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Experiências Que Dão Certo

Ano 9 - nº 82 - 15 de maio de 2010

Modelo para socialização de deficientes

da Redação
Com base em reportagem de Valmir Moratelli, do iG Rio de Janeiro, publicada em 13/05/2010.

Tamires do Nascimento chega à escola pontualmente às 7h30. Segue pelos amplos corredores, guiando-se pelo corrimão. Para encontrar sua sala, tateia as placas com inscrição em braile localizadas à direita de toda porta. A professora a recebe de prontidão e a encaminha para sua carteira, na segunda fileira em frente ao quadro-negro. Tamires é aluna do oitavo ano da Escola Municipal Orsina da Fonseca, no bairro da Tijuca, zona Norte do Rio. Deficiente visual desde que nasceu, a jovem, de 21 anos, é apenas uma aluna entre os 710 que se distribuem em três turnos de aulas do colégio.

A escola é considerada modelo de integração social e pedagógica para crianças e jovens com algum tipo de necessidade especial. Acaba de ganhar o “Prêmio Experiências Educacionais Inclusivas: A Escola Aprendendo com As Diferenças”, dado pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC), e vai representar a região Sudeste em congresso em Brasília.

A diretoria, além da oportunidade de fazer intercâmbio com outras escolas adaptadas para alunos com necessidades, concorre a um prêmio de R$ 8 mil oferecido pelo Governo Federal. Mas esta escola não é a única que se destaca no Rio. Segundo o IBGE, o Estado tem a maior porcentagem de instituições municipais adaptadas para a recepção de alunos portadores de deficiências.

“Temos baixo número de faltas e de atrasos. Não vou dizer que é fácil para essas crianças acompanharem as aulas com as demais. Mas a superação vem com a ajuda dos outros alunos, da família e dos professores”, afirma Rose Antunes, diretora da Orsina da Fonseca.

Desde 2007, a escola vem passando por melhorias em sua estrutura para acolher melhor os jovens que necessitam de cuidados extras. Além de estarem integrados aos demais alunos, eles podem ter maior independência no ir e vir da sala de aula. “Eles já sofrem muito preconceito por parte da sociedade. Aqui dentro não pode ter este tipo de problema. Graças a Deus nunca houve nada relacionado a isso”, garante Cheng Dannei, mãe de Mariana, outra deficiente visual que frequenta o sexto ano.

Todo mundo é normal
A sala de aula está uma algazarra. A turma do fundão troca bolinhas de papel, alguns cochicham pelos cantos e outros dois desenham no quadro. O professor entra na sala e tudo volta à calmaria. Entre os 30 alunos daquela turma, um deles é a cadeirante Gabriela da Costa, de 14 anos. Portadora de deficiência intelectual e física, Gabi, como é chamada pelos colegas de turma, é tratada como mais uma aluna, sem restrições.

Na hora do recreio, outros amigos de classe a auxiliam com a cadeira para descer as rampas. Não que isso seja necessário. Mas todos parecem gostar de interagir com ela. Um dos alunos brinca com o professor. “Pode repetir? Não estou ouvindo. Acho que estou surdo”, diz, um tanto maroto. “Você sabe que não é assim que deve agir”, orienta o mestre.

Preparo dos professores
Todos os professores passaram por palestras e receberam apostilas para se adequarem às necessidades de alguns dos alunos. Apesar de serem minoria entre as centenas de crianças da escola (cerca de 20 estudantes), eles precisam de atenção redobrada. “Acho que os surdos são os que precisam de maior cuidado. Um sinal malfeito para indicar uma palavra na linguagem braile e você acaba falando um palavrão. Daí ele ri na hora”, adverte a professora de Artes Cênicas Sandra Daleni.

Paulo Renato, de 20 anos, frequenta o nono ano da escola. É o único surdo do turno da manhã. Apesar de conseguir fazer leitura labial com muita agilidade, tem à disposição uma professora auxiliar na sala para traduzir em linguagem de sinais o que a professora titular está ensinando aos demais da turma. “Ele é um ótimo aluno”, diz Marcia Braga, que leciona Biologia.

“Todos nós somos deficientes em alguma coisa. Eles não são mais do que ninguém, como não são menos. É preciso mudar a maneira de enxergá-los para que o tratamento seja igual para todos. Aqui os alunos aprendem a ser solidários e ajudam na socialização dessas crianças”, diz Sandra.

Estrutura física
Um dos banheiros é adaptado para cadeirantes. Uma campainha fica na altura dos joelhos para ser tocada em eventuais emergências e a maçaneta da porta é mais baixa. Tem ainda apoio de mão em todas as laterais e a pia é rebaixada - assim como os bebedouros do corredor. Tudo para que ninguém precise de ajuda extra. O refeitório também recebeu uma rampa de acesso.

“É assim que ensinamos cidadania”, diz Tereza Cupello, uma das professoras de atendimento educacional especializado, que ajuda na orientação aos demais mestres. Assim como Tereza, Paula Fragoso percorre algumas escolas do município para tirar dúvida de professores e até mesmo de pais. “Conheço a vida de cada um dos alunos portadores de algum tipo de deficiência. Me envolvo com a história deles. É incrível como não sofrem nenhum tipo de rejeição por parte dos demais alunos”, afirma Paula.

Toca o sinal. É o que todos esperam para poder ir embora. Mariana Dannei guarda em sua mochila a máquina de escrever em braile, que a acompanha substituindo os tradicionais cadernos, e se levanta rumo à porta. Sua mãe já a aguarda na saída, assim como a dos demais alunos. Para aqueles jovens, uma vida normal - pelo menos dos portões da escola para dentro.

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Continue a leitura da Edição 82 da Revista ReConstruir.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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