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Olhar Crítico

Ano 9 - nº 78 - 15 de novembro de 2009

Limites: o que a escola deve fazer?

da Redação

Apesar de ainda ser pensamento muito utilizado, hoje já sabemos que violência, agressividade, desrespeito não são coisas que acontecem apenas na escola pública de periferia que recebe crianças e adolescentes pobres. é quadro comum também de escolas particulares com alunos oriundos da classe média e alta. Num e noutra escola os professores se mostram despreparados para para lidar com alunos agressivos e sem limites. O que fazer? Entrar em desespero, reclamar da família, expulsar o(s) aluno(s) ou trabalhar para educá-lo(s)? As três primeiras opções - desespero, reclamção, expulsão - já se mostraram ineficientes, então o jeito é assumir a responsabilidade que compete à escola de fazer sua parte na educação das novas gerações.

A construção de valores morais tem início na infância e vai se consolidar na adolescência, quando está desenvolvida a capacidade de raciocínio abstrato. Valores morais como tolerância pelo diferente, amor à justiça, sentimento de solidariedade, compaixão, e respeito pelas coisas e pessoas são compromissos da escola com a educação, e iso não pode ser esquecido.

A escola deve fazer tudo o que estiver ao seu alcance, mesmo não podendo se encarregar de todos os aspectos da formação de seus alunos, pois para isso precisa da colaboração da família, mas não pode se eximir, não pode transferir sua função para a sociedade, como no caso da expuilsão de um aluno, onde ela apenas transfere o problema, quando deveria procurar solucioná-lo.

Aliás, expulsar um aluno é atestar a falência da escola. Se ele é agressivo, bagunceiro, transgressor das regras, deve responder pelos prórpios atos através de "castigos" que o levem a reparar o erro cometido, o que abre a porta do arrependimento. Exemplo: sujou a parede, é obrigado a limpá-la; foi agressivo com colegas ou professor, vai fazer um trabalho sobre violência; quebrou alguma coisa, terá de consertar.

A escola deve aproveitar os episódios de violência, de falta de limites, para levar todo mundo a refletir sobre a ética da convivência. Periodicamente deveriam ser promovidas assembléias, assim como cine-debates, propiciando a todos saudável discussão sobre empatia e solidariedade (veja sugestão de filmes no final da reportagem).

Gestores escolares e coordenadores pedagógicos devem procurar ser parceiros dos pais e responsáveis, fazendo com que a escola interaja intensamente com a família, conversando sobre o aluno-filho agressivo, problemático. Conhecendo as normas da família, sua história, o preparo ou despreparo dos pais para lidar com o filho transgressor, a escola preparará atividades conjuntas que serão muito proveitosas para a melhor educação da criança e do jovem.

Não adianta bater de frente
A primeira "lição" para quem trabalha com adolescentes é não tomar para o lado pessoal qualquer tipo de afronta vinda de um aluno. Responder a uma provocação no mesmo tom só faz você perder o respeito e a admiração do grupo — o que dificulta o trabalho em classe. Além disso, ao perceber que tirou o professor do sério, o jovem se sente vitorioso e estimulado a repetir a dose.

Os alunos precisam ter voz
Aposte na qualidade do relacionamento com os alunos como um dos fatores determinantes para a aprendizagem. Você pode trabalhar a interação e o respeito entre os jovens, debatendo assuntos que tanto os inquietam, como sexualidade, drogas, violência e desemprego.

O interesse facilita a aprendizagem
Confiança e consideração: atenda em particular cada um dos alunos, que confidenciam a você angústias e inseguranças. Se os adolescentes admiram e respeitam o professor, ele já tem meio caminho andado para desenvolver os conteúdos curriculares. Para percorrer a outra metade do caminho, é preciso ter boas táticas. Uma das melhores formas de ensinar os jovens é fazer da sala de aula algo bem próximo do mundo deles.

Quando o problema é outro
Nem sempre atitudes inadequadas do aluno são totalmente justificadas pela fase por que passa. Agressividade ou problemas de socialização podem ter causas mais sérias, com as quais o adolescente não sabe lidar. O professor deve ficar atento também à vida familiar do estudante. Há ainda alunos que chegam à adolescência com problemas auditivos ou visuais nunca tratados, o que justifica o desinteresse pelas aulas. Outro tipo de caso é o dos estudantes que não cursaram a Educação Infantil. Nessa etapa da escolarização, o aluno aprende a se socializar e a conviver com regras, além de desenvolver a linguagem oral e a psicomotricidade. Trabalhar dessa maneira — conhecendo bem o aluno, fazendo pontes constantes entre o mundo jovem e a matéria a ser dada e driblando o comportamento agitado da turma — requer comprometimento, planejamento apurado e alto grau de paciência. Para não perder o equilíbrio, uma sugestão importante: deixe seus problemas do lado de fora da sala e não absorva aqueles que surgirem lá dentro. Não é fácil, mas dados os primeiros passos, não só o conteúdo vai ser bem trabalhado como também a formação humana, que justifica a existência da escola.

Cada atitude pede uma solução
Você evita prejudicar suas aulas quando lida adequadamente com reações típicas da adolescência.

Desinteresse — O jovem está mais preocupado com a roupa que vai usar do que com os presidentes da época da ditadura. Tente saber o que passa pela cabeça dele e contemple em suas aulas as dúvidas que traz sobre sexualidade, por exemplo, por meio de dinâmicas, pesquisas ou debates. Para não expor ninguém, procure ter conversas particulares. O estudante precisa sentir que a escola satisfaz suas expectativas.

Agressividade — Vandalismo e agressões verbais e físicas, por exemplo, podem ser resposta do jovem ao mundo que o cerca. Cobranças por bom desempenho escolar e por atitudes maduras geram ansiedade e reações inadequadas, já que ele não se sente apto a atender às expectativas. Procure saber como é o relacionamento do aluno com os pais e que idéia faz de si mesmo e de seu futuro. Se ele encontrar na escola um local para expressar seus pensamentos e descobrir suas aptidões, o nível de ansiedade e a agressividade diminuem.

Arrogância — O adolescente acha que pode tudo. A idéia de que está sempre certo faz com que ele desdenhe do que é dito ou imposto. Em vez de responder à altura, uma boa solução é questioná-lo. Peça que explique o que tem em mente e pergunte porque usou aquele tom de voz. Para responder, ele vai formular melhor os argumentos. Pode ser que reconheça o erro, mas, mesmo se ele mantiver o que disse, já terá ao menos aprendido a se expressar de forma educada.

Rebeldia — Você sugere à turma a apresentação oral de um conteúdo estudado. Responder com um baita "Ah, não!" geralmente é a primeira reação. Os motivos podem ser insegurança ou mesmo uma forma de se auto-afirmar frente aos colegas. O problema é quando a negação vem de forma brusca. O melhor a fazer, nesse caso, é não entrar no embate já que o jovem testa os mais velhos para ver até onde pode ir. Ao falar o que é necessário e deixar claro o papel de cada um, você conquista o respeito deles pelo bom exemplo.

Resistência — O jovem quer experimentar tudo, viver tudo, saber de tudo. Só que tem sempre um adulto dizendo o que ele não pode fazer. Mesmo que essas sejam orientações sensatas, é preciso compreender que sensatez ainda não é uma qualidade que eles valorizam. O adulto é quem impede as coisas que dão prazer. Por isso a resistência ao que vem do professor ou dos pais (e nisso se inclui o conteúdo escolar). Antes de começar a aula, por que não bater um papo rápido sobre algo que interessa à moçada? Aberto o espaço, os jovens baixam a guarda e percebem que para tudo tem hora.

Filmes que podem ser utilizados no Cine-Debate
Jamaica Abaixo de Zero
Direção: Jon Turteltaub
Aparentemente, um filme sobre o espírito esportivo. Mas é também uma obra-prima sobre a solidariedade, o espírito de equipe e o respeito a si mesmo e ao outro. Fundamental.

O Clube da Felicidade e da Sorte
Direção: Wayne Wang
A história de quatro imigrantes chinesas nos Estados Unidos serve de pano de fundo para lidar com o choque de gerações e o preconceito.

O Sol é para Todos
Direção: Robert Mulligan
Um dos mais pungentes libelos contra o preconceito que o cinema já produziu.

Grand Cannyon
Direção: Lawrence Kasdan
Choque de gerações e de valores, num filme denso e emocionante.

Sociedade dos Poetas Mortos
Direção: Peter Weir
O professor apaixonado e criativo leva seus alunos (e a plateia) a indagações sobre o significado do conhecimento e a importância da cultura.

Edward Mãos de Tesoura
Direção: Tim Burton
Recorrendo ao mito do rapaz que possuia duas tesouras no lugar das mãos, o filme trata com sensibilidade de questões como o desajeitamento do adolescente e o preconceito.

Coach Carter, Treino para a Vida
Direção: Thomas Carter
Um técnico de basquete mostrando aos jovens um futuro que vai além de gangues e prisão.

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Continue a leitura da Edição 78 da Revista ReConstruir.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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