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Olhar Crítico

Ano 9 - nº 75 - 15 de agosto de 2009

Por que a escola é assim?

da Redação

O trabalho escolar nos moldes em que hoje conhecemos e concebemos é fruto de uma paciente evolução no entendimento da educação, sofrendo diversas interrupções ao longo da história humana, haja vista que encontramos o primeiro sistema escolar na China milenária, onde existiam as escolas primárias e superiores. As primeiras se espalhavam pelas cidades maiores e as segundas habilitavam os que haveriam de trabalhar para o governo real, entretanto, o sistema era precário e a escola muitas vezes não passava de um local coberto com as crianças sentadas no chão e tendo um professor sem nenhum tipo de formação, numa cátedra baseada na exposição e exercícios de memorização.

No mundo ocidental as escolas tiveram sua implantação através dos gregos de duas formas distintas: as escolas do estado e as escolas livres ou particulares, cada uma com sua filosofia própria. E por falar em filosofia, quase todas as escolas particulares pertenceram a filósofos e livres pensadores, principalmente em Atenas, com uma curiosa particularidade: nem sempre existia o prédio escolar, pois muitos preferiam ministrar suas aulas ao ar livre. As escolas estatais da Antiga Grécia conheceram um sistema de ensino que influenciou em muito a organização escolar que depois foi sendo implantada no mundo.

Essas experiências estão recuadas no tempo e ficaram durante largo período da humanidade relegadas ao esquecimento, pois a educação foi primordialmente considerada questão de família e de exclusividade do domínio religioso. Entretanto, mosteiros, conventos e igrejas não podem ser considerados verdadeiramente como escolas, porque limitaram o ensino ao confessionalismo religioso, à catequese, com práticas que hoje consideramos absurdas.

Somente com Lutero (1483-1546) vamos ter uma retomada do ensino básico feito na escola, e com a abertura das universidades e instalação do ensino superior. Tudo ainda muito carregado de religiosismo, mas ensaiando a fixação do uso de escolas para promover o ensino.

A partir do século XVI começamos a encontrar atividades dignas de registro por parte de educadores, e é no século XVII que a escola começa realmente a ser discutida e vai pouco a pouco tomando formas mais definidas. A escola evolui na medida em que a compreensão do ato de educar se estabelece, e com o rompimento definitivo das amarras religiosas, ao final do século XVIII os sistemas escolares estatais começam a ser implantados na Inglaterra, na França, na Suíça e na Alemanha, surgindo o jardim da infância por obra do educador alemão Froebel (1782-1852).

A evolução é patente, mas a escola, como um todo, mantém um processo ensino-aprendizagem amarrado a velhas fórmulas e a criança ainda é um adulto em miniatura, e o professor o catedrático todo poderoso. Palmadas, reguadas, chicotadas, exercícios quilométricos e outros métodos violentos são comuns, e só tiveram a decretação de seu fim durante o século XX.

Nos últimos tempos uma preocupação com a didática vem levando a escola a conhecer projetos arquitetônicos, internos e externos, os mais variados, procurando-se um modelo que melhor atenda ao ensino, dentro de uma metodologia que priorize o educando e a utilização de recursos compatíveis com o ensino que se propõe.

Nova etapa na história da escola
A primeira metade do século XX marca o início de uma nova visão sobre a escola, a partir de educadores que formaram o chamado movimento da Escola Nova, propondo uma renovação no ensino. Na Europa destacam-se Edouard Claparede (1873-1940), Adolphe Ferriere (1879-1960), Celestin Freinet (1896-1966 ), Decroly (1871-1932) e Georg Kerschensteiner (1854-1932). Nos Estados Unidos destaca-se John Dewey (1859-1953), e no Brasil defendem as novas ideias Anísio Teixeira (1900-1971) e Lourenço Filho (1897-1970).

Um conceito essencial do movimento aparece especialmente em Dewey. Para ele, as escolas deviam deixar de ser meros locais de transmissão de conhecimentos e tornar-se pequenas comunidades.

O suíço Claparède defendia a idéia da escola "sob medida", mais preocupada em adaptar-se a cada criança do que em encaixar todas no mesmo molde. Ferrière e outros pedagogos, como o belga Decroly, insistiam que o interesse e as atividades dos alunos exerciam um grande papel na construção de uma "escola ativa". No trabalho de Ferrière como pedagogo, por exemplo, os passeios e o trabalho em equipe eram especialmente valorizados.

Destaca-se nesse movimento renovador, especialmente no Brasil, o Manifesto da Escola Nova, publicado em 1932 e assinado pelos principais educadores, pensadores e literatos brasileiros.

Infelizmente a força do movimento escolanovista não foi suficiente para romper o tradicionalismo no ensino. Todas as escolas montadas a partir das novas ideias foram consideradas experimentais, e o ensino público mostrou-se impermeável à sua influência, continuando a seguir os passos formatados pela Companhia de Jesus (1534-1773), obra dos padres jesuítas, que criaram o currículo, dividindo o conhecimento em disciplinas ou matérias, implantaram a sala de aula com turmas divididas por idade, e colocaram o professor num pedestal, não podendo ser questionado. As aulas seguiam rígida disciplina.

A escola de hoje
Na atualidade temos diversos tipos de escola e vários processos de ensino, mas o que predomina ainda é a chamada escola tradicional. Salas de aula com carteiras individuais enfileiradas umas atrás das outras formando corredores; alunos divididos em classes por idade; aulas com 50 minutos de duração; conhecimento separado por matérias. Alunos não entram na sala dos professores, pais têm acesso apenas até a secretaria.

Esse modelo de escola fere todas as pesquisas já realizadas sobre desenvolvimento psicogenético da criança e do jovem. Não leva em consideração os postulados modernos da didática. É uma escola antipedagógica, onde pouco se consegue ensinar e muitos não conseguem aprender.

Por que mantemos esse modelo de escola?

Uma boa resposta talvez seja porque é politicamente correto não ensinar bem. Isso mesmo. A educação sempre foi, no Brasil, considerada plataforma para discurso político, ela é boa para angariar votos, entretanto, é sempre deixada em segundo plano pelos governantes. Isso tem uma explicação lógica: eleitor alfabetizado, consciente, de pensamento crítico, participativo, não é bom, pois ele saberá discernir mais corretamente entre os candidatos, saberá exercer plenamente sua cidadania, saberá reinvindicar seus direitos. É melhor, portanto, manter as escolas na forma tradicional, e colocar como objetivos dessa escola a preparação para o vestibular, concursos públicos, provas nacionais de avaliação e inserção no mercado de trabalho.

Quando existe vontade política, considerando-se essa palavra como sinônima de ciência da administração pública, as escolas funcionam bem e o ensino é transformador. Não é a regra, mas, felizmente, existem exceções.

Não existe pesquisa científica ou pedagógica que explique porque mantemos a escola num modelo tradicional de origem religiosa secular, rígida, formatada num modelo que ninguém entende e há muito tempo questiona.

O fato é que, na entrada do terceiro milênio da humanidade pós Cristo, as reinvindicações para que tenhamos uma outra escola e outro ensino são incessantes. Quando os responsáveis pela educação vão ouvir esse clamor?

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Continue a leitura da Edição 75 da Revista ReConstruir.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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