|
|
Os
Educadores
Ano
7 - nº 60 - 16 de agosto de 2007
Henri
Wallon: os caminhos da inteligência
da Redação

Henri
Wallon nasceu em Paris, França, em 1879. Graduou-se em Medicina e Psicologia.
Fez também Filosofia. Atuou como médico na Primeira Guerra Mundial (1914-1918),
ajudando a cuidar de pessoas com distúrbios psiquiátricos.
Em 1925
criou um laboratório de Psicologia Biológica da Criança. Quatro anos mais
tarde, tornou-se professor da Universidade Sorbonne e vice-presidente
do Grupo Francês de Educação Nova - instituição que ajudou a revolucionar
o sistema de ensino daquele país e da qual foi presidente de 1946 até
morrer, também em Paris, em 1962.
Ao longo
de toda a vida, dedicou-se a conhecer a infância e os caminhos da inteligência
nas crianças.
Militante
de esquerda, participou das forças de resistência contra Adolf Hitler
e foi perseguido pela Gestapo (a polícia política nazista) durante a Segunda
Guerra (1939-1945). Em 1947 propôs mudanças estruturais no sistema educacional
francês. Coordenou o projeto Reforma do Ensino, conhecido como Langevin-Wallon
- conjunto de propostas equivalente à nossa Lei de Diretrizes e Bases.
Nele, por exemplo, está escrito que nenhum aluno deve ser reprovado numa
avaliação escolar. Em 1948 lançou a revista Enfance, que serviria de plataforma
de novas idéias no mundo da educação - e que rapidamente se transformou
numa espécie de bíblia para pesquisadores e professores.
Vida
e Obra
Crises sociais e instabilidades políticas foram fundamentais para o francês
Henri Wallon construir sua teoria pedagógica. As duas grandes guerras
mundiais, o avanço dos regimes fascista e nazista na Europa, a revolução
socialista na Rússia e as guerras pela libertação das colônias africanas,
na primeira metade do século XX, serviram de estímulo para que ele organizasse
suas idéias. A valorização da afetividade (emoções) como elemento essencial
no desenvolvimento da pessoa trouxe um novo alento à Filosofia da Educação.
Isso explica, em parte, a visão marxista que deu à sua obra e por que
aderiu, no período anterior à Primeira Guerra, aos movimentos de esquerda
e ao Partido Socialista. "Ditadura e educação", dizia ele, "são inimigos
eternos." Sem dúvida.
A teoria
de Henri Wallon ainda é um desafio para muitas escolas, pais e professores.
Sua obra faz uma resistência contumaz aos métodos pedagógicos tradicionais.
Numa época de crises, guerras, separações e individualismos como a nossa,
não seria melhor começar a pôr em prática nas escolas idéias mais humanistas,
que valorizem desde cedo a importância das emoções?
Diferentemente
dos métodos tradicionais (que priorizam a inteligência e o desempenho
em sala de aula), a proposta walloniana põe o desenvolvimento intelectual
dentro de uma cultura mais humanizada. A abordagem é sempre a de considerar
a pessoa como um todo. Elementos como afetividade, emoções, movimento
e espaço físico se encontram num mesmo plano. As atividades pedagógicas
e os objetos, assim, devem ser trabalhados de formas variadas. Numa sala
de leitura, por exemplo, a criança pode ficar sentada, deitada ou fazendo
coreografias da história contada pelo professor. Os temas e as disciplinas
não se restringem a trabalhar o conteúdo, mas a ajudar a descobrir o eu
no outro. Essa relação dialética ajuda a desenvolver a criança em sintonia
com o meio.
Falar
que a escola deve proporcionar formação integral (intelectual, afetiva
e social) às crianças é comum hoje em dia. No início do século passado,
porém, essa idéia foi uma verdadeira revolução no ensino. Uma revolução
comandada por um médico, psicólogo e filósofo francês chamado Henri Wallon.
Sua teoria pedagógica, que diz que o desenvolvimento intelectual envolve
muito mais do que um simples cérebro, abalou as convicções numa época
em que memória e erudição eram o máximo em termos de construção do conhecimento.
Wallon foi o primeiro a levar não só o corpo da criança, mas também suas
emoções, para dentro da sala de aula. Baseou suas idéias em quatro elementos
básicos que se comunicam o tempo todo: a afetividade, o movimento, a inteligência
e a for-mação do eu como pessoa. Militante apaixonado (tanto na política
como na educação), dizia que reprovar é sinônimo de expulsar, negar, excluir.
Ou seja, "a própria negação do ensino".
Afetividade
As emoções, para Wallon, têm papel preponderante no desenvolvimento da
pessoa. É por meio delas que o aluno exterioriza seus desejos e suas vontades.
Em geral são manifestações que expressam um universo importante e perceptível,
mas pouco estimulado pelos modelos tradicionais de ensino. As transformações
fisiológicas de uma criança (ou, nas palavras de Wallon, no seu sistema
neurovegetativo) revelam traços importantes de caráter e personalidade.
"A emoção é altamente orgânica, altera a respiração, os batimentos cardíacos
e até o tônus muscular, tem momentos de tensão e distensão que ajudam
o ser humano a se conhecer", explica Heloysa Dantas, da Faculdade de Educação
da Universidade de São Paulo, estudiosa da obra de Wallon há 20 anos.
Segundo ela, a raiva, a alegria, o medo, a tristeza, a alegria e os sentimentos
mais profundos ganham função relevante na relação da criança com o meio.
"A emoção causa impacto no outro e tende a se propagar no meio social",
completa a pedagoga Izabel Galvão, também da USP. Ela diz que a afetividade
é um dos principais elementos do desenvolvimento humano.
Movimento
Segundo a teoria de Wallon, as emoções dependem fundamentalmente da organização
dos espaços para se manifestarem. A motricidade, portanto, tem caráter
pedagógico tanto pela qualidade do gesto e do movimento quanto por sua
representação. Por que, então, a disposição do espaço não pode ser diferente?
Não é o caso de quebrar a rigidez e a imobilidade adaptando a sala de
aula para que as crianças possam se movimentar mais? Mais que isso, que
tipo de material é disponibilizado para os alunos numa atividade lúdica
ou pedagógica? Conforme as idéias de Wallon, a escola infelizmente insiste
em imobilizar a criança numa carteira, limitando justamente a fluidez
das emoções e do pensamento, tão necessária para o desenvolvimento completo
da pessoa.
Inteligência
Estudos realizados por Wallon com crianças entre 6 e 9 anos mostram que
o desenvolvimento da inteligência depende essencialmente de como cada
uma faz as diferenciações com a realidade exterior. Primeiro porque, ao
mesmo tempo, suas idéias são lineares e se misturam - ocasionando um conflito
permanente entre dois mundos, o interior, povoado de sonhos e fantasias,
e o real, cheio de símbolos, códigos e valores sociais e culturais. Nesse
conflito entre situações antagônicas ganha sempre a criança. É na solução
dos confrontos que a inteligência evolui. Wallon diz que o sincretismo
(mistura de idéias num mesmo plano), bastante comum nessa fase, é fator
determinante para o desenvolvimento intelectual. Daí se estabelece um
ciclo constante de boas e novas descobertas.
O
eu e o outro
A construção do eu na teoria de Wallon depende essencialmente do outro.
Seja para ser referência, seja para ser negado. Principalmente a partir
do instante em que a criança começa a viver a chamada crise de oposição,
em que a negação do outro funciona como uma espécie de instrumento de
descoberta de si própria. Isso se dá aos 3 anos de idade, a hora de saber
que "eu" sou. "Manipulação (agredir ou se jogar no chão para alcançar
o objetivo), sedução (fazer chantagem emocional com pais e professores)
e imitação do outro são características comuns nessa fase", diz a professora
Angela Bretas, da Escola de Educação Física da Universidade Estadual do
Rio de Janeiro. "Até mesmo a dor, o ódio e o sofrimento são elementos
estimuladores da construção do eu", emenda Heloysa Dantas. Isso justifica
o espírito crítico da teoria walloniana aos modelos convencionais de educação.
Estágios
de Desenvolvimento
Assim como na teoria piagetiana, a teoria de Wallon também propõe uma
série de estágios do desenvolvimento cognitivo. Por outro lado, Wallon
é bem mais flexível na análise dos estágios: ao contrário de Piaget, Wallon
não acredita que os estágios de desenvolvimento formem uma sequência linear
e fixa, ou que um estágio suprima o outro. Para Wallon, o estágio posterior
amplia e reforma os anteriores. O desenvolvimento não seria, na obra walloniana,
um fenômeno suave O desenvolvimento não seria, na obra walloniana, um
fenômento suave e contínuo; pelo contrário, o desenvolvimento seria permeado
de conflitos internos e externos. Wallon deixa claro que é natural que,
no desenvolvimento, ocorram rupturas, retrocessos e reviravoltas, o que
para Piaget e os comportamentalistas parece algo improvável. Os conflitos,
mesmo os que resultem em retorno a estágios anteriores, são fenômenos
interentemente dinamogênicos, geradores de evolução. Wallon afirma que
os estágios se sucedem de maneira que momentos predominantemente afetivos
sejam sucedidos por momentos predomi-nantemente cognitivos. Usualmente,
períodos predominantemente afetivos ocorrem em períodos focados na construção
do eu, enquanto estágios com predominância cognitiva estão mais direcionados
à construção do real e compreensão do mundo físico. Este ciclo não é encerrado,
mas perdura pela vida toda, uma vez que a emoção sobrepõe-se à razão quando
o indivíduo se depara com o desconhecido. Deste modo, afetividade e cognição
não são estanques e se revezam na dominância dos estágios.
"Reprovar
é sinônimo de expulsar, negar, excluir. É a própria negação do ensino"
Wallon
classifica os estágios de desenvolvimento em: Impulsivo-emocional (até
3° mês). Sensório motor projetivo (até 3 anos). Personalismo (até 6 anos).
Categorial (até 11 anos). Adolescência (até 15 anos). Em verdade, para
Wallon o processo de aprendizagem sempre implica na passagem por um novo
estágio. O processo dialético de desenvolvimento jamais se encerra.
....................................
Continue
a leitura da Edição
60 da Revista ReConstruir.
|
IBEM
Conheça a educação moral e a cultura
da paz.
www.educacaomoral.org.br
Interior
da Alma
Livros sobre educação, espiritualismo, auto-ajuda.
www.interiordaalma.com.br
Análise
e Crítica
Blog de Marcus De Mario
sobre assuntos atuais.
http://analiseecritica.blogspot.com
|