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Olhar Crítico

Ano 8 - nº 67 - 15 de outubro de 2008

O ensino na emergência

da Redação

Há muito tempo sobram queixas sobre o ensino brasileiro, e nos últimos anos, com o aprimoramento das pesquisas, essas queixas se desdobraram num quadro assustador de índices e estatísticas preocupantes. Com base em dados oficiais divulgados pelo governo brasileiro e por organizações internacionais nos anos 2007/2008, portanto bem recentes, ReConstruir montou um quadro real sobre o ensino brasileiro, destacando dez pontos essenciais.

Você vai acompanhar agora esses dez pontos e saber a opinião de diversos especialistas.

1. O menor nível de aprendizado
Entre 57 países membros da OCDE - Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, o Brasil está muito mal no quesito educação. Periodicamente a OCDE realiza o PISA, sigla em inglês que significa Programa Internacional de Avaliação de Alunos. O resultado do exame realizado em 2007 colocou os alunos brasileiros em 52º lugas em ciências, 53º em matemática e 48º em leitura. E ainda demonstrou que os estudantes brasileiros atingem, no máximo, o menor índice de aprendizado nas disciplinas.

"Se o professor vê o aluno errar sem entender o percurso que está trilhando, o trabalho não funciona" (Gérard Vergnaud, do Centro Nacional de Pesquisas Científicas da França).

"Não se resolvem na escola todos os problemas do mundo, mas sem ela não resolveremos nenhum" (Luís Carlos de Menezes, físico e educador da Universidade de São Paulo).

2. Pouco dinheiro
Os investimentos em educação no Brasil estão longe de 6% do Produto Interno Bruto (PIB), que é toda riqueza produzida pela nação. Nos países desenvolvidos 6% é a média de recursos financeiros destinados à educação, tendo países que ultrapassam com folga essa média. Países emergentes que nos últimos anos aumentaram a percentagem de recursos do PIB para a educação, deram um salto sócio-econômico enorme, resolvendo assim diversos problemas que arrastavam há décadas.

"Os municípios, os estados e a união precisam trabalhar juntos. As dimensões são distintas, mas os problemas comuns" (Cleuza Repulho, consultora da Unesco).

"As ações são de longo prazo, mas acredito que a única solução é mesmo investir em todas as áreas da educação" (Alberto Carlos Almeida, sociólogo).

3. Analfabetismo funcional
Segundo o INAF - Indicador Nacional de Alfabetismo Funcional, 32% da população de 15 a 64 anos é analfabeta funcional, ou seja, sabe ler e escrever, mas não tem habilidade de leitura, de escrita e de cálculo. Basta encarar um texto mais longo e o analfabeto funcional não consegue ter entendimento sobre o mesmo, ou seja, não consegue compreender o sentido do texto nem interpretá-lo.

"A escola não deve correr atrás da última moda. Deve ter uma idéia estratégica das questões de fundo que importam para a educação" (Roberto Carneiro, educador, ex-ministro da educação de Portugal e presidente do Centro de Estudos dos Povos e Culturas de Expressão Portuguesa).

"É fundamental que o estudante adquira uma compreensão e uma percepção nítida dos valores. Tem de aprender a ter um sentido bem definido do belo e do moralmente bom" (Albert Einstein).

4. Anafalbetismo e escolaridade
Aqui o resultado do INAF é mais assustador: 7% da população não saber ler nem escrever, e 12% das pessoas que terminaram a 4ª série do ensino fundamental são analfabetos absolutos. Não saber ler nem escrever para quem nunca frequentou a escola, é admissível, mas esquentar os bancos escolares durante quatro anos e sair da escola sem saber ler ou escrever é um absurdo. Como essas crianças passaram de ano?

"Uma coisa que está se consolidando aos poucos é que a educação não pode ser uma política de governo, tem de ser de Estado" (Simon Schwartsman, sociólogo, do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade).

"Mestrado é só para o sujeioto mostrar que é alfabetizado, pois metade dos que estão na universidade não sabe ler" (Darcy Ribeiro).

5. Queda nas matrículas
O Censo Escolar 2007, divulgado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), órgão do MEC - Ministério da Educação, mostra que as matrículas da educação infantil até a educação profissional diminuíram, em média, 7,72%. Para onde foram as crianças e jovens?

"O importante da educação é o conhecimento não dos fatos mas dos valores" (Dean William R. Inge).

"A criatividade de uma nação está ligada à capacidade de pensar e teorizar, o que requer uma boa educação e, daí, partir para o inventar e, depois, ir até as últimas conseqüências no fazer" (Cláudio de Moura Castro).

6. Tempo de estudo
De 18 países na América Latina, os jovens brasileiros estão entre os que menos estudam - 8,5 anos ao longo de toda a vida. É o que mostra o relatório Juventude Mundial 2007, da ONU - Organização das Nações Unidas.

"È preciso ligar a aprendizagem a um processo que capacite a pessoa a olhar sua vida e identificar coisas que queira mudar" (David Archer, mestre em educação pela Universidade de Oxford).

"Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela, tampouco, a sociedade muda" (Paulo Freire).

7. Gestão escolar e problemas
60% dos gestores da rede privada, 67% da rede municipal e 81% da rede estadual reclamam de falta de recursos financeiros. A falta de recursos pedagógicos na escola é reclamada por 67% dos diretores da rede estadual e 56% da rede municipal. Os dados fazem parte de pesquisa feita pelo Inep - Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais.

"Educação nunca foi despesa. Sempre foi investimento com retorno garantido" (Arthur Lewis).

"Se você acha que a educação é cara, tenha a coragem de experimentar a ignorância" (Derek Bok).

8. Sem escola
Segundo o IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, ainda existem 14 milhões de pessoas de 0 a 17 anos excluídos do sistema escolar brasileiro. A conclusão tem por base a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad).

"O importante da educação não é apenas formar um mercado de trabalho, mas formar uma nação, com gente capaz de pensar" (José Arthur Giannotti).

"Democracia com fome, sem educação e saúde para a maioria, é uma concha vazia" (Nelson Mandela).

9. Insatisfação
83% dos professores do ensino primário brasileiro estão insatisfeitos com seus salários, e 29% dos professores trabalham em mais de uma escola, maior índice entre os 11 países em desenvolvimento analisados pela Unesco - Organização das Nacões Unidas para a Educação,Ciência e Cultura.

"Em todo o PDE - Plano de Desenvolvimento da Educação, não há nada decisivo que fale de carreira, fixação do professor na escola e tempo integral. Há apenas alusão" (Paulo Ghiraldelli Jr, professor de filosofia da educação e consultor da Organização dos Estados Ibero-Americanos).

"Um professor influi para a eternidade; nunca se pode dizer até onde vai a sua influência" (Henry B. Adams).

10. Metodologia mecânica
Estudo do Instituto de Estatística da Unesco revela que o Brasil é líder na utilização de métodos mecânicos no primeiro segmento do ensino fundamental: 91,6% dos alunos copiam conteúdos do quadro-negro; 64,2% dos professores recitam tabelas e fórmulas e 63,8% das classes repetem sentenças.

"A dimensão moral da criança tem de ser trabalhada desde a pré-escola. Ética se aprende, não é uma coisa espontânea" (Yves de La Taille, do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo).

"O principal objetivo da educação é criar pessoas capazes de fazer coisas novas e não simplesmente repetir o que as outras gerações fizeram" (Jean Piaget).

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Continue a leitura da Edição 67 da Revista ReConstruir.

 

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