Ano 11 - nº 89 - Fevereiro de 2012 - A revista do educador
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Eu, Educador
Tânia Reato
O torcedor infantil

Desde cedo nossos meninos e, atualmente, nossas meninas, já recebem nos primeiros anos de vida, dos seus pais, familiares ou amigos destes, objetos de uso pessoal como roupas, calçados, produtos de higiene e, ainda, brinquedos, materiais escolares e outros, que trazem em suas embalagens ou estampas, os mais diversos emblemas de times ou de ídolos do futebol. Induzidos por estes a optar por este ou aquele time, observamos nossos jovens idolatrando de modo fanático esses jogadores e respectivos times que passam a ser vistos pelas imaturas mentes, ainda sem condições de raciocínios lógicos ou sensatos que as capacitem aos julgamentos que as levem a proceder e analisar as razões e circunstâncias que envolvem a política esportiva, de modo a não separarem o esporte e suas implicações da vida cotidiana. Percebemos, então, esses ídolos serem cultuados como verdadeiros “deuses”.

Deuses” que mudam de time a qualquer tempo de acordo com contratos milionários a eles oferecidos e negociados, fora e dentro do país. Logo nos seus primeiros anos de existência a criança vai aprendendo que os valores de fidelidade são facilmente substituídos pelos valores monetários conforme as conveniências do interessado. Não entende que seu ídolo é apenas um profissional do futebol, portanto, troca a camisa de seu time, tanto quanto um profissional de qualquer área troca de empresa de acordo com a melhor oferta que receba. Não entende que para o profissional do futebol a fidelidade ao time pelo qual presta o seu serviço tem a durabilidade restrita ao prazo contratual estipulado entre as partes.

Se não bem orientada e dirigida quanto a este aspecto por aqueles adultos que a induziram à preferência deste ou daquele time, esta criança poderá entender o seu ídolo como um traidor do time e da torcida como, não raro, um inimigo que merece ser punido. Não é difícil, em lhe chegando a puberdade, e em se lhe apresentando uma ocasião favorável à desforra, ela e seu grupo atente contra o suposto “traidor” e os torcedores do novo time ao qual este tenha se filiado. Sendo esta, talvez, uma das muitas causas identificada como um dos fatores que podem alimentar alguns tipos de agressões no meio estudantil. Não percebem ou não desejam perceber que os jogadores são profissionais do futebol e não o “futebol ou o time”. Aprendem que o que conta é o valor do dinheiro em detrimento de demais valores, entre eles, o da fidelidade onde vê serem facilmente substituídos os valores morais pelos valores que um contrato polpudo pode oferecer. Acreditam que o seu time tem que ser o vencedor e que a derrota pertence aos fracos, então, quando seu time perde para outro time em disputa, não se submetem à derrota e, novamente, aflora o desejo de desforra ou de vingança. Em contra partida, os torcedores que vencem a partida do jogo se posicionam como superiores e fortes e saem a menosprezar e a denegrir a imagem do adversário e de seus torcedores e estes, por sua vez, respondem a este menosprezo com a violência que, infelizmente, já nos habituamos a assistir. Quando não, chegando a ser vitimados por ela. Para a criança e, posteriormente, para o jovem adulto, o amigo ideal será sempre aquele que preferencialmente torce pelo mesmo time, os demais são seus “adversários”, portanto, sujeitos a sofrer constrangimentos a título de piadinhas e brincadeirinhas de mal gosto que costumam levar a grandes desentendimentos, gerando inimizades e agressões de todo tipo. Analisada a questão dessa forma, se torna possível prever as consequências traduzidas pelas tais torcidas, erroneamente, chamadas de organizadas!

Não queremos com tais colocações dizer, ou sequer insinuar, ser o futebol ou os seus integrantes uma ameaça à paz daqueles a quem lhes são simpatizantes, mas sim, alertar quanto ao estímulo exagerado e, muitas vezes imposto pelos responsáveis pela educação desses infanto/juvenis, promovendo o fanatismo nessas ingênuas mentes em formação, de valores que carregarão por toda a sua existência. Mesmo que não intencional!

Vale lembrar que as crianças de hoje se tornarão os adultos de amanhã, frequentadores das arquibancadas dos jogos esportivos. Chamar a atenção daqueles que sem o desejar podem estar incentivando a participação de seus filhos em torcidas organizadas é dever de todos. Independente do esporte que se simpatize. Ingressar-se em meio à estas torcidas é, antes de mais nada, aceitar um convite que mais dia, menos dia, poderão os levar a pratica das agressões mútuas como as que temos tido noticias pelos meios de comunicação, além de, em casos mais graves, levá-los a praticarem crimes da mais alta crueldade dando vazão a revoltas, talvez, trazidas da sua infância aparentemente esquecida ou superada.

Revolta sentida pelo clube que vendeu seu “jogador ídolo” para o outro clube que, na sua concepção imatura, é visto como a um inimigo em potencial; revolta pela traição de um ídolo; revolta pela decepção que vê estampada nos rostos das pessoas que ama pela derrota que seu time possa ter sofrido, e tantas e mais revoltas.

Diante das atrocidades que vemos surgir a cada jogo de times apelidados de “grandes”, já passamos da hora de verificar com mais atenção o comportamento e a posição que nos colocamos perante nossos filhos e nossos jovens em relação ao futebol. É momento de avaliarmos se vale a pena influenciarmos na escolha do esporte preferido de nossos jovens, e avaliarmos quais os riscos implicados nesta escolha.

Uma vez escolhido, por eles, deveremos orientá-los de forma que entendam que este ou aquele esporte tem a única função e objetivo de nos entreter de modo a nos trazer lazer que proporcione ensinamentos, como os de trabalho em equipe; o valor das amizades; o exercício físico; a noção de disciplina e ordem; o desenvolvimento de talentos etc. Jamais o de competição no sentido de “quem é o melhor” ou o “de quem pode mais”, em detrimento do outro.

Se você não quer ver o seu filho ou filha se tornar, num futuro próximo, um líder ou participante de uma dessas torcidas “organizadas”, estando sujeitos a sofrer e também, a promover sofrimentos gerados pelas violências causadas por este tipo de fanatismo e de idolatria, sugere-se que se tome uma das principais providências que é a de não fanatizá-lo a partir da ingênua caneca comprada no comércio com o emblema de seu time favorito, ou o caderno estampado com o rosto “daquele”jogador idolatrado.

Este tipo de marketing só favorece os patrocinadores e os patrocinados podem “causar danos à sua família”.


Tânia Reato é colaboradora do IBEM.

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