Ano 11 - nº 89 - Fevereiro de 2012 - A revista do educador
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Experiências Que Dão Certo
Da Redação
Escola da Ponte: esta escola faz a diferença



O Professor José Pacheco, da Escola da Ponte, localizada na Vila das Aves, em Porto, Portugal, defende que é indispensável alterar a organização das escolas e questionar as práticas educativas tradicionais. Para ele, é urgente interferir humanamente no íntimo das comunidades humanas, questionar convicções e, fraternalmente, desassossegar os acomodados.

Na Escola da Ponte as crianças decidem o que e com quem estudar. Em vez de tempo determinado para cada aula e turmas, há grupos de estudo, independente da idade, o que as une é a vontade de estar juntas e de juntas aprender. Novos grupos surgem a cada projeto ou tema de estudo, sempre formados pelos próprios alunos organizados entre si.

E tudo que tem a ver com a escola é decidido pelas crianças nas assembleias semanais, presididas por uma diretoria eleita pelas e entre as próprias crianças. Na escola, vive-se a democracia plenamente e aprende-se cidadania. Além de aprender os conteúdos em seu próprio ritmo, as crianças são livres, tem direitos e deveres, todos decididos e registrados em conjunto.

Professores estão a disposição de todos
Pacheco explica que na Escola da Ponte, os alunos aprendem todo o conteúdo curricular ensinado na totalidade das escolas portuguesas. A diferença é que isso é feito respeitando-se o ritmo de aprendizagem de cada aluno.

Não há turmas, nem aula expositiva do professor, também não há sala de aula e nem paredes para separar um grupo de alunos do outro. Os grupos são formados por afinidades e interesse de aprendizagem pelos próprios alunos. São os alunos que decidem o que e com quem estudar. E os professores estão lá, atentos e disponíveis para todos os alunos.

Quando um aluno não consegue respostas para um determinado trabalho, escreve no Preciso de Ajuda e aguarda até que um professor o procure. Mas antes de dar a resposta, o professor pergunta todos os passos dados até não conseguir as respostas que precisava para alcançar os objetivos do trabalho.

As dúvidas e perguntas sem resposta na pesquisa em fontes diversas e na interação com os colegas, poderão ser desvendadas no encontro do grupo com um professor - a chamada "aula direta". Trata-se de um encontro do pequeno grupo com o professor, quando os alunos o solicitam.

Os professores só poderão dar respostas se os alunos lhes dirigirem perguntas. Só participa do encontro quem deseja e externa este desejo.

Pacheco acredita que qualquer escola pode fazer a mesma coisa. Para tanto, basta a equipe optar por alterar, transformar a prática, fundamentando teoricamente estas ações.

"Qualquer escola pode fazer o mesmo, ou até melhor, mas é importante que a equipe queira, porque é um trabalho que precisa ser coletivo, trata-se de construir um projeto de escola e cidade educativa", explica.

É, portanto, um trabalho de equipe que faz o professor superar o desgaste e ajuda a ultrapassar os obstáculos. O simples fato de não estar sozinho numa sala, ter uma perspectiva de toda a escola e não só daquele grupo controlado por si, ajuda o professor a não encarar tudo com aquela frieza resultado da solidão vivenciada em sala única.

"Os professores da Escola da Ponte fazem tudo com mais vontade, dão mais de si, pois sentem-se parte de uma equipe, uma 'família'. E em família, as pessoas sentem-se amadas e há a inter-ajuda", completa.

O professor não faz, porque impediria o aluno de aprender
Os alunos da Escola da Ponte conhecem a grade curricular da primeira a nona série, sem divisão, sem segmentação e constroem o currículo subjetivo, não aprendem sozinhos, os mais adiantados no conteúdo, ensinam os que ainda sabem pouco e os professores são mediadores.

Os conteúdos são estudados em níveis de trabalho. Fala-se em vezes, primeira, segunda, terceira e quarta vez. Há três níveis de trabalho, a iniciação, a transição e o desenvolvimento. A passagem de um nível para outro segue o ritmo com que cada criança adquire as ferramentas necessárias para passar de nível.

A escola segue a filosofia do português Agostinho da Silva, quando defende que "os grupos devem constituir-se à vontade dos alunos, para que haja coesão e entusiasmo pelo trabalho, alegria criadora de quem se sente a construir um universo e todos vamos ter que ser professores de todos e cada um dos que sabem um pouco mais ensinará os que sabem um pouco menos".

Somente na primeira fase - denominada de "iniciação" - as crianças convivem e aprendem nos mesmos espaços, mas sem levar em conta a faixa etária. A partir do momento em que conhecem os mecanismos da escola, passam a formar grupos pela vontade de estar no mesmo grupo, por critérios afetivos.

"É assim, nós professores, não fazemos, porque se fizermos impedimos o aluno de fazer e aprender". São os alunos que fazem o planejamento, estabelecem suas metas e compromissos de estudo e pedem a avaliação no momento em que estiveram certos de que sabem bem o conteúdo proposto naquele objetivo. Se não consegue chegar ao objetivo por meio da pesquisa e na interação com os colegas, o aluno registra o pedido de ajuda no "Tenho necessidade de ajuda" ou "Posso ajudar em", espaços criados para incentivar a solidariedade entre os alunos.

Somente após registrar e esgotar as possibilidades, o aluno procura o professor que, antes de mais nada, deve perguntar qual o caminho percorrido até ali e onde está o entrave, então responder as perguntas do aluno e orientar o caminho para a continuidade da pesquisa.

Quando estiver certo de que atingiu o seu objetivo individual, o aluno registra no "Eu já sei" e pede a avaliação para passar para o conteúdo seguinte. A passagem de um para outro objetivo é indicada por um professor.

 "Dia a dia, a qualquer momento, a avaliação acontece, quando o aluno quer e sente que é capaz. E acontece com a participação do professor. Como cada aluno é um ser humano único dotado de um ritmo próprio, não há dois alunos avaliantes numa mesma coisa ao mesmo tempo. Por esta razão e por outras, não há prova. Mas eles aprendem a fazer prova, porque vão fazer muita prova durante a vida. Os alunos da Escola da Ponte são os melhores nas provas nacionais e os ex-alunos da Ponte são os melhores sempre", garante.

Construindo o próprio caminho
O professor prepara a lista dos conteúdos da quinzena. E depois cada aluno distribui o plano para os quinze dias e apresenta, diariamente, o plano de atividades do dia. Ao final, registra o que conseguiu e o que ficou para trás, estabelecendo quando e como será executado.

As reclamações e sugestões relacionadas à escola são registradas nos computadores "Acho Bom" ou "Acho Mau" espaços criados para que os alunos vivenciem a democracia e aprendam a convivência cidadã.

No Acho Mau, os alunos registram inclusive a desaprovação ao tratamento dispensado pelos colegas, como apelidos e comportamento. Como por exemplo, uma garota muito alta que era chamada de girafa e não gostava.

Nestes espaços e na conversa diária no final do dia, os alunos criticam a escola e dão sugestões, num exercício diário de construção da participação cidadã e democrática e da autonomia individual e coletiva.

Os pequenos crimes entre os alunos, registrados no Acho Mau e não resolvidos pelo Grupo de Ajuda que determina a penalidade, que, invariavelmente é refletir sobre o erro e tentar ter consciência do que fez errado, são resolvidos na Assembleia.

A crianças sabem que a Assembleia é uma coisa importante. Que nela alunos e professores reúnem-se e discutem juntos os problemas da escola e aprendem a respeitar regras e a respeitar uns aos outros e a decidir o que é melhor para todos”, explica o professor.

"Os alunos fazem tudo porque têm grupos de responsabilidades, se não fizerem planejamento, não aprendem a planejar; se houver horários pré-estabelecidos, não aprendem a gerir o tempo. São as crianças que definem direitos e deveres e os fazem ser cumpridos", continua.

As assembleias semanais, o principal espaço de exercício da liberdade responsável, são presididas pela mesa eleita entre os próprios estudantes e discute-se tudo na assembleia, o momento máximo da vivência da democracia e da cidadania. Desde os problemas da escola aos problemas do mundo. Cabe à mesa diretora explicar as regras do estabelecimento para os alunos da iniciação e garantir a oportunidade de participação e expressão para todos.

Do comportamento democrático, cortês e respeitoso ao relacionamento com os colegas e até mesmo o castigo para os infratores, são temas da assembleia. Em assembleia, aprendem a aguardar a vez, a expressar a opinião pessoal e discutir fraternalmente temas polêmicos do dia-a-dia e debatem os problemas da escola, redigem seus direitos e deveres. Ou seja, aprende-se democracia e cidadania praticando na própria escola.

"Sem deixar de `dar o programa`, nós vamos além do aprender a ler, escrever e contar, porque educar é mais do que preparar alunos para fazer exames, é ajudar as crianças a entenderem o mundo e a realizarem-se como pessoas, muito para além do tempo de escolarização', completa Pacheco.

Como o objetivo dos objetivos é fazer das crianças pessoas felizes, foi instituída uma ‘caixinha dos segredos’. É aí que a pesquisa das almas inquietas (indisciplinadas?) começa. Na caixa de papelão, os alunos deixam recados, cartas, pedidos de ajuda. A "caixinha dos segredos" ensina os professores a reaprender. É que nem sempre o que parece ser ‘indisciplina’ o é. Os ‘recados-segredos’ provam-no. "A `indisciplina` é a filha dileta do autoritarismo e da permissividade. A disciplina a que me refiro é a liberdade que, conscientemente exercida, conduz à ordem; não a ordem imposta que nega a liberdade. Como poderemos pensar em controlar as águas revoltas de um rio, se nos esquecemos das margens que as comprimem?", questiona Pacheco.

Reuniões semanais com os pais
Os pais eram chamados à escola, pedia-se castigo para o filho ou contribuições para reparos urgentes, hoje os pais são chamados para participar da educação de seus filhos. Todos os meses há reuniões, aos sábados à tarde, "porque há muito que explicar aos pais sobre o que é feito na escola. Nós gostaríamos que os pais viessem todos os dias e há sempre um professor disponível para atender aos pais".

"A concepção e desenvolvimento de um projeto educativo de escola é um ato coletivo e só tem sentido no quadro de um projeto local de desenvolvimento. Um projeto consubstanciado numa lógica comunitária pressupõe ainda uma profunda transformação cultural", reforça Pacheco.

Em 1976, os pais não apareciam na escola, mas acreditávamos que seria possível estabelecer comunicação com as famílias dos alunos, se os pais não fossem chamados apenas para escutarem queixas ou contribuírem financeiramente. Questionávamo-nos por que razão eles iam à igreja, ao estádio, ao café... e não vinham à escola", acrescenta.

Ao encontrar as respostas, os professores ajudaram os pais a formar uma associação, num momento em que ainda não havia leis para as reger. Mas a participação dos pais não se restringia às atividades propostas pela associação.

No início de cada ano, todos participam num encontro de apresentação do Plano Anual. Os projetos são avaliados mensalmente também pelos pais e há sempre um professor disponível para o atendimento diário, se algum pai o solicita.

"A prática diz-nos, ainda hoje, que os pais têm dificuldade em conceber uma escola diferente daquela que frequentaram quando alunos mas que, quando esclarecidos e conscientes, aderem e colaboram", completa o fundador da Escola da Ponte.

Para finalizar, o professor Pacheco fala que antes de efetivar um projeto de escola é preciso ter a participação da comunidade, pois um projeto de escola educativa é um projeto de desenvolvimento da região em que a mesma está.

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