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Eu, Educador Ano
8 - nº 70 - 15 de março de 2009 Neste espaço você, professor, conta a sua história, uma experiência bem sucedida, os problemas enfrentados na escola, as soluções encontradas. É um espaço totalmente seu. A cada edição ReConstruir vai selecionar um depoimento para publicar. O próximo pode ser o seu. Se necessário, nossa equipe de redação poderá formatar seu texto, mas sempre mantendo sua fala. Educar por Henrique José Miranda A vida é uma eterna surpresa para as crianças. Não há rotina, mas descobertas diárias. Assim como para filósofos todos os dias são diferentes. Os adultos reclamam da rotina, do cotidiano modorrento. Se fossem como crianças teriam um dia cheio de alegrias e surpresas. E assim como a alegria de brincar e (re)descobrir, neste trabalho gostaria de tratar o olhar de forma mais profunda. Onde podemos enxergar sentimentos. Gostaria de tentar escrever para uma criança cega. Que como todos nós, ri, chora, alegra-se, fica triste, anda, aprende a ler e escrever, brinca, canta, ouve e conta histórias, e "enxerga" longe ou não. Como mostra Saramago em seu livro "Ensaio sobre a cegueira", a cegueira não nos santifica. Assim o verdadeiro "olhar" está no coração. Este, sim, deve ser educado aperfeiçoando sua sensibilidade e aprimorando as habilidades. Assim chegaremos à felicidade. A educação do olhar vai além dos olhos físicos. O objetivo de aprender é para sermos felizes e entendermos de que maneira nós podemos fazer para atingirmos esta felicidade. Isto porque temos em nosso mundo diversas dificuldades, criadas por nós mesmos, e que nós mesmos devemos vencer. Por isto desenvolvemos a sensibilidade e a habilidade. As duas, acredito, devem ser usadas com bom senso. O vigia da gávea enxerga a terra mesmo antes de vê-la. A terra dá seus sinais. O mesmo acontece com os homens. Basta ter olhos de ver. Educar para a felicidade é preciso estimular e criar vínculos. Muitos confundem estimular com largar as crianças deixando que a "vida" as ensine, melhor dizendo, "deixar correr solto" e assim não ter trabalho, que, geralmente, vai gerar grandes preocupações e um futuro próximo. Em seguida criar vínculos, laços. Há muito não ouço estas palavras entre os professores. Parece que há medo em criar laços. Lembro-me de uma propaganda de operadora de celular onde o cliente está vinculado por contrato e literalmente aparece algemado tendo que arrastar uma pessoa (representando a operadora) maior que ele pela rua. Não só os professores, mas as pessoas estão com medo de criar laços. Como educar para a felicidade ("olhar") se não estamos perto? Estímulo e vínculo estão intimamente ligados. Pois não podemos estimular sem estar por perto. No entanto, criar vínculo ou laços, envolve mais que estar por perto. È uma ligação quase visceral (ou melhor, espiritual?) onde trocamos impressões profundas do que pensamos, e o pensamento é força de criação. Nesta interação, e é bom frisar a palavra interação, o educador (mãe, pai, irmãos, tios, professores) entra em contato ativo de idéias e experiências adquiridas. Esta interação acontece e deve acontecer com todos os seres do planeta. Somos gregários, dependemos uns dos outros, como uma fila de dominós. Estimular não é colocar uma cenoura na frente do cavalo, nem como vi em documentário, acredite ou não, soltar um jacaré atrás de um nadador. Estimular é fazer a criança sentir confortável e confiante para aprender. A criança anda para pegar o brinquedo que se sente atraída, mas ela tem uma confiança construída pelo educador que a deixou em uma zona confortável construída com afeto e sensibilidade. Não descarto, e sei que existe a troca irracional, a chantagem. O estímulo deve partir do coração, da inteligência, não do interesse material e mesquinho, por vezes maldoso da chantagem emocional. O estímulo do ser humano deve ser sensível e amável, baseado na moral. Usamos as palavras para sermos melhores. Por isto a aprendemos. Vejam que fazemos com a criança o mesmo que fazemos com o cão que acerta uma tarefa. Damos-lhe um biscoito. A criança que acerta uma tarefa deve ser amada, e quem erra igualmente amado. Quando acerta ou erra tratar como uma atitude normal que é. Porém acostumamos a nos frustrar com o erro e comemorar acertos com paixão demasiada. Estimulando, não a continuação do aprendizado, mas o orgulho e egoísmo do acerto e o mesmo orgulho do erro. Este concerto de idéias foi acentuado após a Revolução Industrial quando surgiu a competição pelo destaque, pelo mérito, conseguintemente o do demérito. Onde se firmou tempo para aprender e determinou-se que quem fica para trás é fracassado. Foram esquecidos valores que foram paulatinamente se apagando com a historicidade da civilização materialista. E o pior é que nos acomodamos. Voltando ao estímulo, ele é algo criativo que constrói na própria criança a vontade de andar em frente. Como se cada sucesso fosse refletido como alegria interna e forçasse a outro e outro, provocado por ela mesma. Isto com ajuda constante (vínculo) do educador, pois ele igualmente alegra-se com o que faz independente da troca (outro objetivo do "olhar"), e incentiva-se e incentiva a continuar. Bom lembrar que cada sucesso é interno e não precisa de comparações e grandes estardalhaços. Vínculo. Laços. Amar. Há muito medo. Envolvimento é uma coisa egoísta. Vejo que se vê o outro como experiência. Experiência esta que as crianças não têm, mas observam e aprendem rápido. A relação visa apenas um lado. Não se enxerga o outro, suas necessidades. Percebo que muitos professores enxergam apenas suas necessidades. Salários (muito baixos), ambientes insalubres, quantidade demasiada de alunos por sala são realidades patentes. Porém é a mesma realidade dos alunos. Somos companheiros nesta empreitada. Quando em dificuldade nos unimos. Mas preferimos o isolamento egoístico. As crianças pouco entendem a situação. E ficam perdidas correndo e gritando. (Não é assim?). Criar laços é perigoso, sim. Mas toda profissão tem seu risco. O mal profissional é o que não quer correr risco nenhum. Fica na zona da acomodação. Não falo do risco irresponsável. Mas de falar com o aluno difícil. Chamar sua mãe. Conversar não sobre o comportamento do filho, mas sobre sua vida, as relações da casa, dos parentes, dos colegas, do pai. "Mas não sou pago para isto. Já tenho meus problemas". Mas se somos uma fila de dominós... A palavra já tinha um sentido antes dela existir. O olhar, no entanto, sempre fez sentido. E o olhar é uma expressão. Uma equação onde o coração é o resultado do outro lado da igualdade. Seus resultados buscam esta igualdade considerando todos os elementos. .................................... Continue a leitura da Edição 70 da Revista ReConstruir.
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