
Para o educador espanhol, as
técnicas para ensinar crianças pequenas deveriam ser conhecidas de
todos os professores
Monitorar
os alunos que trabalham em grupos, observar suas reações e
evoluções durante a aprendizagem e fazer relatórios de
desenvolvimento são alguns dos caminhos para ser fazer uma avaliação
formativa. Essa é a opinião de Antoni Zabala, educador espanhol da Universidade de Barcelona.
> Qual a
principal dificuldade que o professor enfrenta no processo de
avaliação?
Zabala
< A maior barreira
é interna. Ele precisa se desfazer de toda sua história como aluno
e como professor. As propostas mundiais sobre o que deve ser o ensino
implicam em mudança total, que afetam aquilo que é nuclear: a
avaliação. Eu diria: diga-me como avalia que eu te direi que
professor você é. É na maneira de avaliar que aparece tudo o que é
importante para o professor. Se avaliamos somente os conceitos
matemáticos, químicos ou a gramática não estamos mudando nada. Só
estou dando a entender que quero formar futuros universitários. Na
verdade, os professores deveriam tentar introduzir também seu
pensamento de educador. Isso implica em falar de valores, de
estratégias de aprendizagem, de colocar técnicas de trabalho em
equipe e itens que avaliem o que se considera o perfil ideal da
pessoa que se quer aprovar.
> Aconteceram
várias mudanças nos conceitos do que seja a educação ideal, nos
últimos 40 anos. O professor consegue captar rapidamente esses novos
parâmetros?
Zabala
< A sociedade é
bastante farisaica em relação à educação. Todos dão importância
à ela, dizem que é aí que está o futuro do país, que é
fundamental, básica etc. Mas um caminho se constrói andando, com
ações. Em quase todos os países a educação tem sido meras
palavras. O que realmente importa é a valorização profissional da
educação. Mas isso é deixado de lado. Em uma sociedade como a
nossa, esse valor se dá em retribuições salariais e no valor
econômico e social atribuído ao profissional. A formação que os
professores tiveram não foi suficiente, mas as motivações para que
as mudanças ocorressem foram mais do que insuficientes.
> Classes grandes e
superlotadas prejudicam a concretização de um modelo ideal de
avaliação?
Zabala
< Existe um
problema anterior. Todo pensamento precisa de estímulos para mudar.
O professor precisa capacitar-se, mas não é suficiente. É apenas
um caminho. Os pensadores da educação defendem modelos impecáveis.
Esse é o discurso. É muito fácil fazer leis que atendam esses
princípios. O problema está em colocar os meios que levem essas
ideias a cabo. É preciso aprender técnicas, estratégias e formas
profissionais de se atuar em relação a esses preceitos. Isso
implica em um processo de aprendizagem: precisa ter um professor,
informações básicas, alguma experimentação... E aí não
acontecem ações suficientes. Dizemos que avaliar de forma
personalizada com 30 ou 40 alunos é difícil. Mas pode ser feito, se
conhecermos as técnicas e as estratégias para isso.
> Quais seriam
esses instrumentos e técnicas?
Zabala
< Atender a uma
avaliação formativa, respeitando as características de cada aluno,
não é uma questão de tudo ou nada. Pode ser feita aos poucos ou em
parte. Sabemos que o ideal teórico é uma utopia. Dificilmente
conseguiremos que uma escola possa atender a todos os alunos segundo
suas necessidades e possibilidades. Existem muitas estratégias,
porque uma das coisas que nós professores mais temos é criatividade
para inventar atividades. Não é preciso consultar teóricos. Essas
estratégias estão aqui mesmo no Brasil, em muitas escolas de
qualidade que estão atendendo a diversidade. O segredo está na
participação dos alunos nos processos de ensino. Os alunos devem
ajudar outros alunos, ser considerados agentes educadores dos
companheiros. Todas as grandes experiências que existem no mundo de
atenção à diversidade não implicam em redução das classes. O
papel do professor é provocar ajudas, dinamizar a classe para que se
trabalhe em pequenos grupos flexíveis, às vezes em pares. O que
sabe mais ajuda o que sabe menos. As técnicas passam por montar
classes dinâmicas, onde existam relações interativas que provoquem
conhecimento. Isso implica uma mudança no papel do professor. O
professor não é aquele que tem o conhecimento e o transmite. O
professor é aquele que veicula interações, provoca intercâmbio na
aula e ajuda na busca de conhecimentos.
> Os próprios
alunos serão então companheiros de ensino e aprendizagem?
Zabala
< As técnicas para
atender a diversidade estão na Educação Infantil. O que fazem as
crianças lá? Ficam sentadas umas atrás das outras, escutando o
mestre? Não, elas fazem coisas. E não fazem sozinhas. Estão sempre
com os colegas, em pares ou trios. Um olha o outro e aprende com ele.
Devemos usar essa estratégia. A professora não transmite
conhecimento, ela ajuda a todos, cobrando tarefas e querendo saber
por que motivo não as executaram, quais as dificuldades. O modelo de
avaliação também está lá. Os professores não sancionam seus
alunos, dizendo que não sabem isso ou aquilo. Eles tentam averiguar
o que eles não sabem para orientá-los. As crianças são mais
espontâneas e desarmadas. Contam o que sabem e o que não sabem
fazer. Ao passo que quando são maiores, ninguém se atreve a ir ao
mestre e dizer "eu não sei fazer isso". Porque temem que
ele imediatamente anote essa "falha" do aluno. Está claro
que devemos ir de um modelo seletivo para um modelo orientador,
centrado no que o aluno sabe e não naquilo que ele não sabe; na sua
capacidade e potencialidade. A ação do mestre deve ser buscar o que
o aluno tem de melhor e tentar valorizá-lo. A função da escola não
é preparar para a universidade, é preparar para a vida. E a vida
tem quem vai ser matemático, mas também tem cozinheiros,
camareiros, motoristas. Tem de haver de tudo. E esse motorista tem de
ser o melhor possível, o arquiteto tem de ser o melhor possível.
Isso implica em buscar aquilo em que o aluno é mais potente. A
função do professor é conhecer o aluno, valorizá-lo para
despertar seu interesse em buscar o conhecimento. Buscar ele próprio,
não impor-lhe o conhecimento. Muitas vezes utilizamos as notas para
controlar a disciplina do aluno e para obrigá-lo a estudar. Mas por
que devemos fazer alguém estudar algo que não lhe interessa? Quando
não há interesse não há aprendizagem.
> Em quais casos a
retenção é necessária?
Zabala
< Esse problema
está aparecendo em todos os países. O dilema é: os alunos devem
ser promovidos automaticamente? Depende do jogo que estamos jogando.
Se o modelo que temos é aquele em que a escola deve preparar para a
universidade, então o modelo seletivo deve prevalecer, assim como
todas as regras que ele implica. Se nos convencemos que o objetivo da
escola é formar pessoas que se integrem à sociedade e dê respostas
aos problemas que a vida vai lhes trazer, então as normas devem
mudar. O problema é que edita-se uma portaria para que as
orientações de um modelo sejam aplicadas em outro. Ou se muda tudo,
ou é melhor não mexer. Se queremos formar pessoas equilibradas e
autônomas, elas devem ter uma boa auto-estima. Estamos ajudando a
fomentar a auto-estima quando obrigamos uma pessoa a deixar seu grupo
de amigos e a frequentar uma turma mais jovem? Isso é bom para seu
equilíbrio? Está claro que não. Para ela é uma humilhação
repetir de ano. Ora, mas se no curso seguinte não existe um modelo
de ensino que atenda a diversidade, esse aluno não vai acompanhar a
classe. Portanto, é melhor que repita. Mas, cuidado! Isso acontece
por um déficit do sistema, que não preparou esses professores para
atender a diversidade. Mas se eles sabem atender a diversidade, então
não deve haver retenção.
> Que conselho o
senhor daria para o professor que estará nesse mês de dezembro
fazendo o planejamento escolar para o próximo ano quando estarão
querendo mudar o seu modo de avaliar?
Zabala
< Se ele está
tentado, quero felicitá-lo: está no caminho. Existem na maioria das
escolas as técnicas e estratégias necessárias para responder a
essas dúvidas. É preciso estar alerta e escutar os demais. Escutar
e refletir com os companheiros.
Entrevista transcrita de revistaescola.abril.com.br/img/planejamento/zabala.doc