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Eu, Educador

Ano 8 - nº 67 - 15 de outubro de 2008

Neste espaço você, professor, conta a sua história, uma experiência bem sucedida, os problemas enfrentados na escola. É um espaço totalmente seu.

A cada edição ReConstruir vai selecionar um depoimento para publicar. O próximo pode ser o seu. Se necessário, nossa equipe de redação poderá formatar seu texto, mas sempre mantendo sua fala.

Nesta edição trazemos o desabafo da professora Pamela Ullio, da cidade de Resende (RJ), que ao mesmo tempo revela muita fé na ação educativa e boas propostas para o processo ensino-aprendizagem.

As estatísticas e a realidade

Fico pra morrer com esses índices (Ideb) que não revelam nada. Isso foi até comentado em um dos módulos da especialização em Educação Ambiental. Não tem como você comparar duas regiões que possui realidades completamente diferentes. Por exemplo, não tem como comparar a qualidade de vida do Rio de Janeiro com Manaus, pois o clima é diferente, as necessidades são diferentes, a história é diferente. É a mesma coisa dizer o que é supérfluo: um estetoscópio não é supérfluo para um médico, mas é para um engenheiro. O governo do estado preocupado com esse índice está forçando os professores a fazer projetos fora do horário escolar para melhorar os índices de aprovação da escola. Poderia fazer projetos, qualificações para melhorar o desempenho do professor em sala. Estava mexendo nas minhas pesquisas e descobri que a violência que os professores enfrentam em sala é em virtude do método, pois se buscássemos a reflexão dos atos, o questionamento, não seria necessária a punição, pois o aluno seria responsável pelos seus atos.

Assisti há duas semanas, pela internet, um seminário sobre família e outro sobre adolescência. Os palestrantes disseram que o pouco que a escola fizer pelo aluno no lado moral, reflete na vida do aluno e que acaba interferindo na família.

O início deste ano foi difícil na escola onde trabalho, pois esse ano colocaram 12 turmas de primeiro ano e enquanto uma colega dá aula para 6 turmas, eu dou aula para outras 6 turmas. Para a direção deveríamos ter o mesmo método, percorrer com a matéria no mesmo período, por exemplo, se uma dá cebola, a outra tem que dar cebola, não podendo dar mamão. Eu sou um tipo de pessoa que gosto de aprofundar o assunto. Ao invés de decorar nomes disso ou daquilo, procuro que o aluno entenda e dê um sentido prático à matéria. Foi uma guerra que só Deus mesmo para nos ajudar. Quando fui falar célula, falei sobre a vida e também falei sobre aborto. Então pedi para que um médico, um espírita, um evangélico, um padre, um advogado, e um cientista para falar sobre aborto e as células-tronco. A intenção era fazer um debate, mas com medo da polêmica permitiram palestras isoladas. Até perguntei para a outra professora para participar, ela disse que não tinha tempo. Alguns professores diziam que estava doida por que estava mexendo com religião. Pois bem, tudo estava marcado, combinado e as palestras iam começar na segunda-feira. Na sexta feira antes de iniciar as palestras, fui a Niterói para um congresso de ensino de saúde e meio ambiente e o pessoal da escola ligou para o meu celular, mas não atendi, por ter abaixado a campainha do celular a pedido da minha colega durante a exposição oral dos trabalhos. Eu vi o telefone, ia ligar da rodoviária, mas o celular deu erro e acabou apagando o número. Como não me lembrava do número, não liguei. No dia seguinte (sábado), fui à escola por causa da festa das mães e a diretora adjunta brigou porque não atendi o celular e que não poderia fazer o meu projeto sobre aborto, pois era isolado, não era em conjunto com os outros professores. O motivo da ligação era que uma mãe de aluno foi na escola para reclamar que enquanto o filho estava com nota azul e pouca matéria no caderno, o sobrinho dela estava com nota vermelha e muita matéria. Outro motivo para não fazer o projeto é que estava enrolando a aula. A diretora queria me ver em sala dando matéria. Na segunda-feira, assim que chego quem eu vejo é a coordenadora que apóia meu trabalho e me disse que não tinha feito nada de errado e falou com a diretora permitindo o andamento do trabalho.

Por outro lado em uma outra escola onde trabalho fazendo dobra, fiz o debate, correu tudo bem. Todos gostaram e até a coordenadora pediu para que escrevesse o projeto para se colocar na Internet.

Sei que ainda tenho muito o que modificar, pois ainda me pego no método tradicional da transmissão do conteúdo, mas apesar disso percebo que aos poucos estou conseguindo atingir pequenos objetivos: uma turma que a princípio me desafiava, hoje colabora comigo; o aluno que não gostava de mim, hoje faz questão de ajudar.

Ser professor é um trabalho árduo, mas é gratificante, é um trabalho de descoberta, de ensinamentos a todo instante.

Pamela Ullio
Resende (RJ)

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Continue a leitura da Edição 67 da Revista ReConstruir.

 

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