Ano 10 - nº 86 - Maio de 2011 - A revista do educador
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Família
Bruno Zaminsky
Era uma vez o diálogo


Na sala, um computador e uma televisão. A mesma coisa em cada quarto. Para os pequenos, vídeogame. Para os maiores, internet. E uma sala transformada em escritório. Horários díspares, poucos encontros, convivência superficial. As conversas são para acertar as finanças, detalhes da casa, providências gerais e resolver este e aquele problema. Vida corrida, atribulações profissionais, compromissos sociais, essas coisas que preenchem o tempo das pessoas que formam a família. Esse é o retrato de muitas famílias de meus alunos na universidade, e também de meus colegas professores. Quando indago da questão do diálogo no lar, encontro um deserto. Não me espanto. Nos corredores e salas da universidade não é muito diferente. Todos correm contra o tempo, estão chafurdados em estudos, provas, seminários, trabalhos de conclusão de curso, teses e, também, o que vão fazer depois das aulas: baladas, shopping, compras, almoçar, jantar ou, simplesmente, chegar em casa e ... descansar.

Sinto que perdemos o sentido da vida. Não é somente uma questão de estarmos perdidos quanto ao rumo que vamos dar á nossa vida, é mais que isso, é não saber porque vivemos, e porque vivemos com os outros.

Insisto na questão do diálogo e ouço respostas do tipo:

"Sei lá, não somos muito de conversar".
"E sobra tempo para isso?"
"Difícil, lá em casa é difícil".
"Olha, até tento, mas com meus filhos é difícil ter diálogo"
"Conversar com meus pais? É mais fácil conversar com um ET".
"A gente mal se vê, quanto mais conversar".

Até que provem o contrário, família é local privilegiado para conviver e dialogar, para construir boas relações, superar desavenças, cultivar afetividade. Como pode ser desenvolvido o priocesso educacional de pais para filhos, sem diálogo?

Uma imagem bem simpática do diálogo é uma rua de mão dupla, onde os veículos trafegam para lá e para cá, sem colisão, respeitando a sinalização e as regras de trânsito. Transcrevendo para o diálogo, temos: você fala daí, eu escuto daqui; agora eu falo daqui, você me escuta daí. Sempre em tom normal, sem exasperação, sem levantar a voz, sem imposição, obedecendo as boas regras da educação com o objetivo de encontrar o senso comum e solidificar o relacionamento.

E vou lembrar: o que é difícil não é impossível.

Arurme tempo para dialogar. Se pai ou mãe, entre si e com os filhos. Se filho, com os irmãos e pais. A convivência vai melhorar muito. E a família vai deixar de ser fria, o lar não será mais um local de indiferenças. E não esqueça de transpor essa nova realidade vivencial para a escola, pois onde se privilegia a educação, o diálogo é fundamental.

Bruno Zaminsky é doutor em educação, professor universitário e consultor educacional.
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