
Sob o olhar de um
educador atencioso, as brincadeiras infantis revelam um conteúdo
riquíssimo, que pode ser usado para estimular o aprendizado. Gilles
Brougère, um dos maiores especialistas em brinquedos e jogos na
atualidade, entrou nesse universo totalmente por acaso. Desde o fim
da década de 1970, o tema tornou-se objeto de estudo no grupo de
pesquisadores em que ele atuava. Como na época não existiam
investigações sobre a temática, Brougère vislumbrou o muito que
havia para ser feito.
Desde então, ele
pesquisa a cultura lúdica da perspectiva da sociedade na qual cada
criança está inserida. É o contexto social, diz ele, que determina
quais serão as brincadeiras escolhidas e o modo como elas serão
realizadas.
Seus estudos indicam
que os pequenos se baseiam na realidade imediata para criar um
universo alternativo, que ele batizou de segundo grau e no qual o faz
de conta reina absoluto. Graças a um acordo entre os participantes -
mesmo os muito pequenos -, todos sabem que aquilo é "de
brincadeira". Por isso, fica fácil decidir quando parar. Pelo
mesmo motivo, um jogo não pode ser nem muito entediante nem muito
desafiante ao ponto de provocar ansiedade.
Quais
são as características básicas da brincadeira?
GILLES
BROUGÈRE A primeira característica
é a que se refere ao faz de conta. É o que eu chamo de segundo
grau. Toda brincadeira começa com uma referência a algo que existe
de verdade. Depois, essa realidade é transformada para ganhar outro
significado. A criança assume um papel num mundo alternativo, onde
as coisas não são de verdade, pois existe um acordo que diz "não
estamos brigando, mas fazendo de conta que estamos lutando". A
segunda característica é a decisão. Como tudo se dá num universo
que não existe ou com o qual só os jogadores estão de acordo que
exista, no momento em que eles param de decidir, tudo para. É a
combinação entre o segundo grau e a decisão que forma o núcleo
essencial da brincadeira. A esses dois elementos, podemos acrescentar
outros três. Para começar, é preciso conhecer as regras e outras
formas de organização do jogo. Além disso, o brincar tem um
caráter frívolo, ou seja, é uma ação sem consequências ou com
consequências minimizadas, justamente porque é "de
brincadeira". Por fim, há o aspecto da incerteza, pois o
brincar tem de se desenvolver em aberto, com possibilidades variadas.
Quando todos sabem quem vai ganhar, deixa de ser um jogo (e, nesse
ponto, é o contrário de uma peça de teatro, que também é "de
brincadeira", mas que sabemos como acaba).
O
tema de sua pesquisa é a relação da brincadeira com a cultura
lúdica. Como definir esse conceito?
BROUGÈRE
A cultura lúdica são todos os elementos da vida e todos os
recursos à disposição das crianças que permitem construir esse
segundo grau. Ela não existe isoladamente. Quando a criança atua no
segundo grau, mantém a relação com a realidade (o primeiro grau),
pois usa aspectos da vida cotidiana para estabelecer uma relação
entre a brincadeira e a cultura local num sentido bem amplo. Depois,
os pequenos desenvolvem essa cultura lúdica, que inclui os jeitos de
fazer, as regras e os hábitos para construir a brincadeira. Um bom
exemplo são as músicas cantadas antes de começar uma brincadeira
no pátio da escola.
Essa
cultura, portanto, é individual ou compartilhada?
BROUGÈRE
Ambos. Como toda cultura, ela se refere ao que é
compartilhado e é isso que permite que uma criança brinque com
outras. Cultura, numa definição muito rápida, é "tudo aquilo
que compartilhamos". Então, para compartilhar uma brincadeira,
é preciso ter uma cultura compartilhada. Ao mesmo tempo, porém, é
preciso entender que cada criança, em função de sua história de
vida, tem um jeito particular de lidar com as brincadeiras. Às
vezes, ela conhece alguns jogos, mas não outros. Por isso, posso
afirmar que existe também uma individualização dessa cultura, já
que nem todos compartilham todos os elementos da cultura lúdica de
uma geração. Alguns jogam videogames que outros nem conhecem. Da
mesma forma, há diferenças entre as brincadeiras de meninas e de
meninos. A cultura lúdica é a soma de tudo isso, considerando o
resultado da vida de cada um. O fato é que a experiência lúdica
não é a mesma para todas as crianças.
Um
jogo pode mudar conforme a sociedade ou a região. Como abordar essas
diferenças?
BROUGÈRE
É verdade que existe uma dimensão local da cultura. Muitas
crianças jogam bola de gude - e em lugares diferentes as regras
podem ser totalmente diversas. Em alguns locais, desenvolve-se um
jeito específico de pular corda. Não há dúvida de que os jogos se
adaptam ao contexto, aos hábitos, aos interesses e ao material
disponível.
É por
isso que se diz que a criança aprende a brincar?
BROUGÈRE
Sim. A brincadeira não é inata. Mesmo que tenha elementos
naturais, ela sempre é o resultado de uma construção social. É
algo que se aprende e se estrutura desde muito cedo, muitas vezes
entre mãe e filho. É provável que a criança aprenda o "de
brincadeira", o segundo grau, nas próprias brincadeiras. Toda
criança descobre rapidamente que no esconde-esconde o
desaparecimento não é real. Afinal, reaparecemos depois. Quando ela
é capaz de fazer o mesmo, ainda que seja de maneira desajeitada,
aprendeu a brincar. Mas é preciso entender que algumas crianças não
aprendem isso, o que faz com que tenham dificuldade para estar no
segundo grau. Se não aprendem a dizer "é de brincadeira, é só
faz de conta", não conseguem entrar em nenhum jogo. Tanto é
assim que falamos que "essa criança não sabe brincar"
justamente porque não entra no universo do faz de conta. Depois
dessa aprendizagem básica do brincar, os pequenos aprendem os
mecanismos, os ritos e as tradições de um pátio, de um espaço
para jogar. E em seguida vêm as aprendizagens secundárias: aprender
a jogar futebol, aprender a jogar determinado videogame.
Então,
primeiro a criança tem de entender o que é brincar?
BROUGÈRE
Não diria que ela tem de entender, pois não tenho certeza
de que a criança precise de clareza sobre esse processo. Usar o
verbo entender significa pensar que um jogo só pode ser jogado
quando há um nível de reflexão elaborado. E, obviamente, não é
possível ter certeza de que a criança faz essa reflexão, pois não
há como questioná-la sobre isso, uma vez que é nova demais. O que
realmente importa é ela entrar nesse universo de faz de conta e
sentir o prazer que ele proporciona. Há teorias sobre a excitação
ou a emoção que o lazer (e, mais especificamente, o jogo) produz.
Quando as crianças são bem estimuladas, mostram isso claramente. Se
elas entendem? Não sei, mas acho provável que o domínio do segundo
grau venha antes dessa compreensão. As crianças brincam antes mesmo
de entender o que estão fazendo. Elas percebem e atuam antes de
entender o significado de suas ações e de poder refletir sobre
elas.
O jogo muda
naturalmente à medida que a criança se desenvolve?
BROUGÈRE
Sim. No começo, tudo se dá no nível da experiência. Mas,
como em toda atividade humana, ocorre o enriquecimento por
experiência. Quanto mais a criança adquire vivências, mais é
capaz de fazer novas atividades (e perde o interesse por outras). É
possível analisar isso com base na teoria do fluxo ou da experiência
ótima. No jogo, os pequenos procuram estar em equilíbrio, evitando
o tédio - se acham chato, não jogam mais - e a ansiedade - tarefas
difíceis demais também são abandonadas. Se o desafio é demasiado,
gera ansiedade. A criança desiste dizendo que aquele jogo é ruim e,
com isso, evita ficar em dificuldade. O jogo envolve essa busca de
equilíbrio. É uma atividade em que há desafio, mas um desafio
acessível. Em função da experiência e também das competências,
cada criança é capaz de dominar certas situações e, assim,
administrar essa distância entre o tédio e a ansiedade. A isso se
soma a dimensão social. São os momentos de encontro com outras
crianças ou, às vezes, adultos. É comum adaptar as regras de um
jogo para adultos só para permitir que os pequenos participem
também. Finalmente, outro elemento se revela por meio do jogo: a
criança mostra quem é. O jogo é um indicador, uma maneira de
mostrar a si mesmo e aos outros que aquele pequeno já cresceu.
O
que a escola pode fazer para enriquecer o brincar?
BROUGÈRE
Acredito que a primeira atitude a tomar é observar. Sem a
observação, o enriquecimento não é possível porque não há
conhecimento suficiente para tanto. Depois disso, é interessante
refletir sobre a qualidade dos espaços destinados às brincadeiras,
sejam eles externos ou internos. Outra reflexão importante é sobre
como o professor pode favorecer esse enriquecimento. O professor deve
ficar de fora da brincadeira? Em que casos pode intervir ou
participar do jogo? Não há uma verdade única para essas questões.
Tudo depende da percepção do educador, da idade das crianças, das
circunstâncias e das condições da escola. Se em algum momento o
professor sente que deve propor uma ideia ou indicar o uso de um
material capaz de deixar a brincadeira mais interessante, ele não
deve se privar disso - desde que tenha em mente que não se trata de
obrigar as crianças.
Que
intervenção positiva de um professor é um bom exemplo?
BROUGÈRE
Uma colega relatou em um livro uma atividade em que crianças
faziam um percurso de bolas de gude com pedaços de madeira. Durante
o jogo, o professor percebeu que seria uma pena perder todo aquele
esquema montado. Então, ele sugeriu que as crianças registrassem o
percurso para poder reconstituí-lo no futuro. E todos aceitaram a
proposta com entusiasmo. Ao propor um novo desafio que não fazia
parte do jogo, o educador auxiliou a garotada a progredir. E, como as
crianças estavam felizes pelo que haviam feito, guardar o registro
foi uma forma de valorizar ainda mais o que tinham construído. O
papel do professor é propor novas atividades que se baseiam num jogo
ou que podem alimentá-lo. Outro bom caminho é propor uma roda de
conversa depois de um jogo para que as crianças falem sobre o que
aconteceu, sobre o que observaram. Isso não faz parte do jogo em si,
mas valoriza o ato de jogar.
Qual
sua opinião sobre a escola oferecer brinquedos de alguma forma
ligados à violência, como soldados?
BROUGÈRE
Como regra geral, sou contra. E acho que essa é a realidade
em quase todos os países. Meus estudos mostram que geralmente
predomina a cautela em relação ao que se associa à guerra. Mas há
exceções. Lembro que, na Polônia, ninguém evitava os brinquedos
de guerra. Lá, eles eram considerados bons porque foi a guerra que
permitiu libertar o país da opressão do nazismo. Da mesma forma,
acho razoável o movimento contra os brinquedos da moda, ligados à
globalização dos mercados ou a determinadas marcas, em detrimento
de brinquedos tradicionais, presentes na sociedade há várias
gerações. Sou favorável a esse movimento de valorizar os jogos em
que as crianças são personagens, atores, e deixar em segundo plano
os brinquedos em que elas têm de atuar como diretores. Não quero
dizer que esses jogos não têm nada de interessante, mas acho que os
primeiros são melhores para o desenvolvimento cognitivo infantil. Os
professores precisam estar à vontade com o material à disposição
em sala de aula e usá-los para enriquecer a experiência lúdica das
crianças.
Entrevista transcrita de revista Nova Escola, março de 2010.