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Olhar Crítico Ano 8 - nº 72 - 15 de maio de 2009 Afinal, o que é educação de qualidade? da Redação
Está no cotidiano do ensino brasileiro: precisamos alcançar uma educação de qualidade! Mas, o que é isso? Se não temos educação de qualidade, que educação temos? Nossa equipe resolveu fazer um diagnóstico do quadro atual da educação brasileira, conforme dados apresentados pelas pesquisas realizadas por institutos de confiança, entre eles o INEP - Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Anísio Teixeira, do Ministério da Educação. É com essa realidade que procuramos discutir os verdadeiros fundamentos da educação e os caminhos para alcançar essa tão falada, e sonhada, educação de qualidade. Diagnóstico Temos 162 mil escolas de ensino fundamental - Entretanto, por todo este Brasil, 25 mil não tem luz elétrica (e não podem ter aula noturna, não podem ter qualquer tipo de equipamento que dependa da energia elétrica para funcionar); 129 mil não tem acesso a internet (é a exclusão digital de professores e alunos); 10 mil não tem banheiro (parece inacreditável, mas é a pura verdade). O professor brasileiro possui, em média, 11,4 anos de estudo - É um dos menores índices da América Latina. 4,3% do PIB vai para a educação - Mas o ideal é que o governo destine 7% do Produto Interno Bruto em educação. Evasão/Repetência - De cada 100 alunos matriculados na 1ª série do ensino fundamental, 47 concluem a 8ª série, 14 terminam o ensino médio e 11 conseguem entrar no ensino superior. Baixo nível de aprendizagem - 61% dos alunos da 4% série do ensino fundamental não conseguem identificar as principais idéias de um texto simples, e 60% dos alunos da 8ª série não sabem interpretar um texto dissertativo. Em matemática, 65% dos alunos da 4ª série não dominam as quatro operações, e 60% dos alunos da 8ª série não sabem porcentagem. Estes são alguns dados relevantes para termos um diagnóstico da educação brasileira, os quais mostram a clara necessidade de urgentes medidas para melhoria do ensino. E estamos nos referindo à educação básica - que engloba o ensino infantil, fundamental e médio. Ainda temos as questões ligadas às deficiências na capacitação do professorado, aos baixos salários, à falta de plano de carreira no magistério, e tantas outras questões de importância que refletem nos índices revelados pelas pesquisas. Fundamentos Quando se fala em processo de formação integral, segundo os especialistas, entende-se que a educação - que deve ser promovida em íntima união pela família e pela escola - vai estimular o desenvolvimento de todas as potencialidades do ser em crescimento, ou seja, vai trabalhar tanto o saber quanto o emocional. Não irá priorizar esta ou aquela área, mas sim equilibrar a aquisição dos conhecimentos com a formação do caráter do educando. E quando se fala em ser integral, o entendimento é que o educando é uma pessoa dotada de potencialidades intelectuais, emocionais e espirituais formando um conjunto que não pode ser desprezado ou dividido. Todos homem, portanto, é um ser bio-sócio-psico-espiritual formando um todo indissociável. A educação vista apenas como escolarização acarreta grande prejuízo à formação do ser. É neste ponto que deve iniciar a educação de qualidade, mudando o atual entendimento sobre o significado profundo da educação, que vai além do conteúdo curricular e do diploma. A verdade é que nunca teremos verdadeira qualidade na educação enquanto acreditarmos que para isso bastam prédios, equipamentos, professores e atividades culturais-esportivas, como se esses procedimentos pudessem formar o cidadão de amanhã, resolvendo todos os problemas individuais e coletivos que hoje enfrentamos. A escola é importante e todos os esforços para sua melhoria são muito bem-vindos, mas se ela continuar a não ensinar o essencial, de nada adiantarão esses esforços. Pois que tudo é ensinado, menos a ética, a honestidade, a dignidade de viver, a cooperação, a visão profunda do significado da vida. Temos assistido geração após geração enredada em princípios individuais e imediatos de viver, sem nenhuma perspectiva quanto ao futuro, pois vive-se o aqui e agora de forma egoísta, gerando violência, injustiça, desequilíbrio ambiental, corrupção, capitalismo selvagem. Para renovarmos os valores e ideais que norteiam a educação, e assim conseguirmos a educação de qualidade de nossas crianças e jovens, entende o Instituto Brasileiro de Educação Moral (IBEM) que devemos colocar em ação a educação moral, tanto na família como na escola, pois somente trabalhando a formação do caráter através do amor, dando aos jovens fé em si mesmos e na vida, teremos um futuro melhor. Alfabetização, profissionalização, especialização fazem parte da educação, que é um processo de formação do ser que leva tempo e requer sensibilidade e paciência, mas não são a educação. Educar é muito mais do que ensinar e não se resume nos procedimentos escolares de variados níveis, tanto que, se assim fosse, nossa educação teria qualidade muito boa há bastante tempo, o que não é verdade.
Valores Perguntas frequentes, somadas a outras perguntas, suscitando um universo de teorias e debates. Para termos educação de qualidade basta combater a evasão, a repetência, remunerar melhor os professores, equipar as escolas, renovar conteúdos curriculares, ensinar para aquisição de competências? Não. Porque podemos fazer tudo isso e continuar com uma educação não renovadora do homem e da sociedade. Quase ninguém cogita de espiritualizar a educação. Pouco se fala de valores morais no ato de ensinar. Relega-se a formação do caráter do educando para a família, mas poucos serviços de apoio e orientação aos pais são oferecidos pelas instituições educacionais. O mito da educação de qualidade tendo como espelho o sistema de ensino dos países desenvolvidos está quebrando. A revolta dos subúrbios de Paris no ano 2005 mostrou a realidade. A cidade-luz da Europa, cantada em verso e prosa, mostrou sua realidade: existem subúrbios, neles existem guetos, onde moram imigrantes pobres e excluídos pela discriminação racial e social. Um muçulmano de cor morena não tem acesso aos melhores empregos. Contudo, o sistema educacional francês, como de outros países desenvolvidos, sempre foi visto como modelo de qualidade. O erro está em que nunca avaliamos os valores que norteiam esse sistema educacional. Que pode ser muito bom em sua organização, em seus equipamentos pedagógicos, em seus espaços físicos, na capacitação técnica de seus professores e, claro, nos seus resultados quantitativos. Mas, agora, com um misto de terror, observamos que é preconceituoso, excludente, conservador. A grande questão é termos um sistema educacional com resultados qualitativos, e isso só pode ocorrer se colocarmos na pauta das prioridades a discussão dos valores de vida que regem nossa educação, tanto na escola quanto na família. Caminhos O primeiro caminho é a interação/integração que deve existir entre gestores, professores, apoiadores, pais e alunos. Enquanto a escola não estiver inserida no contexto comunitário, e a comunidade não sentir a escola como instituição que lhe pertence, teremos problemas para implantar uma educação de qualidade. A gestão escolar, assim como a coordenação pedagógica, deve permitir a entrada e interação dos pais e responsáveis, participando ativamente do dia a dia da escola. Para isso assmbléias periódicas devem ser feitas, inclusive com a presença dos alunos, onde todos debaterão a escola e a educação, comprometendo-se com as ações pedagógicas, comportamentos, atividades de ensino e tudo o mais. O segundo caminho é a capacitação continuada dos professores e demais profissionais escolares. Mas não somente capacitação técnico-pedagógica, e sim a capacitação humana, ou seja, realização de cursos, oficinas, seminários, palestras que visem sensibilizar, despertar e conscientizar os educadores quanto a si mesmos, seus potenciais, sua espiritualidade e sua visão e postura com relação à educação, aos pais e aos educandos. Despertar o amor nos corações, para que o amor possa ser o regente da ação educacional. O terceiro caminho é abrir espaços generosos para re-educação dos pais e re-valorização da família, ao mesmo tempo em que os jovens são preparados para essas duas condições sociais: ser pai ou mãe e formar um lar. Utilizando as dependências físicas da escola, principalmente aos sábados. quando aqueles pais e responsáveis que trabalham podem comparecer, desenvolver debates, palestras, oficinas, festas confraternativas, com o objetivo de reforçar a família como instituição educativa. Um quarto caminho, fundamental, talvez imprescindível, é implantar a educação moral. Ela siginifica formar o caráter, potencializar virtudes, sensibilizar sentimentos, direcionar a inteligência para construir o bem e desenvolver o homem integral, tanto de educadores quanto de educandos. Para isso precisamos ter visão holística, integral, do homem.
Entre os diversos educadores que têm trabalhado sobre a educação de qualidade, podemos destacar Jean Piaget, que em seu livro "Para Onde Vai a Educação?", trabalho elaborado a pedido da Unesco, declara:: "O direito à educação intelectual e moral implica algo mais que um direito a adquirir conhecimentos, ou escutar, e algo mais que uma obrigação a cumprir: trata-se de um direito a forjar determinados instrumentos espirituais, mais preciosos que quaisquer outros, e cuja construção requer uma ambiência social específica, constituída não apenas de submissão. A educação é, por conseguinte, não apenas uma formação, mas uma condição formadora necessária ao próprio desenvolvimento natural". Com esse enunciado passamos a compreender que para forjar instrumentos espirituais no ser, somente a educação moral. Ela representa em plenitude a educação de qualidade. Esse pensar não é apenas contemporâneo. Já no século dezoito o educador Johan Heinrich Pestalozzi, o primeiro a estabelecer a teoria e a prática da educação moral, como podemos perceber em seu depoimento na famosa "Carta de Stans", afirmava: "Aos meus olhos, ensino escolar que não abranja todo o Espírito, como exige a educação do homem, e que não seja construído sobre a totalidade viva das relações familiares conduz apenas a um método artificial de encolhimento de nossa espécie". E podemos perguntar: afinal, por que ainda não temos educação de qualidade? .................................... Continue a leitura da Edição 72 da Revista ReConstruir.
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