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Experiências Que Dão Certo
Ano 9 -
nº 84 - 15 de julho/agosto de 2010
Mediação para resolver conflitos Pesquisa encomendada pela Secretaria de Educação do Distrito Federal
mostra que 69,7% dos alunos da rede pública afirmam já ter visto algum
tipo de agressão física no colégio.
da
Redação

Em uma escola pública de periferia, a violência era tamanha que os
alunos se atacavam a facadas. Até que, um dia, começou uma revolução do
bem. É um exemplo para todo o Brasil.
Vandalismo generalizado. “Entrava em sala, pichava, quebrava
cadeiras, chutava, bagunçava”, admite o estudante Alair Evangelista da
Costa Junior.
Ameaças dentro e fora da aula. “Vou riscar o seu carro, vou
furar o seu pneu, vou te bater! Eu participo de uma gangue!”, enumera a
professora de biologia Camila Almeida.
Brigas incontroláveis. “Pode pegar a caneta e meter na barriga,
na cabeça, no olho”, diz a estudante Kamilla de Jesus, que foi expulsa
da escola depois de acertar um murro em uma colega. “Eu desloquei o
nariz da menina”, recorda.
O que está acontecendo com as escolas públicas da capital? Uma
pesquisa encomendada pela Secretaria de Educação do Distrito Federal
mostra que 69,7% dos alunos da rede pública afirmam já ter visto algum
tipo de agressão física no colégio. E 65% dos professores dizem já ter
sofrido ou testemunhado alguma ameaça. Ao todo, 22,4% deles dizem já ter
visto alunos portando armas de fogo dentro da escola.
“Os pais muitas vezes saem cedo para trabalhar e esses meninos
se criam sozinhos nas ruas”, diz Leísa Sasso, diretora do Centro
Educacional São Francisco.
É o que acontece em São Sebastião, uma das cidades mais pobres
do Distrito Federal. Lá 88,6% dos moradores que trabalham passam o dia
fora para ganhar, no máximo, um salário mínimo. Entre 14 regiões
escolares, é a terceira mais violenta.
“Até esfaqueamento a gente já presenciou”, diz a professora Camila Almeida.
Foi no começo do ano letivo. Uma adolescente levou duas facadas
de uma colega de turma. Uma pegou na barriga e a outra quase perfurou o
pulmão. Ela mudou de escola e até de cidade com medo de ser atacada de
novo.
A agressão foi em frente à escola, à luz do dia, diante de
centenas de testemunhas. A violência existe, é fato. Mas, pelo menos no
Centro Educacional São Francisco, em São Sebastião, no Distrito Federal,
casos extremos assim estão cada vez mais restritos ao lado de fora. Do
portão para dentro, algo mudou. Ninguém imaginou que a escola pudesse um
dia levar os conflitos na conversa.
Com quase 3 mil adolescentes em três turnos, o Centro Educacional São Francisco é uma fábrica de confusão.
“O conflito existe diariamente. O conflito não tem fim!”, afirma a diretora da escola, Leísa Sasso.
O aluno chega primeiro. Tenso. Irritado. O professor vem em
seguida. Aborrecido, zangado. Clynfiton Rodrigues pediu a um colega que
fizesse um trabalho no lugar dele. O professor Carlos Alberto Franco
Neto não gostou.
“Quando eu questionei o aluno, ele respondeu de uma maneira
agressiva, em frente à sala de aula, que aquele trabalho era dele”, diz o
professor.
“Alguns professores têm que ser um pouco mais calmos”, reclama o estudante.
Uma mesa redonda, tempo para falar à vontade e dois mediadores: uma aluna e um professor.
“Ele não está chateado porque você não fez o trabalho. É pela
forma agressiva com que essa situação foi colocada”, diz o mediador.
Os dois desabafam, os mediadores ajudam a encontrar a chave da concórdia.
“Na hora eu estava muito alterado, muito nervoso. Eu não sabia nem o que estava fazendo”, diz Clynfiton.
“Às vezes a gente não percebe a reação que tem. Acho normal”,
diz o professor Carlos Alberto, que afirma compreender a reação do
aluno.
“Às vezes, só de o aluno dizer o que sente já melhora, porque
tem alguém escutando”, diz Flávia Tavares Beleza, do Instituto
Pró-Mediação.
Foi o que fez a professora Camila Almeida quando assumiu a turma
que ninguém conseguia controlar. Ela garante que agora consegue levar
uma aula até o fim. “Antes eu não conseguia. Esse curso de mediação faz a
gente enxergar o quanto é importante parar para ouvir”, diz.
Mediação é harmonia. Mediação é rock'n’roll! Tudo para apresentar os novos mediadores da escola.
Dia de formatura. Uma turma de professores-mediadores. E mais 30 alunos recrutados com o mais improvável dos critérios.
“Eles foram escolhidos para esse projeto por serem líderes
negativos. A mediação pegou o potencial de liderança que esse menino já
tinha e colocou a nosso favor”, explica Leíssa Sasso.
Ex-bagunceiro, Alair Evangelista da Costa Junior agora exporta
mediação. “Não só na escola, em todo lugar|: no serviço, em casa, na
rua. Aonde eu vou sempre tem um conflito para eu mediar. Virei mediador
24 horas”, diverte-se o estudante.
E até o impossível aconteceu: a brigona Kamilla de Jesus virou
zen. “Por incrível que pareça, sou mediadora”, diz Kamilla.
A diretora se espanta. “Ela era terrível. Ela enfrentava professor, enfrentava a direção”, lembra Leísa Sasso.
O pai nem reconhece. “Digamos que, como todo adolescente
rebelde, ela também não ficava atrás”, diz o motorista Adão Aparecido de
Jesus, pai de Kamilla.
A avó, Maria José Pimenta, mal acredita. “Era pirracenta, muito
malcriada. Gritava com o pai, gritava com a mãe, gritava com todos nós.
Depois já foi tomando um tiquinho de juízo”.
Não que a vontade de brigar tenha sumido por completo. “Primeiro
eu respiro, lembro do que eu já fiz e do que eu posso fazer, do que eu
posso mudar”, ensina Kamilla.
Mas a transformação de Kamilla é bem maior do que o seu o pavio
curto. “Você aprende a ver o mundo de maneira diferente. Você aprende a
dialogar, uma coisa que é muito raro ver entre adolescentes,
principalmente na escola”, avalia.
A façanha de conter a violência num contexto de pobreza, tensão
social e hormônios explosivos talvez se explique mesmo pela descoberta
do afeto cada vez que um conflito chega ao fim. “As minhas amizades eram
aquelas só de bater. ‘Se você não fizer isso comigo agora, você não é
minha amiga’. E hoje eu já tenho!”, comemora a estudante. ....................................
Continue a
leitura da Edição 84
da Revista ReConstruir.
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