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Entrevista
Ano
9 - nº 81 - 15 de abril de 2010
Miriam
Abramovay: violência, aids e drogas na escola

Miriam Abramovay é
formada em Sociologia e Ciências da Educação pela Universidade de Paris
e tem mestrado em Educação pela PUC de São Paulo. É professora da Universidade
Católica de Brasília, consultora do Banco Mundial para assuntos relacionados
à juventude.
Miriam Abramovay é
autora e co-autora de vários livros e artigos sobre o tema juventude,
como Políticas Públicas de/para/com Juventudes (Brasília, UNESCO, 2004)
e Juventude, Juventudes: o que une e o que separa (Brasília, UNESCO, 2006).
e, há três anos, vem realizando junto à Unesco uma grande pesquisa sobre
violência, Aids e drogas nas escolas.
Nesta entrevista,
originalmente publicada no site www.cmariocovas.sp.gov.br, ela fala dessas
três questões que pontuam sua pesquisa e que estão
na pauta das discussões atuais sobre a escola.
Gostaria que a
senhora falasse um pouco dos resultados da sua pesquisa.
Miriam Abramovay - A pesquisa Violência, Aids e Drogas nas Escolas começou
há três anos e foi realizada em 14 capitais brasileiras. Os dados obtidos
foram organizados nos livros Violência nas Escolas e Drogas nas Escolas
e numa publicação sobre os impactos do programa de Aids e drogas do Ministério
da Saúde. Nos próximos meses, lançaremos o último da série: A Juventude
e a Sexualidade. Nossa conclusão foi que a escola não é mais aquele lugar
tranqüilo como gostaríamos que fosse. Tem um escritor francês que fala
que ela deveria ser segura desde o momento em que o jovem sai da sua casa
até a hora em que volta. Não é isso o que vemos hoje.
Isso significa
que a violência não está apenas do lado de dentro da escola?
Miriam Abramovay - Quando falamos em violência nas escolas englobamos
também aquela que está no seu entorno, porque mais cedo ou mais tarde
ela acaba entrando. São bares vizinhos aos colégios que vendem bebida
aos jovens, gangues ligadas ao tráfico, brigas que acontecem lá fora e
acabam tendo algum desdobramento do lado de dentro.
Quais as principais
causas desse fenômeno?
Miriam Abramovay - Em primeiro lugar, existe uma violência que é da sociedade,
e não da escola. Ela entra lá por se tratar de um espaço da juventude,
cheio de adolescentes curiosos que são vistos como possíveis compradores
de drogas. Uma vez instalada lá dentro, transforma a escola num lugar
onde vale tudo, onde as regras não são claras e onde professores, diretores
e alunos têm medo. Onde impera a lei do silêncio e da ameaça, que é a
lei do tráfico. Mas existe também uma violência que é interna à escola,
que eu chamo de institucional.
Como ela se manifesta?
Miriam Abramovay - A violência institucional é aquela que está no cotidiano
da sala de aula, que faz parte do sistema educacional. Se levarmos em
conta o fato de que 25% dos alunos já repetiram pelo menos uma vez, ou
que a cada ano, 4% são expulsos das escolas, perceberemos que temos um
sistema violento, que não está sabendo fazer seus estudantes passarem
de ano. Não acho que o problema seja o mecanismo da reprovação, mas as
razões que levam a ela. Isso sem falar na frustração que um jovem sente
ao saber que dificilmente vai entrar numa universidade, porque as públicas
são difíceis de entrar e as particulares são caras. Por outro lado, existem
também os gritos, as agressões verbais, a falta de respeito do professor
em relação aos alunos e vice-versa, sem falar na questão do racismo. Existe
no Brasil o chamado racismo cordial, em que os próprios negros encaram
xingamentos como brincadeira. Essas todas são formas simbólicas de violência.
O problema da violência
nas escolas é mais sério no Brasil do que em outros países?
Miriam Abramovay - Os estudos sobre esse tema ainda são muito incipientes
no mundo. Mas comparando com a França, que eu conheço melhor, vejo que
no Brasil a violência física chama mais a atenção. Enquanto nas escolas
francesas o problema é mais centrado nas microviolências - as incivilidades,
os pequenos furtos, os empurrões -, sofremos aqui com ameaças, brigas
e depredação. Na nossa pesquisa, detectamos que 14% das escolas têm um
alto nível de depredação. Esse é um dado significativo porque tem uma
teoria que diz que, se existe um vidro quebrado numa comunidade, ela tende
a quebrar os outros. Cria-se uma reação em cadeia que gera cada vez mais
violência. Outro problema que nós temos aqui no Brasil diz respeito às
armas. Nos Estados Unidos, quando aparece um caso de arma nas escolas,
trata-se de um serial killer, de um caso isolado. Aqui, ao contrário,
o problema é em larga escala. Segundo a pesquisa, 13% dos estudantes já
viram uma arma nas mãos de alguém na escola. Eles dizem que comprar uma
é tão fácil quanto comprar um pirulito na padaria. Mas é lógico que a
grande maioria não pretende cometer um crime. Eles querem se exibir, colocar
medo e mostrar poder. O problema é que as armas passam a fazer parte do
cenário. E todos passam a viver com medo.
A violência interfere
na aprendizagem?
Miriam Abramovay - Sem dúvida. Os alunos deixam de ir às aulas, os professores
abandonam a escola... Na pesquisa, 31% dos alunos falaram que a violência
faz com que a qualidade das aulas piore. E quase metade dos professores
se diz sem estímulo para ir trabalhar. A violência tem sim repercussões
na qualidade do ensino. E elas são graves.
O que fazer, diante
dessa situação?
Miriam Abramovay - Em primeiro lugar, é preciso criar um espaço para discutir
essas questões entre educadores, alunos, pais e comunidade. Defendo a
idéia de que as escolas tenham um telefone 0800 para que as pessoas se
sintam à vontade para se queixar e denunciar. Também acho que deveríamos
investir na formação de alunos mediadores, que saibam discutir com seus
pares e com os professores. Outra proposta, que o ministro da Educação
já anunciou que vai encampar, é a abertura das escolas nos finais de semana.
Essa é uma forma de quebrar com a imagem da escola como templo fechado,
onde ninguém entra, e passar a vê-la como o espaço do jovem.
E o que o professor,
mais especificamente, pode fazer?
Miriam Abramovay - Acho que ele tem de abrir a discussão, deixar clara
a relação com o aluno, fazer-se respeitar e respeitar o que a turma sabe,
tomar cuidado para não ser violento nos seus atos e nas suas palavras.
Ele tem de se dar conta de que a questão da violência tem de ser trabalhada
diariamente e permear todos as atividades realizadas na escola.
Aumentar o policiamento
adianta?
Miriam Abramovay - Eu acho que tem de ter alguém na porta da escola, cuidando
da entrada e da saída, controlando quem entra, ajudando as crianças a
atravessar a rua... Mas, de resto, o lugar da polícia não é na escola.
Já vimos casos de policiais que entram nas salas com cães para farejar
drogas. Isso é uma coisa muito agressiva. E, além disso, as políticas
repressivas já se mostraram pouco eficientes.
A senhora disse
numa palestra que é possível desconstruir a violência. Conhece algum caso
em que isso tenha acontecido?
Miriam Abramovay - Sim, vi escolas violentíssimas serem mudadas num curto
espaço de tempo. Tem uma em São Paulo, por exemplo, que era classificada
como uma das mais violentas segundo a pesquisa. Depois de um ano, quando
voltamos lá, era um outro lugar. Havia entrado um novo diretor, que em
poucos meses pintou os muros, criou um horário para que os professores
ensinassem atividades extra-classe, construiu uma quadra de esportes,
abriu a escola nos finais de semana e deu aos alunos poder para que eles
pudessem também participar das regras da escola. Acho que este é o grande
segredo: dar voz à juventude.
....................................
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a leitura da Edição
81 da Revista ReConstruir.
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