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Olhar Crítico

Ano 9 - nº 77 - 15 de outubro de 2009

Escola e educação: novos rumos

da Redação

Não é de hoje que pensadores e educadores indicam novos rumos para a escola, na tentativa de unir o fazer escolar com a promoção de uma verdadeira educação, e não apenas com o ensino de matérias curriculares. Nesses contexto, destacam-se a Escola Amena de Vittorino da Feltre, em pleno século 16; as propostas de Pestalozzi implementadas no Instituto de Iverdon no início do século 19; a Casa das Crianças da educadora Maria Montessori; o pensamento renovador da Escola Nova, também conhecida como Ativa ou do Trabalho, na primeira metade do século 20. E aqui no Brasil, entre várias propostas, destaca-se o Centro Integrado idealizado por Darcy Ribeiro. E temos também a Escola do Sentimento, apresentada pelo educador Marcus De Mario.

Vamos fazer um passeio pela história e conhecer essas propostas. E vamos perceber que, entre elas, existem muitos pontos de contato e muita coisa boa que, se colocada em prática, faria muito bem para as nossas escolas e, claro, para a educação.

No humanismo renascentista uma escola diferente
Rompendo com as estruturas clássicas e religiosas da Idade Média, o movimento renascentista ocupou os séculos 15 e 16 fazendo renovações no pensamento intelectual, estético e social, trazendo de volta a literatura e a cultura greco-romana. O Renascimento fez uma revisita ao passado, à vida real dos antigos impérios Grego e Romano, levando a um estudo mais amplo das linguas latina e grega e ao entusiasmo pela literatura clássica de ambas. Isso levou esse período da história a ser um dos mais férteis em imaginação, apreciação do belo, do emocional, em esforço artístico. Foi assim que os estudiosos renascentistas dedicaram-seà observação direta e à experimentação dos fenômenos da natureza, consolidando novas estruturas do pensamento e da sociedade.

Entre os educadores espalhados pela Europa, destacam-se principalmente italianos (Petrarca, Boccaccio, Barzizza, Feltre), alemães (Desidério Erasmo) e ingleses (Roger Ascham). De todos eles, o que teve contribuição mais significativa para a escola foi, sem dúvida, o italiano Vittorino da Feltre (1378-1446), fundador da "Casa Amena", um escola que chegou a ocupar um palácio inteiro na cidade de Mântua, a partir de 1428. Essa instituição representou a primeira organização escolar completa da nova cultura.

Na Casa Amena, Vittorino da Feltre pela primeira vez ensinou literatura, história e civilização antiga em vez das línguas, como então se fazia. A escola tinha como propósito tornar a vida dos alunos tão agradável e ativa quanto possível. Esportes e jogos alternavam-se com os estudos, cultivando-se a apreciação estética e as influ~encias morais e cristã. No currículo predomina o estudo da literatura.

Feltre tinha como finalidade da educação uma preparação direta para uma vida útil e equilibrada, na formação de uma cidadania baseada no conhecimento e na simpatia pelos melhores aspectos da vida grega e romana. A escola era autogovernada pelos alunos e o ensino subordinado aos interesses naturais dos estudantes. Na Casa Amena podemos perceber uma forte tendência para os aspectos construtivistas da educação, o que seria estudado e proclamado somente na segunda metade do século 20.

Renovação psicológica
Mas foi na primeita metade do século 19 que a sociedade humana conheceu uma escola modelo que haveria de abalar as estruturas educacionais da Europa, na esteira do Movimento Iluminista, em que livres pensadores, filósofos e cientistas franceses, ingleses e alemães derrubaram velhas estruturas e inauguraram, na educação, o que chamamos de tendência psicológica. Foi um período fértil marcado pela presença de personalidades famosas: Pestalozzi, Rousseau, Herbart, Froebel, Kant, Fichte, Hegel, Goethe, Dickens, Comte, Darwin, Combe entre outros.

Para a educação, e para a prática escolar, o destaque é Johan Heinrich Pestalozzi (1746-1827), um idealista suíço que realmente fez história, principalmente quando fundou o Instituto de Iverdon, que a partir de 1804 apresentoiu para a humanidade um novo conceito de educação e de escola. Para Pestalozzi a educação deve deve desenvolver o indivíduo harmonicamente nos aspectos mental, moral e físico; deve trabalhar as faculdades, sentimentos e aptidões dos indivíduos para que tenham uma participação útil e vitoriosa nos diversos caminhos da vida.

O Instituto de Iverdon funcionava num grande castelo, como um semi-internato, nunca fechando as portas. Alunos e professores gerenciavam a escola através de assembléias. As salas de aula eram verdadeiros laboratórios de cada matéria curricular, havendo salas para biologia, línguas, literatura, botânica, música, artes etc. Os esportes eram praticados ao ar livre, e toda experimentação era feita diretamente na natureza. O caráter afetivo do relacionamento entre professores e alunos fez com que o mestre ficasse conhecido como "Pai Pestalozzi".

O ensino priorizava a observação, iniciando sempre pelo mais simples e seguindo uma graduação de acordo com o desenvolvimento da criança, e durava o tempo necessário para assegurar o domínio completo dele pelo aluno. Não se procurava ministrar conhecimento e sim desenvolver a inteligência. No Instituto de Iverdum a educação tinha por base o amor.

Uma escola feita para as crianças
Pensando em atender as necessidades infantis na escolarização, uma médica e educadora italiana, também conhecida pelo seu ativismo feminista, refez a escola na primeira metade do século 20. Falamos de Maria Montessori (1870-1952), criadora da "Casa da Criança", que expandiu o conceito de jardim da infância, fundando a escola de educação infantil.

Montessori criou um método educacional próprio, conhecido como método montessoriano, com uma normatização consistindo em harmonizar a interação das forças corporais e espirituais da criança.

Os princípios fundamentais do sistema montessoriano são: a atividade, a individualidade e a liberdade. Enfatiza os aspectos biológicos, pois, considerando que a vida é desenvolvimento, considera que é função da educação favorecer esse desenvolvimento. Os estímulos externos formam o espírito da criança, precisando portanto, serem determinados. Assim, na sala de aula, a criança é livre para agir sobre os objetos sujeitos à sua ação, mas estes já estão preestabelecidos, como os conjuntos de jogos e outros materiais que Montessori desenvolveu.

Ela produz uma série de cinco grupos de materiais didáticos: Exercícios Para a Vida Cotidiana; Material Sensorial; Material de Linguagem; Material de Matemática e Material de Ciências

Na Casa da Criança, hoje conhecida como Escola Montessortiana, o aluno usa individualmente os materiais à medida de sua necessidade e por ser autocorretivo faz sua autoavaliação. Os professores são auxiliares de aprendizagem. No trabalho com esses materiais (que também pode ser feita em grupo) a concentração é um fator importante. As tarefas são precedidas por uma intensa preparação, e, quando terminam, a criança se solta, feliz com sua concentração, comunicando-se então com seus semelhantes, num processo de socialização. A livre escolha das atividades pela criança é outro aspecto fundamental para que exista a concentração e para que a atividade seja formadora e imaginativa. Essa escolha se realiza com ordem, disciplina e com um relativo silêncio. O silêncio também desempenha papel preponderante. A criança fala quando o trabalho assim o exige, a professora não precisa falar alto.

E surge uma escola nova, ativa e de trabalho
Escola Nova é um dos nomes dados a um movimento de renovação do ensino que foi especialmente forte na Europa, na América e no Brasil, na primeira metade do século 20. "Escola Ativa" ou "Escola Progressiva" ou "Escola do Trabalho" também designam esse movimento.

O grande nome do movimento na América foi o filósofo e pedagogo John Dewey (1859-1952). O psicólogo Edouard Claparède (1873-1940) e o educador Adolphe Ferrière (1879-1960), entre muitos outros, foram os expoentes na Europa.


Ferriere - Anísio Teixeira - Freinet - Claparede - Dewey

No Brasil, as idéias da Escola Nova foram introduzidas especialmente após a divulgação do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, de 1932. Podemos mencionar Lourenço Filho (1897-1970) e Anísio Teixeira (1900-1971), grandes humanistas e nomes importantes de nossa história pedagógica.

Um conceito essencial do movimento é que as escolas deviam deixar de ser meros locais de transmissão de conhecimentos e tornar-se pequenas comunidades.

O suíço Claparède - que teve grande influência sobre Piaget - defendia a idéia da escola "sob medida", mais preocupada em adaptar-se a cada criança do que em encaixar todas no mesmo molde. Ferrière e outros pedagogos, como o belga Decroly (1871-1932), insistiam que o interesse e as atividades dos alunos exerciam um grande papel na construção de uma "escola ativa". No trabalho de Ferrière como pedagogo, por exemplo, os passeios e o trabalho em equipe eram especialmente valorizados. Outro educador do movimento que merece destaque é Freinet (1896-1966) construtor de práticas pedagógicas alternativas para a sala de aula.

A Escola Nova tem um ideal de liberdade no ensino, respeito ao desenvolvimento da criança e do jovem, socialização através da atividade lúdica em grupo, colocando-se na contramão da chamada escola tradicional.

No Brasil, um centro integrado de educação
Já na segunda metade do século 20, mas com base nas ideias dos escolanovistas, um antropólogo e educador brasileiro renova a escola com a criação do CIEP (Centro Integrado de Educação Pública). É Darcy Ribeiro (1922-1997), profundo pesquisador, empreendedor e inovador, tendo sido um dos criadores da Universidade de Brasília.

Em 1982, como coordenador do programa Especial de Educação do Estado do Rio de Janeiro, planejou e implantou o CIEP (mais de trezentos). Em sua concepção original, o objetivo era proporcionar educação, esportes, assistência médica, alimentos e atividades culturais variadas, em instituições colocadas fora da rede educacional regular. Além disso, estas escolas deveriam obedecer a um projeto arquitetônico uniforme. A idéia do CIEP considerava que todas as unidades deveriam funcionar de acordo com um projeto pedagógico único e com uma organização escolar padronizada, para evitar a diferença de qualidade entre as escolas. Preconizava o ensino em tempo integral, funcionando em período letivo de oito horas.

O CIEP é um grande complexo escolar projetado por Oscar Niemeyer para adaptar-se ao plano pedagógico de Darcy Ribeiro. Os alunos entrariam na escola às 7 horas e só sairiam às 17 horas, depois das aulas curriculares, de atividades culturais e esportivas e visitas à biblioteca e a consultórios médicos. Na escola, fariam quatro refeições e só iriam para casa depois do banho.

Segundo Darcy Ribeiro "a concepção pedagógica que orienta a ação educativa dos CIEPs tem como norma central assegurar a cada criança um bom domínio da escrita, da leitura e da aritmética, como instrumentos fundamentais que são para atuar eficazmente dentro da civilização letrada. Dar especial atenção a esses elementos essenciais não significa desprezar outros, tão somente impedir que se desatente para eles em favor de matérias menos cruciais. Aliás, a maior parte das coisas que uma criança deve aprender na escola primária, inclusive suas atitudes básicas diante da sociedade, da família, de si próprias, se comunicam é através das aulas de linguagem. Uma preocupação muito presente no CIEP é a de integrar a cultura da escola com a cultura da comunidade, fazendo-as interagir fecundamente".

E agora, uma escola emocional
Propondo uma nova concepção de escola, fundamentada numa visão profunda da educação do ser, o educador Marcus De Mario (1955), defende a ideia da Escola do Sentimento, idealizada a partir de 1999.

Segundo ele, o professor deve, através da autoeducação, estimular-se a enobrecer e elevar seus pensamentos, única maneira de, com firmeza, desenvolver seu saber e seu caráter, tornando-se assim, pela força do hábito, um exemplo a ser seguido, exemplo esse que contagia os educandos, tornando seu trabalho muito mais útil e profundo, pois os educandos compreenderão, por se tratar de uma verdade espelhada pela conduta do professor, que os exercícios, as vivências, as práticas pedagógicas, enfim, que o ensino não é falso, mas verdadeiro.

Tendo por base a educação moral, proclama que o ensino deve: levar em consideração todas as aptidões em todas as circunstâncias e ser feito com simplicidade e amor, prudência e autoridade. Na Escola do Sentimento seguem-se os seguntes princípios de ensino: a instrução subordinada à formação do caráter; ensino suscitando e fortalecendo nobres sentimentos; e a educação promovida mediante relacionamento constante com o educando.

A Escola do Sentimento, em seu proceder da educação integral do ser, é vista de duas formas: como escola que propicia o estudo; e como escola que propicia o trabalho.

Entre os princípios para funcionamento da Escola do Sentimento, destacam-se: os alunos devem viver em liberdade; as portas devem estar sempre abertas; o horário é integral, com oito horas de aulas e atividades; as aulas devem ter uma hora de duração e troca de sala por parte dos alunos; as atividades e oficinas estão inclusas na grade curricular; dedicação ao trabalho livre; estabelecimento do educando colaborador; deve-se sempre ouvir os educandos e sensibilizá-los; o gerenciamento administrativo e pedagógico deve ser feito através de assembléias com a participação de todos; a escola do sentimento deve ter o caráter de uma reunião familiar.

Na Escola do Sentimento todos os esforços devem ser efetivados para trabalhar a educação moral do ser através do amor.

Conclusão
Novos rumos para a escola estão estudados, experimentados e idealizados. Por que ainda insistimos em velhos padrões e continuamos a desvincular a escola da educação, tornando-a apenas uma organização de ensino para adestramento a concursos e profissionalização para o mercado de trabalho?

Dizem que as perguntas movem o homem e a humanidade, e é importante perguntar, mas também entendemos que o encontro da resposta, ou respostas, é que consolida um novo homem e uma nova humanidade.

Escolha uma resposta, ou respostas na mescla dos novos rumos possíveis para a escola, e tenha, professor, a ousadia de romper com os padrões e renovar a escola, para que ela se torne efetivamente e eficazmente um instituto de educação do ser.

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Continue a leitura da Edição 77 da Revista ReConstruir.

 

 

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