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Pelos Caminhos da Educação

Ano 7 - nº 59 - 17 de julho de 2007

Ensinar integridade


por Nadja do Couto Valle*

A QUESTÃO DE se é possível ensinar integridade ainda hoje representa um desafio. Especialmente nos dias atuais, em que vivemos mergulhados em um mundo de valores materiais que passam a representar, na sociedade de consumo, a própria pessoa - o que ela é. Mas os valores materiais são na verdade aquilo que nós temos, e que se desgasta, pode ser roubado ou perdido em situações de quebra da Bolsa, desvalorização da moeda, furto, roubo etc.

Os filmes que nossas crianças e jovens vêem - e nós também - principalmente os americanos, que espelham a filo-sofia pragmatista de viver, enfatizam invariavelmente o vencedor. Nesses filmes uma das maiores ofensas - talvez a maior - que se possa fazer é a de chamar o outro de "loser": perdedor, fracassado. Para muitos nessa sociedade isso significa não conquistar coisas materiais, mesmo que isso custe passar por cima do direito do outro, como se diz "passar a perna no outro".

Enquanto isso, em casa e na escola nós oferecemos o valor 'integridade', honestidade às nossas crianças e jovens, que passam então a viver o dilema da divisão, que é dramático para elas, principalmente quando - e se - elas não têm esses referenciais nos pais e adultos que os cercam. Ninguém questiona o fato de que vivemos em um ambiente geral de impunidade, no qual ser esperto é um valor maior, no qual a corrupção é "naturalizada", quer dizer, a corrupção passou a ser uma coisa banal, corriqueira, que de tanto vermos repetida, passou a ser "normal", "natural". É o fenômeno da naturalização, que acontece também com a violência.

Enfim, vale a pena ser íntegro, honesto? Para nós é de fundamental importância avaliar até que ponto nossas crianças e jovens internalizaram a convicção dos valores éticos, morais, mesmo que a maioria não os siga. Gostamos sempre de lembrar a frase-orientação de Gandhi, o grande paladino da não-violência: "Em questões de consciência não vigora a lei da maioria."

Falando nisso, será que a maioria é mesmo de corruptos? Sabemos que há estatísticas que sinalizam para a incidência de corrupção, e de que, nas mínimas coisas, muitos pode resvalar e ... corromper-se. Mesmo assim, nós devemos continuar a trabalhar o valor integridade com nossas crianças e jovens.

Vejamos então algumas situações que nos permitem ensinar ou educar para a integridade, participando do processo de construção da escala de valores que em Filosofia chamamos de moral constituinte:

1. O diálogo. Ao ver o noticiário ou a novela com seus filhos ou ao comentar isso com seus alunos, discuta os valores presentes na situação e principalmente: a) os ascendentes, as origens possíveis daquele comportamento; b) e também as conseqüências, tanto na vida presente - como o constrangimento de ser o centro dessas manchetes, quanto na vida futura, no plano material e espiritual.

2. O exemplo. Concluímos que pelo nosso modo de viver o cotidiano, ensinamos de forma natural, e mesmo não consciente, os valores reais que internalizamos, quais sejam os de retidão, cooperação, honra, dignidade, dentre outros. Albert Schweitzer disse: "Dar o exemplo não é a melhor maneira de influenciar os outros. É a única."

3. O auto-conhecimento. Há necessidade imperiosa do auto-conhecimento dos pais, no sentido de trazerem ao nível da consciência suas virtudes e também seus defeitos, e portanto auto-vigiarem o comportamento.

4. A linguagem não-verbal. Importante termos em mente que essa linguagem que se manifesta através de gestos, expressões, sutilezas de entoação, postura corporal é muito mais eloqüente do que a linguagem verbal, essa que se manifesta através de palavras.

Devemos no entanto estar bastante atentos para o fato de que a cobrança excessiva pode ter resultados altamente indesejáveis, tais como a criança ou jovem rejeitar os valores presentes nas cobranças. Por isso é fundamental que professores e pais: a) hierarquizem, priorizem os valores básicos, eternos, em nossa ação educativa; b) estejam conscientes de que nossos comportamentos do cotidiano espelham, refletem os valores reais que tenhamos internalizado.

Segundo o psicanalista infantil norte-americano Robert Coles, desde os 2/3 anos de idade a criança é capaz de captar os valores presentes no comportamento de pais e adultos à sua volta, em função do que ele identifica como inteligência moral. Mais uma tarefa para todos nós. Boa sorte a todos nesse empreendimento.

*Nadja do Couto Valle é Doutora em Filosofia, Mestre em Educação, Professora Universitária, Ex-Diretora do Colégio de Aplicação da Universidade Estadual do Rio de Janeiro.

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Continue a leitura da Edição 59 da Revista ReConstruir.

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