Ano 11 - nº 88 - Janeiro de 2012 - A revista do educador
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Os educadores
Da Redação
Nathalie De Etievan: educadora do corpo e do coração


(...) o exagero nunca é o justo. A verdade está sempre em algo medido, equilibrado. Do mesmo modo, a educação dirigida só à mente e ao corpo não é equilibrada porque se esquece de um fator importantíssimo: a educação do sentimento. Nosso desejo é ajudar esse fator de equilíbrio, contribuindo, assim, para que se reencontre um lugar justo entre dois exageros”.

Nathalie De Salzmann de Etievan nasceu na Georgia, em 1910. Foi educada na Suíça e na França. Viveu no Rio de Janeiro e radicou-se na Venezuela desde 1950. Faleceu em julho de 2007. Seu modelo pedagógico foi implantado em vários países da América Latina.

Linha pedagógica
Seguidora do mestre George Ivanovich Gurdjieff (1866/1949), propõe uma educação baseada na integração do corpo físico, da emoção e da vontade.
 A princípio, pode-se dizer que Gurdjieff investigou o que chama de "máquina humana" sob o ponto o de vista da totalidade de seus centros - o motor, o instintivo, o emocional e o intelectual - harmonizando os diversos aspectos do ser. Neste ponto, é fundamental desenvolver o "conhecimento de si", por meio da "observação de si", o que ajuda o homem a conhecer a si mesmo.

Formação e personalidade
Jornalista, tradutora, piloto, pintora de mérito reconhecido em várias exposições, ela é, sobretudo, uma educadora. De caráter vigoroso e afirmativo, possuidora de uma rara capacidade para compreender e comunicar-se com as pessoas, ela dificilmente passa desapercebida pelas suas experiências de muitos anos de trabalho com crianças, jovens e adultos.

Nos colégios fundados e dirigidos por ela na Venezuela, na Colômbia, no Peru e no Chile, grupos de pais e professores se esforçam para tornar realidade este modelo educacional, o primeiro surgido de uma experiência latino-americana: "Uma direção e uma esperança. Ela não nos deu receitas. Propõe orientações claras. Despertou em nós o entusiasmo para tentar uma e mil vezes por nós mesmos, e assim aprender por meio de nossa própria experiência. A educadora nos mostrou que a educação do sentimento, tão descuidada hoje em dia, é fundamental; que não é um pai ou um professor aquele que já sabe, mas sim todo aquele que procura estar completamente atento e aberto ao aprendizado; que não podemos pedir nada a nossos filhos ou a nossos alunos, se antes não o tivermos exigido, com honestidade, de nós mesmos”.

Para Nathalie De Salzmann de Etievan educar é, sobretudo, compartilhar uma busca atenta, ativa, entusiasta, com os próprios alunos. Nem uma elucubração teórica, nem um receituário de soluções, mas numa coerente concepção do homem e em sua possibilidade de desenvolvimento harmonioso.

Temas desenvolvidos pela educadora
A atenção, a autoconfiança, o senso de responsabilidade, a educação da vontade, a educação do sentimento, a educação sexual, as qualidades de um educador, o castigo, o respeito, problemas da vida moderna, a televisão, as drogas, a violência, como lidar com os caprichos, a vaidade, a inveja, a mentira, a destrutividade, o roubo, as crianças-problema, a educação da criança como ser humano com direito a viver mais completamente e a amar.

Sua primeira escola e suas obras
Durante mais de trinta e cinco anos, Nathalie Salzmann trabalhou ativa e praticamente com educação. Fundou em 1972 sua primeira escola para crianças, o Colégio Los Hipocampitos, na Venezuela e pode constatar os sofrimentos, as dificuldades e as carências das crianças.

Seu primeiro livro, "Não saber é formidável!" tem a finalidade de ajudar aos pais, professores e educadores na tarefa difícil de educar, compartilhando com eles uma nova forma de aproximar-se e tratar com as crianças. Constitui o resultado de uma busca para tratar de ajudar e não para "ditar cátedra".

Mais tarde, publica o livro “Cada um deita na cama que faz”, sobre a relação do casal que precisa estar em harmonia para construir um convívio harmonioso igualmente com os filhos. A educadora se deu conta que quase todas as dificuldades das crianças provêm das dificuldades de seus pais, consigo mesmos, com os problemas da vida e por uma má relação do casal. Em suas palavras: “Não existem crianças- problema, mas sim, pais-problema”. Cada vez que surge uma dificuldade em casa, a criança expressa na escola de uma ou outra maneira, cada uma de acordo com sua forma de ser.

A educadora, em seu terceiro livro “Quando eu não sei” apresenta sua percepção e análise sobre a humanidade e as constantes alterações que de certa forma influenciam algumas atitudes dos jovens que, em suas palavras “não estão acostumados a assumir suas responsabilidades e nem a colocar sobre seus ombros o peso das dificuldades. Essa situação traz como resultado a tentativa de evasão, recrudescimento no uso de drogas, indiferença e abandono”.

Proposta de superação
Nathalie De Salzmann decide ajudar aos casais, tratar de ver, com ambos, realmente onde estão as dificuldades e como é possível ajudar. Durante mais de vinte e cinco anos ela se reúne toda semana com muitos casais. Casais de diferentes condições sociais, de diferentes países, com níveis culturais distintos; que, porém, tinham em comum o desejo e uma necessidade de melhorar a sua relação. Reuniu-se com psiquiatras e psicólogos para compartilhar informações e começou a dar ciclos de palestras e workshops, em vários países latino-americanos, nos Estados Unidos e na Europa, a casais interessados em ter uma relação mais harmoniosa.

Lnha filosófica
- Empenho em mostrar o estado atual das coisas, numa linguagem simples e sem disfarces.

- Uma imperiosa e necessária educação destinada a despertar a consciência, a infundir nas crianças a confiança em si mesmas para enfrentar a vida, responsabilizar-se e utilizar sua inteligência conjuntamente com seus sentimentos.

- Educadores absolutamente dedicados à sua profissão, com um profundo interesse naquilo que estão fazendo e incondicionalmente decididos a aprender tanto quanto a ensinar, a fim de ser mais e, por conseguinte, poder dar mais.

- Professores com uma abertura especial para as crianças, um afeto, um amor. Ajudar um ser humano a transformar-se, a converter-se de criança em homem verdadeiro, é a maior ajuda que se pode dar à humanidade e, ao mesmo tempo, proporciona à pessoa cuja vocação é educar a felicidade mais profunda que existe na vida.

- Educar, de uma maneira realmente integral, em que educar e aprender não é apenas uma parte da vida, mas a própria vida, impõe certas condições, e, portanto, são talvez poucas as pessoas a quem possamos interessar no sentido de trabalhar dessa forma.

Nas palavras de Nathalie De Salzmann: “Isto que estamos propondo vem a ser, em essência, um verdadeiro sacerdócio. Fazemos um chamado para unirem-se a nós todos (...) aqueles que se interessem em ampliar sua inteligência e sua possibilidade de amar, e tenham algo positivo a dar às crianças”.


Sistema Etievan, por Nathalie De Salzmann
A primeira proposta de Etievan como modelo educacional é uma educação que visa a sensibilização, para incutir nas crianças a auto-confiança para enfrentar a vida, assumir a responsabilidade e use sua inteligência, juntamente com seus sentimentos. Neste modelo diz que os fatores acima e a harmonia de suas manifestações pode determinar a qualidade do ser humano, seu cumprimento e seu nível de contribuição. Portanto, se a educação enfatiza um ou dois desses fatores será incompleta.
Assim, uma definição consistente de educação seria "a educação deve ser um processo pelo qual se trata de desenvolver uma forma abrangente e equilibrada, mente, sentimentos e do corpo" (De Salzman, 1989). Este desenvolvimento do processo de aprender é contínuo. Há sempre algo novo para aprender. Existe a possibilidade de que as coisas podem ser feitas melhor do que o que já fizeram até agora. Isto implica que os hábitos são alterados para dar inter soluções criativas. Implica a possibilidade de todos os conhecimentos e os meios de aprendizagem e compreensão de que a educação é viver a vida ao mesmo tempo. Com esta visão, o professor aprende ao ensinar. Se você pensar em uma ideia, e honestamente começar a ver o que está faltando, e, em seguida, exortar as perguntas, as perguntas podem ir para si e para os estudantes. Toda grande descoberta deu início a uma pergunta e um novo conceito de educação pode começar! Este é o lugar onde o conceito de liberdade começa. Liberdade de pensar é para o aluno e o professor. Expressar sua opinião, suas dúvidas e perguntas. Liberdade para perceber que “não saber” não é limitante, mas uma abertura para querer aprender, para conhecer. Portanto, não saber é formidável, porque dá a oportunidade de aprender. (Em Salzman, 1989).

Amar o esforço e o desafio
Este é um dos princípios. Ensine a criança o amor ao esforço. As condições mencionadas são para ser estimulantes. Fazendo com alegria. Você sabe que é interessante fazer, então, é importante.
A maneira de fazer é em forma de desafio, tocando seu sentimento. Quem pode fazer isso...?”, o objetivo é incutir a confiança na criança e o amor a si mesmo pelo esforço.

O amor ao trabalho
Este conceito está na ideia de guia para o trabalho como algo agradável e bom. De orientar para executar tarefas de uma forma humana, chamar o filho para o “espírito de luta” e o desejo de superar suas fraquezas.
Entre elas está a preguiça, sempre dizer não a ela.

O desenvolvimento da atenção plena
Esta habilidade é a base da educação.
Atenção que pode ter por um momento em algo e mantê-lo. Sabemos que neste modelo, a criança tem uma atenção fugaz, ela não controla. O desenvolvimento dos cuidados com a atenção é um requisito para a disciplina da inteligência, sentimentos e capacidades físicas da criança, a fim de alcançar a “força” de concentração para enfrentar a vida. Aplicada ao estudo, permitirá que aprendamos e a nos lembrar de algo em menos tempo.

Educação não competitiva
Aqui é enfatizado que o objetivo não deve ser colocado em algo externo como o “prêmio”, mas na satisfação profunda de algo bem feito.
Diz-se que a concorrência traz o egoísmo nas crianças, a negação do outro e a vaidade, ou o sentimento de derrota ou de fracasso. Eles devem ser ensinados de forma que o que você competir é um meio e não um fim. O importante é tentar, porque é o que alimenta o interesse e permite-lhes o poder.

Educação da vontade
Diz-se que a vontade é um profundo senso de dever, que uma vez concluído, dá algo de volta, mas não material. A vontade traz apenas a satisfação de dever cumprido e um senso de integridade pessoal que faz você mais forte e fiel a quem você se sente.
Através do desenvolvimento da vontade despertamos nas crianças o sentimento de que se ela quiser, ela pode obter essa conquista.

Educação para a vida
A vida exige um monte de gente.
A criança, como um adulto futuro, deve estar preparada não só para atender suas próprias necessidades, mas para realmente ajudar sua comunidade. Portanto, se o homem precisa comer deve saber como cozinhar, se você tiver um orçamento grande ou pequeno, você ganha experiência em que é dado. Produtos agrícolas e pecuários que deseja consumir, deve saber como obtê-los, conhecer a terra, observar sua fertilidade, entrar em contato com os animais, cuidar, interagir com eles. É essencial ao treinamento físico, para se preparar e aprender a exercitar o corpo através do esporte. A criança deve saber como seu corpo funciona, aprender os primeiros socorros. A criança deve aprender as artes marciais para se defender. Tudo isto a coloca em contato com a vida, com segurança, para descobrir verdadeiros interesses e habilidades, e, assim, a sua vocação profissional e, posteriormente, será o resultado da experiência direta com a realidade. Localizando o contexto social e histórico. Segundo o originador dessas ideias (Gurdjieff) esses fundamentos nos aproximam do "status dever" que foi proposto e que de alguma forma se manifesta em sua visão de mundo e que o modelo educacional, de que faz uma proclamação, deve ser feito na educação para aumentar a conscientização.

Carta aos leitores, por Nathalie de Salzmann:
Desde muito pequena fui educada de acordo com as ideias de G. I. Gurdjieff, expressas no livro Fragmentos de um Ensinamento Desconhecido de P. D. Ouspensky.

Este ensinamento despertou em mim um profundo interesse em buscar uma forma de educar que ajudasse a criança a despertar sua consciência e a desenvolver seu sentimento. (...)

Por outro lado, quero ressaltar aqui que meu caráter é um só, com marcada tendência para o categórico. Algo disto se notará em minhas palavras. Gostaria que vocês, (...), colocassem as coisas em seus lugares.

Esses exageros ou maneiras absolutas de dizer as coisas não revelam nenhuma violência ou negatividade da minha parte, senão, pelo contrário, um sincero desejo pelo bem de todos e uma profunda convicção de que isto é possível.

Obrigada,

Nathalie De Etievan

Fontes de pesquisa
Linha Pedagógica
http://pt.wikipedia.org/wiki/George_Ivanovich_Gurdjieff
www.horus.com.br

Proposta de superação
http://www.horuseditora.com.br/cada_um.htm

Sistema Etievan
http://laeducacionalternativa.blogspot.com/2007/12/sistema-etievan.html

Cartas aos Leitores
http://horuseditora.com.br/nao_saber.htm#trecho



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