Ano 11 - nº 88 - Janeiro de 2012 - A revista do educador
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Literando
Kate Portela
Era outra vez

Contar histórias é uma arte cada vez mais incentivada nas escolas, hospitais, templos religiosos, livrarias...

O boom dessa atividade no mundo moderno se deve muito à atual tendência de valorização da leitura e do singelo olho no olho, que aproxima as pessoas. Estudiosos afirmam que se trata de uma reação ao ritmo frenético do mundo atual, em que o contato entre as pessoas escasseou.

Deste modo, o ressurgimento da contação de histórias está ligado ao contexto do culto à tecnologia, ao imediatismo, ao superficialismo, bem como à tendência às relações humanas descartáveis. Isso porque a narração de histórias é um maravilhoso convite ao ouvir, ao escutar o outro e à consequente socialização das pessoas.

Pesquisadores como Regina Machado (2004) vêm enumerando os benefícios da prática de narração de histórias, como a possibilidade de “virar o olho”, de braços dados com a imaginação e fantasia.

De fato, essa atividade, além de contribuir eficazmente para a formação de leitores, nos proporciona (a) o contato com a diversidade cultural e étnica, (b) a valorização da literatura e tradição oral, (c) a manutenção da memória e identidade de uma sociedade, (d) o enriquecimento das experiências infantis por meio de uma pedagogia do imaginário, (e) o encantamento e a sensibilização dos ouvintes, (f) o alimento da alma, (g) o resgate de significados para a nossa existência, (h) a troca de afetividade, (i) a ampliação da capacidade de escuta e reflexão, (j) o desenvolvimento da criatividade.

Há também ganhos mais específicos, como a ampliação do vocabulário, o contato com o esquema narrativo das histórias, a valorização da língua portuguesa em sua modalidade escrita e em sua modalidade oral.

A contação de histórias não deve ter cara de aula. Segundo Fanny Abramovich (1995) ela é o ponto de partida para o desenhar, o musicar, o teatralizar, o brincar, o inventar, pois tudo pode nascer de um texto.

Na escola, as crianças fazem dobraduras, fantoches, mosaicos, colagens, desenhos...

Sempre relacionados à história.

Com os contos, as crianças criam o seu próprio repertório moral e se enriquecem com a ginástica imaginativa.

A contação de histórias é, por vezes, o Livro Vivo!...

Brincar e se envolver com a contação de histórias representa um treino para a criança aprender a lidar com a realidade. As histórias não são uma fuga, são um ensaio.

Atualmente, os contadores de histórias são valorizados e requisitados, por conta do calor humano e da afetividade que evocam e que a tecnologia não nos proporciona.

Os contos apresentam um caráter terapêutico, pois encantam e curam.

Simplesmente, salvam sonhos!

Contar histórias é um ato de amor literário.

Entrou por uma porta, saiu pela outra, quem quiser que conte outra!...

Kate Lúcia Portela é professora Doutora em Língua Portuguesa, escritora e contadora de histórias.



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