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Experiências Que Dão Certo

Ano 9 - nº 79 - 15 de fevereiro de 2010

Vida passada a limpo

Maria Sueli Fonseca Gonçalves*
São Paulo, SP

Pedro, 14 anos, negro, morador da periferia de São Paulo, toma conta de carros estacionados na rua para ajudar no orçamento da casa. A vida não está nada fácil e, para completar, é "convidado a procurar" outra escola por mau comportamento. Acabrunhado, magoado, confuso e diminuído, o menino chega na nova escola. Quem o observasse com atenção, no entanto, perceberia nos olhos negros e graúdos um não-sei-quê de ternura, de bondade e de infância lutando para virar juventude digna, correta e normal, apesar de tudo.

- Professora, professora!

Ela não o conhecia e não o ouviu, seguiu pela rua estreita, a passos rápidos, porque precisava chegar na outra escola e cumprir a segunda jornada do dia.

- Professora, professora!

- É comigo que você está falando? Desculpe, parece que ontem era você me chamando. Desculpe. O que há?

- Eu quero ser acadêmico. O que preciso fazer para ser acadêmico?

Pedro ouvira falar da Academia Estudantil de Letras Padre Antônio Vieira, onde alunos da escola ocupavam cadeiras literárias e participavam de estudos semanais, defendendo os seus patronos.

- Pois não. Você pode ser um acadêmico, sim. Vamos combinar? Todas as últimas quintas-feiras do mês convidamos um escritor, poeta, literato para dar palestra aos acadêmicos aqui na escola. Neste mês, virá um escritor de nome Waldomiro Gonçalo, você vai gostar. Venha então na próxima quinta-feira.

Foi assim que Pedro chegou à Academia de Letras e identificou-se de maneira impressionante com o escritor convidado. Waldomiro, guarda-civil metropolitano, havia se "descoberto" escritor, conforme seu humilde depoimento, e lançado o seu primeiro livro. O poema "Fome", especialmente, tocou a sensibilidade do jovem estudante, que chorou ao ouvir a interpretação majestosa do autor, o qual, apercebendo-se, doou-lhe carinhosamente um exemplar.

Desse dia em diante, Pedro passou a freqüentar a Academia Estudantil de Letras como simpatizante e não se afastou mais dos livros. Era comum encontrá-lo com o livro de Waldomiro nas mãos, tentando memorizar o poema "Fome". Seus olhos tinham agora um brilho especial, não mais visível apenas a alguns, e em suas atitudes percebia-se uma transformação evidente: o menino descobrira o seu valor, a sua auto-estima havia sido recuperada e, por se sentir finalmente amado e respeitado, quebrou as amarras e libertou-se. Entre os "imortais", escolheu Manuel Bandeira e começou a estudar a vida e a obra deste notável poeta. Naquele momento, já era suplente, apoiado em seus estudos pelo acadêmico titular da cadeira pretendida.

Tudo seguia normalmente. Essa história parecia ter chegado ao esperado "final feliz", mas o destino pregou-nos uma peça. A Academia Estudantil de Letras foi convidada a participar de um sarau poético numa das escolas vizinhas. Motivo de honra, porém, tratava-se da mesma escola de onde Pedro houvera sido "convidado a se retirar" pouco antes, conforme relatamos no início.

O menino tremeu nas bases, obviamente. Como enfrentar tamanho desafio? Não comparecer ao evento foi a primeira idéia que lhe pareceu razoável. Não conseguiria subir ao palco e declamar. Como se posicionar diante dos antigos colegas e professores que conheciam tão bem sua antiga história, aquela que ele próprio desejava esquecer? Mais uma vez, nosso herói conseguiu se superar. Fechou os olhos, declamou o poema "Fome" emocionadíssimo, como antes nunca o fizera. A curiosidade inicial dos expectadores, estampada num meio riso em muitos rostos, foi, pouco a pouco , convertendo-se em seriedade e silêncio. Ao final, o jovem acadêmico Pedro, já titular da cadeira número 17, de Manuel Bandeira, na Academia Estudantil de Letras, foi aplaudido, de pé, entusiástica e respeitosamente, por todos.

* Maria Sueli Fonseca Gonçalves é professora da r3ede púbica de São Paulo e idealizadora do Projeto Academia Estudantil de Letras.

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Continue a leitura da Edição 79 da Revista ReConstruir.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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