Ano 10 - nº 87 - Junho de 2011 - A revista do educador
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Olhar Crítico
Da Redação
A educação que temos e a educação que precisamos



Um novo período de aulas incia, e os problemas continuam os mesmos, e o mais grave: a qualidade do ensino continua a mesma, com professores ensinando conteúdos para serem memorizados e demonstrados nas provas, testes e vestibulares.

Dossiê do Ensino
É fácil ter um retrato do ensino brasileiro, pois os dados oficiais e de pesquisas diversas estão à disposição. E o retrato não é muito animador, indicando uma deterioração perigosa no ensino e, portanto, na aprendizagem das novas gerações.

97% das crianças brasileiras estão na escola.
É um dado expressivo, demonstrando o esforço pela escolarização desenvolvido nos últimos tempos, mas os 3% que estão fora da escola representam 1,5 milhão de brasileirinhos sem alfabetização, sem estudo.

Temos 162 mil escolas de ensino fundamental
Entretanto, por todo este Brasil, 25 mil não tem luz elétrica (e não podem ter aula noturna, não podem ter qualquer tipo de equipamento que dependa da energia elétrica para funcionar); 129 mil não tem acesso a internet (é a exclusão digital de professores e alunos); 10 mil não tem banheiro (parece inacreditável, mas é a pura verdade).

O professor brasileiro possui, em média, 11,4 anos de estudo
É um dos menores índices da América Latina.

O Brasil investe 842 dólares/ano por criança
Isso no ensino fundamental, perdendo longe para o investimento feito, por exemplo, na Argentina, Chile, Estados Unidos e Canadá.

4,3% do PIB vai para a educação
Mas o ideal é que o governo destine 7% do Produto Interno Bruto em educação.

Evasão/Repetência
De cada 100 alunos matriculados na 1ª série do ensino fundamental, 47 concluem a 8ª série, 14 terminam o ensino médio e 11 conseguem entrar no ensino superior.

Baixo nível de aprendizagem
61% dos alunos da 4% série do ensino fundamental não conseguem identificar as principais idéias de um texto simples, e 60% dos alunos da 8ª série não sabem interpretar um texto disserativo. Em matemática, 65% dos alunos da 4ª série não dominam as quatro operações, e 60% dos alunos da 8ª série não sabem porcentagem.

Sem internet
Nas escolas públicas, 72% dos alunos de baixa renda matriculados na 8ª série do ensino fundamental, não tem acesso a computadores.

Apagão no ensino médio
O país tem déficit de 245 mil professores com licenciatura, com deficiência principalmente nas disciplinas de física, química, matemática e biologia.

É preciso construir escolas para as crianças
O governo federal calcula que faltam 16 mil unidades na educação infantil para atender as crianças que estão fora da sala de aula.

Idades e séries em defasagem
No ensino médio, dos estudantes de 15 a 17 anos somente 37,1% freqüentam a série esperada para a idade, ou seja, 6,1 milhões estão em defasagem, e 1,9 milhão sequer freqüentam a escola.

Procuram-se secretarias para a educação
Apenas 26,3% dos municípios brasileiros possuem um órgão gestor exclusivo para a educação.

Continuamos os piores
O exame do PISA – Programa Internacional de Avaliação de Alunos mostra que, entre 57 países analisados, nossos alunos estão em 52° lugar em ciências, 53° em matemática e 48° em leitura.

Leio e escrevo, mas não compreendo
É o que indica pesquisa sobre o analfabetismo funcional: 32% da população de 15 a 64 anos sabe ler e escrever, mas não sabe interpretar textos e nem fazer cálculos.

Cremos que não há necessidade de ampliar este dossiê sobre o ensino brasileiro, os dados falam por si mesmos da realidade que estamos enfrentando a cada ano, com poucas mudanças significativas.

Diagnosticando a crise
Diante do quadro assustador do ensino brasileiro, cabe uma pergunta ao nosso leitor: você já parou para pensar que na atualidade estamos enfrentando uma grave crise moral? E que essa crise é causadora dos males sociais que temos enfrentado? Isso mesmo, crise moral. Ao longo do tempo, geração a geração, temos subvertido os valores da vida, colocando-os a serviço do imediatismo egoísta, quer seja individual ou de grupo, provocando assim forte demanda pelos interesses do poder, do dinheiro, do status social, relegando o aspecto espiritual e ético da vida a segundo plano nas cogitações do existir.

A crise moral também assola o meio educacional.

São gestores públicos politizados com visão reducionista, trabalhando para o sistema imposto pelos interesses partidários e pelas barganhas do "toma lá, dá cá", mantendo escolas, capacitações, equipamentos e materiais pedagógicos desprovidos do mínimo necessário, ou privilegiando determinado projeto em detrimento da totalidade do sistema de ensino.

São gestores escolares não motivadores, exercendo a direção da escola de forma personalista, respondendo a interesses outros, expulsando alunos, discriminando colegas de trabalho, cerceando novas ideias, fazendo exigências burocráticas cumulativas e considerando que "os alunos não têm mais jeito".

São professores desestimulados, desconhecedores da profundidade do educar, preenchendo vagas em concurso público sem possuírem vocação para o magistério. Atuam em sala de aula sem darem bons exemplos; carregam frustrações e estresses que despejam nos alunos; mecanizam-se como repassadores de conteúdos; e, muitas vezes, mais desorientam crianças e adolescenSão pais exigindo aceleração da aprendizagem, acreditando que educação é sinônimo de muita matéria para estudar, muito dever de casa, muitas provas para avaliar o rendimento dos filhos, muitas atividades extracurriculares, muitos diplomas, sem nenhuma preocupação com a formação do caráter, com o desenvolvimento do equilíbrio emocional dos seus filhos.

E aí está o sistema de ensino, ensinando de tudo, menos o que é mais importante: virtudes, ética, cidadania, ideais superiores de vida. E temos a crise moral.

Tão grave é a situação, que um simples gesto de honestidade escandaliza. Uma ajuda espontânea, sem outro interesse, é vista com desconfiança. Invertemos os valores da vida.

Mas, tudo tem jeito. Para solucionar a crise moral, a subversão dos valores e a falta de virtudes e ideais superiores de vida, devemos aplicar a educação moral.

O primeiro passo
Para termos educação de qualidade necessário se faz uma revisão nos valores que norteiam o entendimento sobre educação. Hoje assistimos o funcionamento de uma equação questionável: educação é igual a sistema de ensino, tendo como resultado que quanto mais anos de escolarização e mais especializações pós-graduação, mais educado estará o homem. É comum ouvirmos pais e mães dizerem que já providenciaram a educação dos seus filhos, ou seja, já providenciaram a matrícula na escola. É, na verdade, uma visão distorcida do que seja educação.

Educação é processo de formação integral do ser integral. Expliquemos o enunciado.

Quando falamos em processo de formação integral, entendemos que a educação - que deve ser promovida em íntima união pela família e pela escola - vai estimular o desenvolvimento de todas as potencialidades do ser em crescimento, ou seja, vai trabalhar tanto o saber quanto o emocional. Não irá priorizar esta ou aquela área, mas sim equilibrar a aquisição dos conhecimentos com a formação do caráter do educando.

E quando falamos em ser integral, entendemos que o educando - e todos nós somos sempre educandos - é uma pessoa dotada de potencialidades intelectuais, emocionais e espirituais formando um conjunto que não pode ser desprezado ou dividido. Todos nós somos seres bio-sócio-psico-espirituais formando um todo indissociável.

A educação vista apenas como escolarização acarreta grande prejuízo à formação do ser. É neste ponto que devemos iniciar a educação de qualidade, mudando o atual entendimento sobre o significado profundo da educação, que vai além do conteúdo curricular e do diploma. Nunca teremos verdadeira qualidade na educação enquanto acreditarmos que para isso bastam prédios, equipamentos, professores e atividades culturais-esportivas, como se esses procedimentos pudessem formar o cidadão de amanhã, resolvendo todos os problemas individuais e coletivos que hoje enfrentamos.

A escola é importante e todos os esforços para sua melhoria são muito bem-vindos, mas se ela continuar a não ensinar o essencial, de nada adiantarão esses esforços. Pois que tudo é ensinado, menos a ética, a honestidade, a dignidade de viver, a cooperação, a visão profunda do significado da vida. Temos assistido geração após geração enredadas em princípios individuais e imediatos de viver, sem nenhuma perspectiva quanto ao futuro, pois vive-se o aqui e agora de forma egoísta, gerando violência, injustiça, desequilíbrio ambiental, corrupção, capitalismo selvagem.

Para renovarmos os valores e ideais que norteiam a educação, e assim conseguirmos a educação de qualidade de nossas crianças e jovens, precisamos colocar em ação a educação moral, tanto na família como na escola, pois somente trabalhando a formação do caráter através do amor, dando aos jovens fé em si mesmos e na vida, teremos um futuro melhor.

Alfabetização, profissionalização, especialização fazem parte da educação, que é um processo de formação do ser que leva tempo e requer sensibilidade e paciência, mas não são a educação. Educar é muito mais do que ensinar e não se resume nos procedimentos escolares de variados níveis, tanto que, se assim fosse, nossa educação teria qualidade muito boa há bastante tempo, o que não é verdade.

Eis, pois, o primeiro passo, e fundamental, para termos educação de qualidade: renovarmos o entendimento sobre educação, seus objetivos, suas finalidades, pois todo o resto do edifício depende dessa base.

Assim, renovam-se as esperanças para que no próximo ano tenhamos modificações que levem à transformação do ensino, interrompendo o ciclo vicioso da repetição.



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