ReConstruir
Publicação eletrônica do Instituto Brasileiro de Educação Moral Todos os direitos reservados |