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Os Educadores
Ano 9 -
nº 83 - 15 de junho de 2010
Pestalozzi, o pai da educação
moral
da
Redação

Resumo Biográfico A infância O mundo recebeu
Johan Heinrich Pestalozzi no dia 12 de janeiro de 1746, na cidade
de Zurique, Suíça, filho de pais que exerciam a medicina. No ano de
1751 ele perdeu o pai, e sua mãe sustentou os filhos em meio a muitas
dificuldades econômicas, beirando a miséria. Nessa ocasião surge a
figura de Magd Bárbara Schimid, a Babeli, governanta da casa e que teve
forte influência sobre a formação de Pestalozzi. Anos mais tarde ele a
recordaria com gratidão. De 1751 a 1763 Pestalozzi estudou, chegando a
ter aulas de lingüística e filosofia no Colégio Carolinium e, ainda jovem,
com 17 anos já era membro da Sociedade Helvética, criticando a situação
política do país e propondo reformas. Sabe-se pouco da infância de
Pestalozzi pois com a morte do pai sua família empobreceu e vivia na
miséria. As dificuldades de sobrevivência serviram para fortalecer a alma
da criança que se tornaria "educador da humanidade". Ele conheceu de perto
a realidade do estigma social e teve de lutar muito para se tornar visível
numa sociedade preconceituosa que ainda se dividia entre ricos e pobres,
entre nobreza e plebeus, com o agravante dele ser uma criança esquisita:
feio, magro e alto. Pestalozzi recebeu orientação religiosa
protestante, mas durante toda a vida considerou-se simplesmente um
cristão, sem defender ou seguir esta ou aquela denominação
religiosa.
Idéias revolucionárias e casamento Desde cedo
influenciado pelo movimento naturalista, principalmente após a leitura do
"Emílio", de Rousseau, Pestalozzi tornou-se um revolucionário apaixonado,
juntando-se aos patriotas que criticavam a situação política do país e
propunham reformas. Abandona a preparação para o sacerdócio para
dedicar-se ao direito e ao serviço público, mas efetivamente torna-se um
jornalista e um idealista da educação. Em 1767 fica noivo de Anna
Schulthess, mulher de ideais humanistas como ele, contrariando os pais da
noiva, que ameaçaram cortar o dote da mesma, mas, perseverante, consegue
casar-se com ela dois anos após. É nesse período que Pestalozzi faz a
leitura da obra "Emílio, ou da Educação", de Jean-Jacques Rousseau,
tornando-se adepto do naturalismo. Do casamento teve um filho, Hans
Jakob, nascido em 1770, nome que é uma tradução alemã de Jean-Jacques, uma
homenagem a Rousseau. Ana Schulthess faleceu em 1815, após dez anos de
trabalho constante no Instituto de Iverdon ao lado de
Pestalozzi.
Fazenda Neuhof Por conta da leitura das obras de Rousseau
toma aulas de agricultura e, junto com a esposa, instala, no ano de 1774,
a Fazenda Neuhof (Nova), dando início a um instituto para crianças pobres,
numa proposta que unia educação e trabalho. Pestalozzi tinha em mente
melhorar as terras por meio de novos métodos de cultura e viver uma vida
de acordo com as idéias naturalistas dominantes. Entretanto,
transformou a fazenda num instituto filantrópico para crianças
abandonadas, onde elas trabalhavam na produção da fazenda e em outras
ocupações. Sua falta de habilidade na administração do negócio e ao mesmo
tempo escola profissional levou-o à falência. A experiência dura até o
ano de 1780, data em que as dívidas não mais permitiram a continuidade
desse trabalho. Pestalozzi perde a fazenda, restando-lhe apenas um pequeno
sítio, e sua esposa, adoecida, retorna ao lar dos pais para tratamento de
saúde. Foram suas idéias de redenção do povo pela educação que o
levaram a criar a Fazenda Neuhof: "No meu peito de criança, o coração já
batia por isso: o povo é miserável, quero ajudá-lo!". Sua intenção era
formar um grande lar, onde as crianças órfãs e mendigas pudessem ter uma
formação moral e profissionalizante. A relação estabelecida com os alunos
deveria ser como a de pai e filhos: baseada no amor e na fé no potencial
adormecido das crianças. Pestalozzi esperava sustentar a obra por si
mesmo, com o seu trabalho e com o das crianças. Entretanto, Pestalozzi
nunca teve vocação para as questões da administração e suas idéias sempre
esbarravam na sua inabilidade para conjugar o idealismo com a ordem
financeira do empreendimento, motivos que levaram ao fracasso e à falência
completa.
Leonardo e Gertrudes Por conta de seu idealismo e da
experiência acumulada, Pestalozzi começa a publicar vários escritos,
dedicando-se à literatura e ao jornalismo. Fica famoso com a publicação do
livro Leonardo e Gertrudes, em 1781, mas desgosta-se com a crítica e o
público que o recebem como um romancista folhetinesco, enquanto ele mesmo
se considera, e de fato é, um escritor educacional, pois o livro nada mais
é do que um romance pedagógico. Escrito como novela popularizou a idéia
da reforma educacional. O propósito do livro era descrever a vida simples
do povo rural e as grandes modificações causadas pela inteligência e
devotamento de uma simples mulher. Leonardo e Gertrudes foi desdobrado
em quatro volumes reproduzindo na trama os diálogos simples da gente
camponesa, e dirigindo-se ao povo. A abundância de situações, a sutiliza
das abordagens psicológicas, a ação narrada com emoção e o alcance social
e educativo da obra justificam sua extensão. Os volumes foram editados,
respectivamente, nos anos de 1781, 1783, 1785 e 1787. Neles, Pestalozzi
combina suas experiência pessoais com suas propostas não-realizadas de
transformação social. Em toda a obra fica explícito que a base de toda
transformação moral, de todo resgate da natureza humana deve partir do
sentimento. Sem um impulso emocional em direção ao bem, nada se pode
mudar.
Artigos e cartas Por suas críticas sociais e luta
constante em benefício da população, recebe no ano de 1792 o título de
cidadão honorário da França, dado pelo governo revolucionário. Seis anos
depois acontece a revolução suíça e ele torna-se redator chefe do jornal
Folha Popular Helvética. De 1780 a 1798 dedicou-se intensamente à
atividade literária. O pensamento fundamental de Pestalozzi era sempre o
mesmo: as reformas sociais e políticas deviam surgir pela educação - não
da educação tradicional, mas de um novo processo de desenvolvimento que
resultaria na reforma moral e intelectual do povo. A Revolução Francesa
influenciou fortemente Pestalozzi. Ele percebeu que os aristocratas a quem
se dirigia, numa tentativa de conscientizar as elites da necessidade de um
esforço pela educação popular, eram indiferentes ao seu ideal. A fé no
despotismo esclarecido, tanto defendida pelos iluministas,
terminara. Em 1798 acontece a revolução suíça e ele torna-se redator do
jornal Folha Popular Helvética, mas seu discurso, cada vez mais
educacional, distancia-se do ardor revolucionário e da esperança política
de mudanças sociais por parte do governo.
Orfanato de Stans O coração de Pestalozzi estava
inquieto. Os anos passavam e a tarefa da educação das crianças não se
concretizava. Seu idealismo não encontrava eco nos príncipes e burgueses
ricos. Surge então, por causa da guerra napoleônica, a oportunidade:
dirigir um instituto para crianças órfãs, vítimas da guerra, na cidade de
Stans. O governo suíço providencia a verba e a estrutura para o projeto e
Pestalozzi é agora diretor de um orfanato. O ano: 1798. Torna-se
mestre-escola e desenvolve com as crianças as novas práticas educativas
que tanto escrevera. Combina as atividades educativas com o trabalho
manual e torna-se, além de professor, o pai daquelas crianças. O
trabalho dura seis meses e ali, em condições adversas, ele aplica a
pedagogia do amor para fortalecer o caráter. É diretor, pai, professor,
faxineiro. Questões políticas encerram a atividade e ele rompe com o
governo, lançando a Carta de Stans, onde explica sua filosofia e
sua metodologia.
Instituto de Burgdorf Convidado pela prefeitura da cidade
de Burgdorf para instalar um seminário de professores, Pestalozzi ali
trabalha de 1799 a 1804, lançando em 1801 o livro Como Gertrudes Ensina
seus Filhos. Em Burgdorf ele "psicologiza a educação" e consegue
estabelecer uma escola particular, apenas parcialmente subvencionada pelo
governo. Viaja a Paris e, na volta, prepara a transferência das
atividades para a cidade de Iverdon, instalando num castelo o Instituto
de Iverdon, escola para crianças, que funcionou até 1825, chegando ao
expressivo número de mais de 150 alunos internos. Entre os anos de
1802-1803, compreendendo os meses de novembro a fevereiro, viaja a Paris
onde recebe inúmeras homenagens e participa de reuniões com os
revolucionários franceses.
Instituto de Iverdon O Instituto de Iverdon é considerado
escola-modelo para toda a Europa. Pestalozzi mesmo continua pobre. Seu
lema: "tudo para os outros, nada para mim". É conhecido como "Pai
Pestalozzi" e dedica-se intensamente a amar e aplicar a educação
moral. Iverdon funcionou sob a direção de Pestalozzi durante vinte
anos, de 1804/1805 a 1824/1825, instalado num castelo medieval perto do
Lago Neuchâtel, e foi considerado instituto escolar modelo para a Europa,
segundo o parecer de renomados filósofos, cientistas, literatos e
personalidades políticas da época, que o visitaram e dali saíram
maravilhados, tais como os sábios Humboldt, Saint-Hilaire, Cuvier, Biot,
Maine de Biran, Madame de Stael, Robert Owen, Goethe, Fichte e diversos
membros da realeza. No Instituto de Iverdon, Pestalozzi reuniu
educadores de várias partes e recebeu a visita de educadores que se
tornaram célebres: Froebel, criador do jardim de infância; Carl Ritter,
fundador da geografia científica; Herbart, que desenvolveu a
psicologia.. O funcionamento do Instituto de Iverdon era revolucionário
para os padrões da época: portões sempre abertos, liberdade para os
alunos, dez horas de aula por dia, salas de trabalho, trabalhos manuais,
aulas de ginástica e natação ao ar livre, pesquisas de botânica e biologia
junto à natureza, utilização da música e dos alunos mais adiantados como
sub-mestres. Todos os domingos, numa assembléia geral, era feita uma
avaliação dos trabalhos desenvolvidos na semana. Segundo depoimento de
ex-alunos, "Não havia castigos nem recompensas. Pestalozzi não queria a
emulação nem o medo. Só admitia a disciplina do dever, ou melhor, a da
afeição, do amor". O curso completo de instrução no Instituto de
Iverdon não tinha duração fixa, estendendo-se desde a idade de nove ou dez
anos, ou mesmo desde os sete, até os quinze ou dezesseis anos. À instrução
primária e secundária, compreendida naquele período, seguia-se, para
aqueles que o quisessem, um terceiro e último grau de educação, técnica e
praticamente destinada a formar bons professores e professores na ciência
da educação e na arte pedagógica. Em 1818 funda na cidade de Clindy,
próxima a Iverdon, um instituto de educação para crianças pobres, que no
ano seguinte é anexado ao Instituto de Iverdon, causando revolta em muitos
pais, por preconceito. Línguas, raças, crenças, culturas e hábitos
diferentes se misturavam em Iverdon, aprendendo as crianças e os jovens,
na vivência escolar, a lição da fraternidade, da igualdade e da
liberdade. Uma média de 150 alunos internos (a maioria) aprendiam com
Pestalozzi que "o amor é o eterno fundamento da
educação".
O pai Pestalozzi Na experiência de Stans, Pestalozzi
afirma pela, prática, seu conceito de divindade interior - a presença de
um germe de perfectibilidade em cada ser - que garante a possibilidade do
homem realizar-se moralmente. Pestalozzi propôs e praticou uma educação
moral baseada em três fatores: > o amor; >a percepção e o
exercício moral; > a linguagem e a verbalização da moral Pregou
por toda a vida o amor pedagógico como fundamento de todo desenvolvimento
do homem. Nas reuniões de avaliação do Instituto de Iverdon, Pestalozzi
levava os alunos, um após outro, a um canto do seu gabinete de trabalho e
com eles conversava em surdina. Perguntava se tinham algo para lhe dizer,
para lhe pedir, ganhando a confiança do alunos e sondando se eles se
sentiam bem, o que lhes agradava ou desagradava. Recepcionava pais e
alunos no portão principal de entrada do Instituto e fazia questão de se
abaixar para abraçar os novos alunos. Para ele, os exemplos, a vivência
dos princípios cristãos é que teriam a força de conduzir, de modo
frutificativo, a infância e a juventude ao fiel cumprimento de seus
deveres individuais e coletivos. Por tudo isso, quando de sua morte, em
17 de fevereiro de 1827, recebeu inúmeras homenagens.
Pensamento Educacional "Minha convicção e meu objetivo eram um
só. Na verdade, eu pretendia provar, com minha experiência, que as
vantagens da educação familiar devem ser reproduzidas pela educação
pública e que a segunda só tem valor para a humanidade se imitar a
primeira. Aos meus olhos, ensino escolar que não abranja todo o
Espírito, como exige a educação do homem, e que não seja construído sobre
a totalidade viva das relações familiares conduz apenas a um método
artificial de encolhimento de nossa espécie. Toda a boa educação exige
que o olho materno acompanhe, dentro do lar, a cada dia, a cada hora, toda
a mudança no estado de alma de seu filho, lendo-o com segurança nos seus
olhos, na sua boca, na sua fronte. E exige essencialmente que a força
do educador seja pura força paterna, animada pela presença, em toda a
extensão, das circunstâncias familiares. Sobre isso eu construí. Que o
meu coração estava preso às crianças, que a sua felicidade era a minha
felicidade, a sua alegria a minha alegria - elas deviam ler isso na minha
fronte, perceber isso nos meus lábios, desde manhã cedinho até tarde da
noite, a cada instante do dia. O homem quer o Bem com tanto gosto, a
criança tem tanto prazer em abrir os ouvidos para o Bem! Mas ela não o
quer por ti, professor, ela não o quer por ti, educador, ela o quer por si
mesma. O Bem, para o qual deves conduzi-la, não deve ter nenhuma relação
com os teus caprichos e com as tuas paixões. É preciso que a natureza da
coisa seja boa em si e pareça boa aos olhos da criança. Ela precisa sentir
a necessidade da tua vontade, conforme sua situação e suas carências,
antes que ela queira a mesma coisa. Ela quer tudo o que a torna amável,
tudo o que lhe traz reconhecimento, tudo o que excita nela grandes
expectativas, tudo o que nela gera energia, que a faça dizer: "Eu sei
fazer". Mas toda essa vontade não é produzida por palavras, e sim pelos
cuidados que cercam a criança e pelos sentimentos e forças gerados por
esses cuidados. As palavras não produzem a coisa em si, mas apenas o seu
significado, a sua consciência." (Trecho da "Carta de Stans",
descrevendo o trabalho realizado no orfanato, em 1799)
As
principais idéias de Pestalozzi sobre a educação podem ser assim
resumidas: 1. Idéia da educação humana baseada na natureza espiritual e
física da criança. 2. Idéia da educação como desenvolvimento interno,
formação espontânea, embora necessitada de direção. 3. Idéia da
educação baseada nas circunstâncias em que se encontra o homem. 4.
Idéia da educação social e da escola popular, contra a anterior concepção
individualista da educação. 5. Idéia da educação profissional,
subordinada à educação geral. 6. Idéia da intuição como base da
educação intelectual e espiritual. 7. Idéia da educação religiosa
íntima, não-confessional, promovendo a educação moral do ser.
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