|
|
Entrevista
Ano
9 - nº 82 - 15 de maio de 2010
Jean
Piaget: um novo olhar sobre o desenvolvimento da criança

Jean Piaget (Neuchâtel,
9 de Agosto de 1896 - Genebra, 16 de Setembro de 1980) estudou inicialmente
biologia, na Suíça, e posteriormente se dedicou à área de Psicologia,
Epistemologia e Educação. Foi professor de psicologia na Universidade
de Genebra, e ficou conhecido principalmente por organizar o desenvolvimento
cognitivo em uma série de estágios.
Jean Piaget revolucionou
as concepções de inteligência e de desenvolvimento cognitivo partindo
de pesquisas baseadas na observação e em entrevistas que realizou com
crianças. Interessou-se fundamentalmente pelas relações que se estabelecem
entre o sujeito que conhece e o mundo que tenta conhecer. Considerou-se
um epistemólogo genético porque investigou a natureza e a gênese do conhecimento
nos seus processos e estágios de desenvolvimento.
Nesta entrevista,
montada pela equipe da ReConstruir através de diversos textos publicados
por Piaget, ressalta-se sua grande preocupação com a educação
e o desenvolvimento infantil.
Nos últimos anos
as pesquisas psicológicas acerca do desenvolvimento da inteligência e
das estruturas cognitivas progrediram. Qual a sua posição?
Piaget - Nossa direção é de natureza construtivista (o que nos leva a
atribuir os começos da linguagem às estruturas construídas pela inteligência
sensorial-motora preexistente), isto é, sem preformação exógena (empirismo)
ou endógena (inatismo) por contínuas ultrapassagens das elaborações sucessivas,
o que, do ponto de vista pedagógico, leva incontestavelmente a dar toda
ênfase às atividades que favoreçam a espontaneidade da criança.
O senhor é um crítico
do ensino e um visionário do futuro. O que precisa ser feito para termos
um ensino ligado às exigências humanas atuais?
Piaget - Parece fora de dúvida que, para reajustar as formações escolares
às exigências da sociedade, será preciso proceder a uma revisão dos métodos
e do espírito de todo o ensino, muito mais do que contentar-se em apelar
para simples fatores de bom senso. Percebe-se que essa forma envolve essencialmente
não apenas a didática especial de cada um dos ramos do ensino científico,
mas uma série de questões mais gerais, tais como a do papel do ensino
pré-escolar, a do significado real dos métodos ativos, a da utilização
dos conhecimentos psicológicos adquiridos acerca do conhecimento da criança
e do adolescente e a do caráter interdisciplinar necessários das iniciações,
e isso em todos os níveis, em oposição ao fracionamento que ainda vigora
de forma tão habitual, não só na universidade como nos níveis secundários.
Suas pesquisas
parecem mostrar que a adaptação do aluno ao ensino depende muito do caminho
trilhado pelo professor.
Piaget - Em nossas pesquisas, todos os colegiais, das mais variadas idades,
e de nível intelectual médio ou superior à média, revelaram a mesma capacidade
de iniciativa e de compreensão. Nossa hipótese é portanto a de que as
supostas aptidões diferenciadas dos "bons alunos", em igual nível de inteligência,
consistem principalmente na sua capacidade de adaptação ao tipo de ensino
que lhes é fornecido; os "maus alunos" em algumas matérias, que entretanto
são bem sucedidos em outras, estão na realidade perfeitamente aptos a
dominar os assuntos que parecem não compreender, contanto que estes lhes
cheguem através de outros caminhos: são as "lições" oferecidas que lhes
escapam à compreensão, e não a matéria.
Há necessidade
de uma grande reforma no ensino?
Piaget - Sim, e a primeira condição para essa reforma é naturalmente o
recurso aos métodos ativos, conferindo-se especial relevo à pesquisa espontânea
da criança ou do adolescente e exigindo-se que toda verdade a ser adquirida
seja reinventada pelo aluno, ou pelo menos reconstruída e não simplesmente
transmitida. Ora, dois freqüentes mal entendidos reduzem bastante o valor
das experiências realizadas até agora nesse sentido. O primeiro é o receio
(e, para alguns, a esperança) de que se anule o papel do mestre, em tais
experiências, e que, visando ao pleno êxito das mesmas, seja necessário
deixar os alunos totalmente livres para trabalhar ou brincar segundo melhor
lhes aprouver. Mas é evidente que o educador continua indispensável, a
título de animador, para criar as situações e armar os dispositivos iniciais
capazes de suscitar problemas úteis à criança, e para organizar, em seguida,
contra-exemplos que levem à reflexão e obriguem as controle das soluções
demasiado apresadas: o que se deseja é que o professor deixe de ser apenas
um conferencista e que estimule a pesquisa e o esforço, ao invés de se
contentar com a transmissão de soluções já prontas.
Em que consistem
os métodos ativos?
Piaget - Em resumo, o princípio fundamental dos métodos ativos pode ser
estabelecido em compreender é inventar, ou re-construir através da reinvenção,
e será preciso curvar-se ante tais necessidades se o que se pretende,
para o futuro, é moldar indivíduos capazes de produzir ou e criar, e não
apenas de repetir.

É possível acelerar
os estágios de desenvolvimento da criança? Isso traria algum prejuízo?
Piaget - A questão é se existe ou não vantagem em acelerar os estágios
de desenvolvimento. É claro que toda educação consiste, de uma forma ou
de outra, em semelhante aceleração, mas a questão está em estabelecer
até onde é ela proveitosa. Ora, não é sem motivo que a infância se prolonga
mais no homem do que nas espécies animais inferiores; muito provável pois
que se imponha para cada tipo de desenvolvimento uma velocidade ideal,
sendo o excesso de rapidez tão prejudicial quanto uma acentuada lentidão.
Desconhecemos porém essas leis e, também nesse particular, caberá às pesquisas
do futuro esclarecer a educação. Nos dias atuais fala-se muito em interdisciplinaridade,
multidisciplinaridade, rede curricular, visão sistêmica.
Como o senhor encara
todas essas questões?
Piaget - Do ponto de vista pedagógico, estamos diante de uma situação
muito complexa, que comporta um belo programa para o futuro, mas que atualmente
ainda deixa muito a desejar. Com efeito, se todo mundo se põe a falar
das exigências interdisciplinares, a inércia das situações adquiridas
- isto é, passadas mas não ultrapassadas - tende à realização de uma simples
multidisciplinaridade; trata-se ao contrário de multiplicar os ensinamentos,
de tal forma porém que cada especialidade venha a ser ela própria, abordada
dentro de um espírito permanentemente interdisciplinar, ou seja, sabendo
cada qual generalizar as estruturas que emprega e redistribuí-las nos
sistemas de conjunto que englobam as outras disciplinas. Trata-se, em
outras palavras, de estarem imbuídos os próprios mestres de um espírito
epistemológico bastante amplo a fim de que, sem para tanto negligenciarem
o campo da sua especialidade, possa o estudante perceber, de forma continuada,
as conexões com o conjunto do sistema das ciências. Ora, tais homens são
atualmente raros.
Como essa interdisciplinaridade
pode acontecer?
Piaget - A primeira das lições a extrair das tendências interdisciplinares
atuais é a necessidade de uma atenta revisão no tocante às relações futuras
entre as ciências chamadas humanas e as ciências chamadas naturais. Do
ponto de vista pedagógico, é evidente que a educação se deverá orientar
para uma redução geral das barreiras ou para a abertura de múltiplas portas
laterais a fim de possibilitar aos alunos a livre transferência de uma
seção para outra, com possibilidade de escolha para múltiplas combinações.
Mas também será necessário, nesse caso, que se torne cada vez menos bitolado
o espírito dos mestres, sendo às vezes mais difícil obter do mestre essa
descentralização que do cérebro dos estudantes.
Falando dos mestres,
como melhor prepará-los para os desafios do ensino?
Piaget - A preparação dos professores constitui realmente a questão primordial
de todas as reformas pedagógicas em perspectiva, pois, enquanto não for
a mesma resolvida de forma satisfatória, será totalmente inútil organizar
belos programas ou construir belas teorias a respeito do que deveria ser
realizado. Em primeiro lugar existe o problema social da valorização ou
revalorização do corpo docente primário e secundário, a cujos serviços
não é atribuído o devido valor pela opinião pública, donde o desinteresse
e a penúria que se apoderaram dessas profissões e que constituem um dos
maiores perigos para o progresso, e mesmo para a sobrevivência de nossas
civilizações doentes. A seguir existe a formação intelectual e moral do
corpo docente, problema muito difícil, pois quanto melhores são os métodos
preconizados para o ensino, mais penoso se torna o ofício de professor,
que pressupõe não só o nível de uma elite do ponto de vista dos conhecimentos
do aluno e das matérias, como também uma verdadeira vocação para o exercício
da profissão. Para esses dois problemas existe uma única e idêntica solução
racional: uma formação universitária completa para os mestres de todos
os níveis, sobretudo necessária para a formação psicológica satisfatória,
e isso para os futuros mestres tanto do nível secundário quanto do primário.
A ética pode ser
desenvolvida pela educação, ou em outras palavras, a educação moral é
algo prático?
Piaget - Todos reconhecerão desde logo, até certo ponto, o papel formador
da educação moral em oposição às tendências simplesmente hereditárias.
Porém aqui, entre a formação moral e a formação intelectual do indivíduo,
insere-se a questão de saber se a contribuição exterior que se espera
da educação, para completar e informar as disposições individuais, congênitas
ou adquiridas, pode ficar limitada a uma simples transmissão de regras
e conhecimentos já elaborados. O direito à educação intelectual e moral
implica algo mais que um direito a adquirir conhecimentos, ou escutar,
e algo mais que uma obrigação a cumprir: trata-se de um direito a forjar
determinados instrumentos espirituais, mais preciosos que quaisquer outros,
e cuja construção requer uma ambiência social específica, constituída
não apenas de submissão. A educação é, por conseguinte, não apenas uma
formação, mas uma condição formadora necessária ao próprio desenvolvimento
natural.
....................................
Continue
a leitura da Edição
82 da Revista ReConstruir.
|
IBEM
Conheça a educação moral e a cultura
da paz.
www.educacaomoral.org.br
ReConstruir
A revista do educador,
mensalmente on line.
www.educacaomoral.org.br/reconstruir
Marcus
De Mario
Livros, palestras, seminários, oficinas de vivências.
www.marcusdemario.com.br
Análise
e Crítica
Blog de Marcus De Mario
sobre assuntos atuais.
http://analiseecritica.blogspot.com
|