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Os
Educadores
Ano
8 - nº 70 - 15 de março de 2009
Jean
Piaget: um novo olhar sobre o desenvolvimento da criança
da Redação

Jean
Piaget (Neuchâtel, 9 de Agosto de 1896 — Genebra, 16 de Setembro de 1980)
estudou inicialmente biologia, na Suíça, e posteriormente se dedicou à
área de Psicologia, Epistemologia e Educação. Foi professor de psicologia
na Universidade de Genebra de 1929 a 1954, e ficou conhecido principalmente
por organizar o desenvolvimento cognitivo em uma série de estágios.
Biografia
Jean Piaget revolucionou as concepções de inteligência e de desenvolvimento
cognitivo partindo de pesquisas baseadas na observação e em entrevistas
que realizou com crianças. Interessou-se fundamentalmente pelas relações
que se estabelecem entre o sujeito que conhece e o mundo que tenta conhecer.
Considerou-se um epistemólogo genético porque investigou a natureza e
a génese do conhecimento nos seus processos e estágios de desenvolvimento.
Vida
profissional
Piaget foi biólogo, zoólogo, filósofo, epistemólogo e psicólogo. Esta
experiência de vida e uma vasta cultura científica impregnaram a sua obra
com contribuições da biologia, cibernética, matemática, filosofia e sociologia.
Piaget foi considerado por muitos escritores de livros sobre psicologia
como o "Einstein da Psicologia" Escreveu 70 livros e 200 artigos, alguns
dos quais contaram com a colaboração de Barbel Inhelder. Entre eles, destacam-se:
Seis Estudos de Psicologia, A construção do Real na Criança, A Epistemologia
Genética, O Desenvolvimento da Noção de Tempo na Criança, Da Lógica da
Criança à Lógica do Adolescente, A Equilibração das Estruturas Cognitivas,
O Desenvolvimento da Lógica. Piaget desenvolveu estudos sobre os próprios
processos metodológicos, concretamente o método clínico e a observação
naturalista. Estes métodos correspondem a importantes avanços na investigação
em psicologia. Até morrer, Piaget estudou, escreveu, participou em congressos,
polêmicas e debates públicos. Foi um personagem destacado, pela forma
empenhada, crítica, interdisciplinar e criativa como orientou as suas
investigações.
Epistemologia
genética
A Epistemologia Genética defende que o indivíduo passa por várias etapas
de desenvolvimento ao longo da sua vida. Para Piaget, a aprendizagem é
um processo que começa no nascimento e acaba na morte. A aprendizagem
dá-se através do equilíbrio entre a assimilação e a acomodação, resultando
em adaptação. Segundo este esquema, o ser humano assimila os dados que
obtém do exterior, mas uma vez que já tem uma estrutura mental que não
está "vazia", precisa adaptar esses dados à estrutura mental já existente.
Uma vez que os dados são adaptados a si, dá-se a acomodação. Para Piaget,
o homem é o ser mais adaptável do mundo. Este esquema revela que nenhum
conhecimento nos chega do exterior sem que sofra alguma alteração pela
nossa parte. Ou seja, tudo o que aprendemos é influenciado por aquilo
que já tinhamos aprendido. Tornou-se um dos homens mais dedicados do mundo
com o interacionismo de Lev Vygotsky. Piaget somente veio a conhecer as
pesquisas de Vygotsky muito depois da morte deste.
Originalmente
um biólogo, com a especialização em moluscos do Lago Genebra, fez seus
estudos de psicologia do desenvolvimento inicialmente observando como
seus filhos cresciam e entrevistando milhares de outras crianças. As teorias
de Piaget de desenvolvimento psicológico mostraram-se muito influentes.
Entre outros, o filósofo e cientista social Jürgen Habermas as incorporou
em seu trabalho, mais notadamente em A Teoria da Ação Comunicativa. O
historiador da Ciência Thomas Kuhn e o pensador marxista Lucien Goldmann
tiveram em Piaget um interlocutor importante. A influência de Piaget na
pedagogia é notável ainda hoje, principalmente através da obra de Emília
Ferreiro sobre a alfabetização. No Brasil, suas idéias começaram a ser
difundidas na época do movimento da Escola Nova, principalmente por Lauro
de Oliveira Lima. Piaget também teve uma considerável influência no campo
da ciência da computação. Seymour Papert usou o trabalho de Piaget como
fundamentação ao desenvolver a linguagem de programação Logo. Alan Kay
usou as teorias de Piaget como base para o sistema conceitual de programação
Dynabook, que foi primeiramente discutido em Xerox PARC. Estas discussões
levaram ao desenvolvimento do protótipo Alto, que explorou pela primeira
vez os elementos do GUI, ou Interface Gráfica do Usuário, e influenciou
a criação de interfaces de usuário a partir dos anos 80.
Teoria
Através de várias observações com seus filhos, e principalmente com outras
crianças, Piaget deu origem à Teoria Cognitiva, onde demonstra que existem
quatro estágios de desenvolvimento cognitivo no ser humano: Sensório-motor,
Pré-operacional, Operatório concreto e Operatório formal. De
acordo com esta teoria, o desenvolvimento cognitivo humano é dividido
em 4 fases.
Sensório-motor
No estágio sensório-motor, que dura do nascimento até aproximadamente
o segundo ano de vida, a criança busca adquirir controle motor e aprender
sobre os objetos físicos que a rodeiam. Esse estágio é chamado sensório-motor,
pois o bebê adquire o conhecimento por meio de suas próprias ações que
são controladas por informações sensoriais imediatas. O estágio subdivide-se
em até 6 subestágios nos quais o bebê apresenta desde reflexos impensados
até uma capacidade representacional do uso de símbolos. As principais
características observáveis durante essa fase que vai até os dois anos
de idade da criança são:
* a exploração
manual e visual do ambiente;
* a experiência obtida com ações, a imitação;
* a inteligência prática (através de ações);
* ações como agarrar, sugar, atirar bater e chutar;
* as ações ocorrem antes do pensamento;
* a centralização no próprio corpo;
* e, finalmente, a noção de permanência do objeto.
Pré-operacional
O segundo estágio de desenvolvimento considerado por Piaget é o estágio
pré-operacional, que coincide com a fase pré-escolar e vai dos dois anos
de idade até os sete anos. Nesse período, as características observáveis
mais importantes são:
* inteligência
simbólica;
* o pensamento egocênctrico, intuitivo e mágico;
* a centração (apenas um aspecto de determinada situação é considerado);
* a confusão entre aparência e realidade;
* a noção de irreversibilidade;
* o raciocínio transdutivo (aplicação de uma mesma explicação a situações
parecidas);
* a característica do animismo (vida a seres inanimados).
As maiores
limitações desse período são a centração, a irreversibilidade, o egocentrismo,
a transdução e a confusão aparência/realidade.
Operatório
concreto
No estágio operatório concreto, que dura dos 7 aos 11 anos de vida, a
criança começa a lidar com conceitos abstratos como os números e relacionamentos.
Esse estágio é caracterizado por uma lógica interna consistente e pela
habilidade de solucionar problemas concretos.
* Por
volta dos 7 anos, o equilíbrio entre a assimilação e a acomodação torna-se
mais estável;
* Surge a capacidade de se fazer análises lógicas;
* A criança ultrapassa o egocentrismo, ou seja, dá-se um aumento da empatia
com os sentimentos e as atitudes dos outros;
* Mesmo antes deste estágio a criança já é capaz de ordenar uma série
de objectos por tamanhos e de comparar dois objectos indicando qual é
o maior, mas ainda não é capaz de compreender a propriedade transitiva
(A é maior que B, B é maior que C, logo A é maior que C). No início deste
estágio a criança já é capaz de compreender a propriedade transitiva,
desde que aplicada a objectos concretos que ela tenha visto;
* Começa a perceber a conservação do volume, a massa e o comprimento.
Operatório
formal
No estágio operatório formal (ou operacional formal) – desenvolvido a
partir dos 12 anos de idade – a criança começa a raciocinar lógica e sistematicamente.
Esse estágio é definido pela habilidade de engajar-se no raciocínio abstrato.
As deduções lógicas podem ser feitas sem o apoio de objetos concretos.
O pensamento hipotético dedutivo é o mais importante aspecto apresentado
nessa fase de desenvolvimento, pois o ser humano passa a criar hipóteses
para tentar explicar e sanar problemas, o foco desvia-se do "é" para o
"poderia ser". A metodologia científica e os conceitos abstratos aparecem
nessa etapa do desenvolvimento.
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70 da Revista ReConstruir.
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