Ano 11 - nº 89 - Fevereiro de 2012 - A revista do educador
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Kate Portela
Feiurinha

Você já teve a oportunidade de ler a obra “O fantástico mistério de Feiurinha”, do escritor Pedro Bandeira?

Trata-se de uma retomada da narrativa do Patinho Feio, que dialoga com vários contos de fadas, como Chapeuzinho Vermelho, a Bela e a Fera, Cinderela, Rapunzel, Branca de Neve, a Bela Adormecida...

Este livro se constitui em um poderoso aliado do professor a fim de tratar de vários temas, sobretudo as relações entre oralidade e escrita.

O livro de Pedro Bandeira se inicia com o relato de um escritor que era “iniciante” e tinha muitas “ideias na cabeça e poucas no papel” (p. 9). Há, logo no começo, um cruzamento entre a sua história e a das heroínas dos contos de fadas, o que acarreta a inserção do escritor nessas narrativas infantis.

O engraçado é que eu me meti no meio da confusão, mas não no meio de história nenhuma. Eu me meti no fim de todas as histórias.” P. 9

O que o autor tenciona contar é exatamente o que acontece depois do fim dos contos de fadas. Tanto é assim que ele questiona a maneira pela qual terminam essas narrativas. Ele indaga o que significa “ser feliz para sempre” e se propõe a relatar a continuação dessas histórias.

Já não seria um bom trabalho para o professor questionar dos alunos o que seria esse “ser feliz para sempre”? Certamente, haveria um material rico para o debate acerca das noções de felicidade que povoam o universo infantil e juvenil.

Na obra de Pedro Bandeira, o primeiro contato que o escritor tem com o mundo dos contos de fadas ocorre por meio da visita de Caio, um personagem que o procura a pedido das heroínas dos contos de fadas, sobretudo Branca de Neve. A partir desse ponto, o escritor se propõe a escrever a história de Feiurinha.

De início, o próprio escritor duvida dos fatos contados por Caio, como se pode depreender da leitura do trecho abaixo:

Caio, o lacaio, contou mais. Contou que as princesas tinham discutido um tempão e que, no fim, tinham mandado todos os lacaios, inclusive ele, à procura da Feiurinha desaparecida” (p. 38).

A missão do escritor passa a ser ajudar as heroínas a encontrarem Feiurinha, a fim de escrever a sua história, sob pena de as demais princesas dos contos de fadas desaparecerem.

Jerusa, a empregada do escritor, acaba narrando a história de Feiurinha, que foi registrada pelo escritor. O mistério de Feiurinha é esclarecido, afinal:

Estava desvendado o mistério. Feiurinha desaparecera porque ninguém havia escrito sua história, porque suas aventuras não se eternizavam através dos séculos nas risadas e nas emoções das crianças” P. 59

O escritor finalmente cumpre a sua missão após ter ouvido Jerusa e ter entrado em contato direto com as personagens dos contos de fadas.

Agora já posso escrever a história da Feiurinha. Agora, quem sabe, poderei fazê-la reaparecer. Quantas histórias lindas, inventadas e contadas ao pé do fogo em noites de inverno por vovós imaginosas, perderam-se, foram esquecidas, por falta de quem as escrevesse?” P. 60

A relevância da palavra escrita para se registrarem as histórias oriundas da tradição oral fica patente com base na leitura da obra de Pedro Bandeira.

O professor pode pedir aos alunos um trabalho de pesquisa baseado em histórias ouvidas em sua comunidade e eles ficariam responsáveis por registrá-las.

Além disso, o mestre pode, igualmente, trabalhar com contos coletados por Câmara Cascudo, a fim de enriquecer as discussões acerca da oralidade e da escrita e de dar aos alunos subsídios para mergulharem no imaginário coletivo da tradição oral.

E então, você conseguiu desvendar “O fantástico mistério de Feiurinha”?

Kate Lúcia Portela é professora Doutora em Língua Portuguesa, escritora e contadora de histórias.

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