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Os
Educadores
Ano
8 - nº 68 - 15 de novembro de 2008
Edouard
Claparède e a psicologia da criança
da Redação

Resumo
biográfico
Édouard Claparède nasceu em Genebra, Suíça, em 1873, numa tradicional
família calvinista. Logo depois de formar-se em medicina, direcionou sua
carreira para o campo da psicologia experimental. Alguns de seus estudos
influenciaram a teoria psicanalítica de Sigmund Freud (1856-1939). Em
1905, publicou Psicologia da Criança e Pedagogia Experimental, que teve
grande repercussão. Em 1912, criou o Instituto Jean-Jacques Rousseau (ou
Academia de Genebra), para o estudo da psicologia infantil e sua aplicação
no ensino. Seu trabalho foi continuado pelo discípulo Jean Piaget, que,
como chefe do instituto, reformulou-o e integrou-o à Universidade de Genebra.
Em 1924, Claparède foi um dos redatores do primeiro esboço de uma carta
internacional dos direitos da criança e, no ano seguinte, foi co-fundador
do Escritório Internacional de Educação, hoje órgão da Organização das
Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco). O psicólogo
esteve no Brasil, em 1930, a convite de uma ex-aluna, a educadora Helena
Antipoff, de Minas Gerais, e aqui terminou de escrever um de seus principais
livros, A Educação Funcional. Morreu em Genebra em 1940.
Adaptação
ao ambiente
Claparède defendia uma abordagem funcionalista da psicologia, pela qual
o ser humano é, acima de tudo, um organismo que funciona. Os fenômenos
psicológicos, para ele, deviam ser abordados do ponto de vista do papel
que exercem na vida, do seu lugar no padrão geral de comportamento num
determinado momento. Com base nisso, o pensamento é tido como uma atividade
biológica a serviço do organismo humano, que é acionado diante de situações
com as quais não se pode lidar por meio de comportamento reflexo. Claparède
defendia o estudo dos processos psicológicos como funções de adaptação
ao ambiente.
Esse
raciocínio levou Claparède a formular a lei da necessidade e do interesse,
ou princípio funcional, que o tornou conhecido. Segundo ela, toda atividade
desenvolvida pela criança é sempre suscitada por uma necessidade a ser
satisfeita e pela qual ela está disposta a mobilizar energias. O interesse
é considerado a tradução psicológica da necessidade do sujeito. Cabe então
ao professor colocar o aluno na situação adequada para que seu interesse
seja despertado e permitir que ele adquira o conhecimento que vá ao encontro
do que procura.
É a necessidade
que põe em movimento os indivíduos – animais e homens – e que faz vibrar
os estímulos interiores para suas atividades, escreveu Claparède. É isso
que se pode notar em todo lugar e sempre, exceto, é verdade, nas escolas,
porque estas estão fora da vida.
Aprendizado
ativo
Claparède criticava a escola de seu tempo com os mesmos argumentos do
filósofo norte-americano John Dewey (1859-1952) – com quem compartilhava
a pregação por uma escola que chamavam de ativa, na qual a aprendizagem
se dá pela resolução de problemas – e dos pedagogos do movimento da Escola
Nova. Todos eles condenavam a escola tradicional por considerar o aluno
como receptáculo de informações e defendiam a prioridade da educação sobre
a instrução. O saber não tem nenhum valor funcional e não é um fim em
si mesmo, defendia Claparède.
Surge
com esses pensadores a noção de que a atividade, e não a memorização,
é o vetor do aprendizado. Daí a importância que Claparède conferia à brincadeira
e ao jogo. Eles seriam recursos na estratégia de despertar, no ambiente
da escola, as necessidades e interesses do aluno. Seja qual for a atividade
que se queira realizar na sala de aula, deve-se encontrar um meio de apresentá-la
como um jogo, sugeriu Claparède. Ele sustentava a idéia, totalmente nova
para sua época, de que o sujeito psicológico é um sujeito ativo. Segundo
o psicólogo, conforme a criança cresce, a idéia de jogo vai sendo substituída
pela de trabalho, seu complemento natural.
Como
os demais defensores da escola ativa, Claparède condenava o ensino de
seu tempo por não dar suficiente infra-estrutura aos educadores para uma
prática profissional metódica, amparada pela ciência e que permitisse
a atualização constante. Mas ele tinha uma visão bem mais utilitária da
escola do que seus pares. Em vez de dar à criança condições de viver da
melhor forma possível a infância, ele acreditava que a escola deveria
priorizar o rendimento do aluno, ou seja, justificar os recursos fartos
que, naquela época, os governos europeus começavam a canalizar para a
educação. A escola, segundo Claparède, deveria formar bons quadros profissionais
para servir a uma sociedade que investia nessa formação. O cientista defendia
até uma atenção diferenciada para os estudantes que se revelassem mais
aptos, de tal forma que pudessem ser submetidos a exigências maiores em
classes constituídas apenas de bons alunos.
Escolas
talhadas para os alunos
Claparède justificava sua proposta de uma escola sob medida (título de
um de seus livros) dizendo que, na impossibilidade de haver uma escola
para cada criança ou para cada tipo de inteligência, o sistema mais próximo
disso seria o que permitisse a cada aluno reagrupar o mais livremente
possível os elementos favoráveis ao desenvolvimento de suas condutas pessoais.
Para isso, o psicólogo pregava reduzir o currículo obrigatório a conteúdos
suficientes para a transmissão de um conhecimento que constituísse uma
espécie de legado espiritual de uma mesma geração, deixando a maior parte
do período letivo para atividades escolhidas pelo próprio aluno. Claparède
recomendava ainda a adoção de outras estratégias, isoladamente ou combinadas,
para o melhor aproveitamento das potencialidades intelectuais dos alunos,
como as classes paralelas (uma para os estudantes mais inteligentes, outra
para aqueles com maior dificuldade de aprendizado) e as classes móveis
(que dariam a possibilidade de um mesmo aluno acompanhar diferentes disciplinas
em ritmos diferentes, mais acelerados ou mais lentos, de acordo com suas
aptidões).
O
crescimento como adaptação contínua
A infância estava em alta como objeto de investigação científica nas últimas
décadas do século 19. De um lado, a urbanização, a sofisticação dos processos
industriais e a disseminação das redes públicas de ensino criavam um interesse
inédito pelas crianças. De outro, as ciências da natureza viviam uma fase
de euforia sob o impacto das descobertas de Charles Darwin. Foi o próprio
Darwin o primeiro cientista a se dedicar ao estudo do desenvolvimento
das crianças, quando, em 1840, começou a observar e anotar sistematicamente
o processo de crescimento de um de seus filhos. Trabalhos de acompanhamento
semelhantes, típico da psicologia experimental, foram aprofundados por
outros pioneiros do estudo da criança, como o norte-americano Stanley
Hall (1844-1924).
Claparède
faz parte dessa linhagem e é um típico representante da psicologia influenciada
pela biologia e pelo evolucionismo, para quem o conceito de vida corresponde
a um processo de adaptação contínuo guiado pela lógica da utilidade e
da eficiência. Para Claparède, assim como para os demais representantes
do movimento da Escola Nova, o desenvolvimento de cada ser humano e de
toda a espécie significa uma luta ou uma procura pela conservação da vida,
o que ocorre pela interação com o ambiente. Ao longo do século 20, a infância
seria vista segundo outros parâmetros por diferentes escolas de pensamento.
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a leitura da Edição
68 da Revista ReConstruir.
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