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Entrevista Da Redação Em defesa da educação para a paz
Entrevista feita pelo jornalista Marcus
Tavares, do site RioMídia, com Vera Maria Candau, professora do
Departamento de Educação da Pontifícia Universidade Católica do Rio de
Janeiro (PUC-Rio) e membro da ONG Novamérica e da Rede Brasileira de
Educação em Direitos Humanos, que defende a necessidade de se educar
crianças e jovens para a paz.
Reconhece
que o trabalho não é fácil para as escolas, pois os cursos de formação
de professores, em geral, se preocupam apenas com as áreas de
conhecimento e com as metodologias de ensino. Mas acredita que o
contexto do mundo atual mostra a necessidade do surgimento de sociedades
mais democráticas e justas, o que exige a promoção de uma cultura de
Direitos Humanos e da Paz: "É necessário, é urgente, é preciso",
destaca. 
A senhora afirma que falar de paz nos dias de hoje é uma questão complicada e difícil. Por quê? Vera
Candau - Porque, embora seja uma aspiração profunda de toda a
humanidade, a atual sociedade - tal como está configurada - desenvolve
em todos nós uma dinâmica de agressividade, de ver o outro como inimigo,
como competidor. O diferente é sempre o inimigo e você deve proteger-se
dele. Para isso precisa atacá-lo, discriminá-lo e se valer de atos
violentos. A paz questiona esta lógica de olhar o outro como inimigo.
Questiona a lógica da sociedade atual, a sua dinâmica cotidiana, onde
todas as pessoas estão diariamente guerreando para sobreviver; e a
lógica das relações internacionais, centrada no poder bélico e
econômico, que passa por cima de todas as regras de convivência e de
negociação. A paz questiona tanto as atividades marcadas pela
agressividade, pela negação do outro, quanto a lógica que impera nas
relações macrossociais e políticas - que teimam em querer resolver os
problemas na base do militarismo e do poder econômico. Corremos o risco
ou de negar a realidade ou de não reconhecer o sentido profundamente
antropológico e políticosocial do anseio de paz, presente nos indivíduos
e nos grupos sociais.
Portanto, estamos cercados por vários tipos de guerras? Vera
Candau - Exatamente. Vivemos aqui mesmo no Rio de Janeiro uma guerra
cotidiana - violenta, forte e nada surda. E não é só isso. Também
convivemos, por exemplo, com a guerra contra a fome, contra as doenças
infecto-contagiosas, contra a miséria. Além destas, há também as guerras
travadas no mundo microssocial de cada comunidade, de cada família, no
âmbito das relações interpessoais, fruto de uma sociedade configurada
pela lógica do mercado, do consumo, que estimula a competição e a
agressividade entre as pessoas. Portanto, hoje, temos uma multiplicidade
de guerras e estamos envolvidos em quase todas elas: seja a do Iraque, a
do Rio de Janeiro, a vivenciada nas nossas relações familiares e
profissionais. Guerras no nível micro e macro que temos que manejar,
desvencilhar e trabalhar, continuamente.
Face a este mundo de guerras, a senhora
defende uma paz, mas uma paz que não se traduza em ausência de conflito.
Por quê? Vera Candau - Se nos colocarmos nesta
perspectiva, estaremos idealizando a paz, pois o conflito é inerente à
vida humana. Não há crescimento pessoal sem que tenhamos que passar por
momentos de crise e de conflito. Também no plano social, o conflito é
parte da dinâmica de relações e do confronto de interesses. Em uma
sociedade pluralista, o reconhecimento da diferença, em suas diversas
configuraEções, passa por processos de confronto social, sem os quais é
impossível que o reconhecimento e a conquista de direitos se dê. É
preciso defender uma paz que enfrente os problemas pela via da
negociação, do diálogo, do reconhecimento mútuo, da valorização da
diferença. A paz que se deve construir não é aquela que vai negar os
conflitos, as tensões, os grandes desafios, mas é a que aposta sempre na
negociação. É possível, sim, enfrentar todos os conflitos por outra
via, que não seja a da guerra. Não construiremos a paz se não nos
desarmarmos das nossas armas materiais, mas também se não desarmarmos
nossos espíritos, nossos sentimentos, tudo o que há em nós de negação do
outro, de não-reconhecimento, de prepotência, de exclusão dos
"diferentes". É isso que chamo de educar para a paz.
Educar para a paz é então uma nova atribuição da escola deste início de século?
Vera Candau - A educação sempre esteve impregnada por valores, mas este
trabalho específico e explícito em Direitos Humanos, e em especial o
voltado para a paz, é recente sim. Começou a ser debatido e defendido
amplamente do final dos anos 1980 para cá e, muitas vezes, de forma
bastante tímida. Um trabalho necessário, desejável e, reconheço, difícil
para as escolas.
Por quê? Vera Candau - Primeiro
pela problemática da própria realidade no plano internacional e local.
E, por outro lado, porque os professores não estão preparados. Os cursos
de formação de professores, como já afirmei, têm privilegiado outras
dimensões da formação docente, os conteúdos que os professores devem
ensinar - Matemática, Língua Portuguesa, Ciências etc. - com as
metodologias específicas. O debate em torno da construção de atitudes,
comportamentos e valores - orientados para a formação da cidadania e
para a promoção de uma cultura da não-violência - em geral não está
presente nestes cursos, ou é muito frágil. Portanto, quando os
professores chegam à sala de aula, mesmo querendo, não conseguem
trabalhar com esses conceitos, valores e práticas, não sabem como atuar.
Acho que, na verdade, falta uma política clara e forte nesta
perspectiva de educar para a paz. Quando existem, são, em geral,
atividades extracurriculares que acabam não interagindo com o currículo
escolar. É preciso que o currículo escolar esteja continuamente
dialogando com a sociedade, com suas inquietudes e problemas. É preciso
que o currículo esteja, sim, voltado para a cidadania nas suas diversas
dimensões.
Se a educação para a paz deve fazer parte do
currículo escolar, a escola não deve esconder ou mascarar a realidade do
mundo de hoje para as crianças e os jovens. Certo? Vera
Candau - Isso mesmo. As crianças e adolescentes são partes desta
realidade. A realidade não está lá e eles aqui, seja porque eles
assistem aos noticiários na TV, seja porque são vítimas e mesmo
protagonistas de situações traumáticas, ou simplesmente porque estão
presentes nela. Eles não estão fora, estão dentro da problemática. Uma
educação para a paz não pode ser um processo que leve, de alguma forma, a
velar a realidade, a calar as diferentes vozes, particularmente as dos
excluídos, a não enfrentar a desigualdade e a exclusão crescentes na
nossa sociedade. A escola tem que olhar a realidade e trazê-la para a
sala de aula. Deve ser capaz de analisá-la com os alunos, ser capaz de
olhá-la de diferentes ângulos e de gerar um compromisso. Lembro-me do
assalto ao ônibus 174, que aconteceu no Jardim Botânico, zona sul do Rio
de Janeiro. Uma escola que fica perto do local resolveu trabalhar este
trágico acontecimento com os alunos. Discutiram, analisaram o tema.
Redigiram um manifesto e encaminharam ao governador. E mais: resolveram
fazer algo e terminaram por criar um curso pré-vestibular comunitário
oferecido a pessoas das camadas populares, onde os professores seriam os
próprios alunos. Foi o modo que encontraram de não ficar passivos e
colaborar na construção da cidadania. A escola não ficou apenas na
indignação, nem na análise e no debate do tema. É preciso gerar
compromissos. Temos que apostar nisso, por mais que nos sintamos
impotentes e como se fôssemos formiguinhas.
A senhora acha que a paz é tangível? Vera
Candau - A paz é um processo. À medida que você conquista um
determinado patamar, você amplia seu horizonte. Você descobre novas
aspirações. A sociedade quer justiça. Quando a sociedade conquista
alguns aspectos nessa direção, o seu conceito de justiça, a sua
aspiração de justiça se dilata e surgem novas buscas. Com a paz acontece
a mesma coisa. No momento, estamos em um patamar mínimo de aspiração à
paz: não queremos guerra. Esse é o patamar mínimo. Essa é a aspiração de
paz do momento. Aspiração que hoje adquire uma conotação muito
concreta. De certa forma, até pensávamos que no terceiro milênio, pelo
menos no cenário internacional, depois das duas grandes guerras
mundiais, a humanidade tinha aprendido a lição de que a guerra não
resolve os problemas. A gente achava que já tínhamos superados essa
fase. A construção da paz tem avanços e retrocessos. Esse grito quase
que universal por paz é, na verdade, um grande avanço, que se expressa
por manifestações, passeatas de crianças, jovens e adultos. A paz é uma
construção que precisa estar continuamente sendo trabalhada, pois
dificilmente podemos dizer: basta de paz.
A imagem, muitas vezes vinculada pela mídia,
de que os brasileiros são cordiais, acolhedores e festeiros demonstra
que somos um povo pacífico? Vera Candau - Acho que essa é
uma imagem idealizada, historicamente construída, extremamente
ideológica, do povo brasileiro. É uma visão estereotipada sobre o
brasileiro. Pois este mesmo brasileiro que convive e produz a guerra
urbana, convive também com formas muito sutis, veladas, mas nem por isso
menos perversas, de racismo, de discriminação, e com índices absurdos
de pobreza, miséria e desigualdade social. O brasileiro tem diferentes
caras, tanto as festivas quanto as cruéis. Acho que é importante assumir
a cara cruel, caso contrário vamos nos esconder sempre por detrás da
cara festiva e isso fará com que a sociedade não questione os índices de
violência, de racismo, de discriminação, de guerra cotidiana.
Entrevista concedida a Marcus Tavares/ Site RioMidia - http://www.multirio.rj.gov.br/riomidia/
Matéria publicada em 31/3/2005
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