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Pelos Caminhos da Educação Ano 7 - nº 60 - 16 de agosto de 2007 Vínculos e aprendizagem
A CENA É comum à porta da escola. A criança chora, chega a soluçar, enquanto a mãe tenta consolá-la, até descobrir o motivo do sofrimento: a professora ia entrar de licença, mas ia voltar logo, ela não precisava preocupar a cabecinha. Mas quem poderia dizer isso ao coraçãozinho que apesar de sentir, não elabora o medo da perda? Alguns podem pensar que isso só se dá com as crianças menores, mas na verdade, exteriorizações à parte, isso acontece com jovens e até com universitários - que evidentemente não vão-se debulhar em pranto, mas sentem a futura ausência do professor e podem mesmo ficar até tristes. Estamos em pleno terreno das relações afetivas, e devemos admitir, não é fácil lidar com elas, nem se aprende isso com facilidade. Como lidar com a questão em sala de aula, na relação pedagógica, que é, deve e precisa ser pessoal? 1. A primeira coisa a se pensar no caso do nosso exemplo é certificarmo-nos de que não há dependência afetiva, porque isso contraria a própria natureza do objetivo da Educação que é processo libertador, conscientizador! 2. O professor é referência fundamental para o aluno, e os vínculos que se constroem e se estabelecem entre eles devem ser trabalhados a serviço da consecução dos objetivos de ensino e da Educação como eficazes ferramentas pedagógicas. 3. Na verdade, quando o professor cria vínculos com os alunos, a aprendizagem melhora, porque eles sentem que são vistos e tratados como individualidades, como pessoas. 4. Apesar de todas as pesquisas e divulgação a respeito da Inteligência Emocional, ainda há quem não leve esse fator na sua devida dimensão. E tendo ou não a inteligência emocional desenvolvida, o fato é que a postura do professor - diante do mundo e da vida, do conteúdo que leciona, da relação que tem com a carreira profissional que escolheu, e dos estudantes que tem - efetivamente interfere no desempenho da turma. 5. Porque é nesse surpreendente e apaixonante espaço fenomenológico criado entre o professor e o aluno - o espaço do vínculo entre eles - que se dá a aprendizagem, e que se fortalecem, ou não, os fatores motivacionais para a aprendizagem. 6. A partir daí o professor pode ajudar o aluno a construir, a estruturar suas próprias relações com o mundo, e com tudo que está à sua volta. 7. Mas admitamos: às vezes acontece de o professor, que é humano, não ter muita vontade de aproximar-se de um certo aluno, porque ele não aprende, é "desligado", ou por algum outro motivo. Então o que fazer? Nesse caso, fazer um trabalho de razão: como profissional, tem a responsabilidade de conduzir todos os alunos; além do mais, toda pessoa tem um lado positivo, características que a recomendam ao nosso interesse e afetividade. E sobretudo deve esse professor lembrar de que é justamente esse aluno que mais tem necessidade do reforço da relação afetiva, do estímulo, da compreensão, de sentir-se único. Quem sabe não é exatamente por sentir falta desse vínculo, dessa relação afetiva, que ele não aprende? 8. Uma postura que compromete drasticamente a qualidade do vínculo professor-aluno é o fato de o professor comparar os alunos - aliás o mesmo vale também para os pais com relação aos filhos. E por que? Porque há na comparação uma espécie de crítica, de juízo de valor implícito, velado, que afeta a auto-imagem do estudante, sobre o qual vão passar a pesar as expectativas do professor, a obrigatoriedade do sucesso. Ora, todos sabemos que o resultado pode ser decepcionante: o aluno se desinteressa da matéria, ou de algumas matérias, porque evidentemente rompeu-se o vínculo, ficou "arranhada" a relação professor-aluno. Hoje, quando cada vez mais se sente a necessidade de fundamento filosófico para a educação, enfatizamos uma filosofia de essência que permeie as relações pedagógicas. Johann Heinrich Pestalozzi (1746-1827), um dos maiores educadores da História, sempre pretendeu agir com os alunos como um pai diante dos filhos, avaliando o potencial de cada criança, e perguntando-se incessantemente sobre como trabalhar a natureza humana pela educação. É o educador-filósofo que instituiu o "amor pedagógico" que se reveste de contornos de "amor esclarecido", "amor reflexivo" - amor equilibrado pela reflexão e pela razão, que se vai estruturando no viver junto a experiência que a criança/o ser começa a viver. Enfim, ele considera - e provou nas várias experiências pedagógicas que desenvolveu - que o vínculo afetivo entre educador e educando é essencial para o despertamento dos germens latentes na criança. Sempre pautou sua atuação na convicção de que o processo amplo de aprendizagem irrompe, em essência, na presença do amor, interno, ativado pela capacidade de amar de cada professor, de cada educador, de cada pai e cada mãe. Ainda hoje, vivemos esse grande desafio que nos deixou Pestalozzi, qualquer que seja a linha pedagógica: desenvolver o sentimento amoroso, reflexo do amor de Deus, alimento das relações humanas, inclusive no âmbito da relação pedagógica. *Nadja do Couto Valle é Doutora em Filosofia, Mestre em Educação, Professora Universitária, Ex-Diretora do Colégio de Aplicação da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. .................................... Continue a leitura da Edição 60 da Revista ReConstruir. |
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