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Olhar Crítico

Ano 8 - nº 73 - 15 de junho de 2009

Autoridade e autoritarismo

da Redação

"O professor perdeu a autoridade que tinha", avalia Yves de La Taille, docente do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo e autor de diversos livros sobre desenvolvimento moral. A partir dessa constatação, que não deixa de ser um desabafo, perguntamos: quando e porque o professor perdeu sua autoridade em sala de aula? Por que os alunos estão cada vez mais desafiadores, desobedientes?

Uma análise da educação de tempos passados pode responder essas perguntas. Até pouco mais da metade do século vinte, a obediência era imposta. Os filhos deviam obedecer os pais, os alunos os professores. A criança não tinha o direito de questionar a autoridade e as regras formuladas pelos adultos, e quando isso acontecia os castigos eram severos.

A repressão sufoca, o autoritarismo não dá espaço, mas essas duas práticas não resolvem os conflitos, apenas abafam e, com o tempo, uma espécie de bola de neve represada tende a fazer cada vez mais pressão, até romper com os diques de uma família - e de uma escola - que não representa os anseios do mundo infantil e juvenil. Foi o que aconteceu com a entrada na sociedade das filosofias existencialistas de cunho libertário, após a segunda grande guerra mundial.

Flávia Schilling, professora da Feusp (Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo), observa: "Alunos que depredam a escola estão dando um recado para a própria escola, mas também um recado para a sociedade. Eles sinalizam que a instituição não faz sentido para suas vidas, mas podem também sinalizar que não encontram saídas para uma sociedade fraturada entre aqueles que possuem muito e aqueles que não possuem quase nada, em termos de riqueza e de oportunidades".

De fato, como querer que alunos se comportem civilizadamente numa escola de tempo integral que não oferta atividades? A revolta acaba transformando-se em intervenção policial e noticiário na mídia, mas parece que a sociedade está contaminada pelo vírus da indiferença, ou pela bactéria do comodismo, e em alguns dias tudo fica no esquecimento. E os alunos, com seus atos de rebeldia e agressão, sinalizam que não gostam da escola, que a vida está do lado de fora, e que não há motivação para para continuar lá dentro.

Se a escola perde seu colorido, seu atrativo, e os professores apelam para o autoritarismo, a indisciplina é apenas uma manifestação ostensiva de quem está revoltado com a situação.

O educador francês Gérard Guillot fala em autoridade que constrói, em oposição a uma autoridade que destrói. Essa autoridade que constrói permite à criança ou ao jovem sentir, pensar e existir por si mesmo, mas não se confunde com permissividade. Segundo ele, "respeitar a pessoa é respeitar a condição humana". Esse respeito falta ao autoritarismo, à escola que não corresponde aos anseios da juventude, à família que não concede espaço para o diálogo.

Reconquistando a autoridade

Perdida a autoridade, o que se faz? Deve-se reconquistá-la! Para isso exige-se mudança de mentalidade e postura. A começar reconhecendo que o aluno é um ser humano com inteligência e afetividade. Merece respeito e amizade. E que aula com calor humano é muito melhor.

Expulsar o aluno não é também uma violência? E violência pode resolver outra violência?

Certa vez, uma coordenadora pedagógica atendeu o professor que trazia três alunas adolescentes para um "castigo", pois tinham se agredido em sala de aula. Ela olhou para as três, reconheceu uma que já havia dado vários "problemas" de indisciplina e falou: "Sabia que você tinha que estar nisso!". Dispensou as outras duas alunas e enviou a "problemática" para a sala de leitura, como castigo, devendo lá ficar por três horas consecutivas. Na sua concepção, livros e leituras são um tormento, e não instrumentos para imaginar, sonhar e criar.

Todo professor sabe que, durante sua formação, o que mais se houve como conselho dos professores mais experientes é que "não se pode perder o controle da turma", "não se pode dar confiança aos alunos, senão eles abusam", "para mantê-los quietos em sala pratique as faltas disciplinares". E não são apenas conselhos, são ensinos transmitidos em muitas Faculdades de Pedagogia. Isso precisa mudar.

O professor deve se trabalhar afetivamente. Deve se reconhecer no outro. Numa palavra: o professor deve realizar todos os esforços para, como ser humano renovado e crente no potencial de seus alunos, obter gradualmente a autoridade moral de quem acredita na educação e ama o que faz.

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Continue a leitura da Edição 73 da Revista ReConstruir.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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