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Entrevista
Ano
9 - nº 80 - 15 de março de 2010
Julio
Groppa Aquino: violência na escola

Julio Groppa Aquino
é professor doutor do Departamento de Filosofia da Educação
e Ciências da Educação da Faculdade de Educação
da Universidade de São Paulo. É articulista de jornais e
revistas sobre educação e autor de diversos livros.
Nesta entrevista,
originalmente publicada no site www.cmariocovas.sp.gov.br, ele fala da
violência na escola e dos caminhos possíveis para o professor
trbalhar com essa questão.
Na sua opinião,
está aumentando a violência dentro das escolas nos últimos tempos?
Aquino: Dizer que não é ir contra as evidências concretas. Dizer que sim
é aderir imediatamente a essas evidências. É uma pergunta complicada porque
eu tenderia a responder 'sim' e 'não'! 'Sim' do ponto de vista da visibilidade.
Está aumentando a visibilidade dessas ocorrências violentas em escolas.
'Não' porque elas sempre existiram, de uma maneira ou de outra, e sempre
foram administradas, de uma maneira ou de outra. A questão é que hoje
não acreditamos mais que essas questões possam ser administradas no interior
da escola. Por isso essa explosão na mídia.
Você acha então
que a violência é um fenômeno de mídia?
Vou levantar uma hipótese absolutamente arriscada e temerária: os surtos
de violência escolar aparecem, em geral, em meados do primeiro semestre
que, do ponto de vista das notícias, é um tempo 'morno'. É muito curioso.
Esse tema sempre volta a ser comentado em abril, maio, junho. Nos últimos
tempos, tenho sido convidado a me posicionar com relação a isso. Ou só
acontecem conflitos violentos nas escolas em meados do primeiro semestre
ou é quando esse tema ganha visibilidade na mídia. Paradoxalmente é um
tempo morno na mídia. A violência escolar parece que "apimenta", vende
bem. Se por um lado há sensacionalismo e uma irresponsabilidade dessa
divulgação do pânico, por outro, é um sintoma social interessante de que
"violência pode em qualquer lugar, menos na escola!". Esse horror social
em relação à violência nas escolas é um termômetro que mostra que "pode
ter violência em todos os outros lugares - e nós vivemos em uma das sociedades
mais truculentas do planeta -, mas na escola, não pode!"
Em se tratando
da violência, a escola tornou-se uma espécie de lugar 'sagrado'?
De fato é um espaço sagrado. Sabemos que a escola é a ante-sala da democracia.
Sem escola não tem democracia que se sustente. Isso é uma coisa que todas
as classes sociais sabem de uma maneira ou de outra: escola é passaporte
para a cidadania, passaporte para uma vida digna. Não tem saída sem escola.
É por isso que a escola, de uma maneira ou de outra, é o lugar ainda onde
há a maior esperança civil. Todo mundo gosta de estar na escola, inclusive
as crianças e os jovens. Eles adoram ir para a escola. Detestam é ir para
a sala de aula. 99% das crianças e jovens adoram estar na escola. É um
lugar que, de uma forma ou de outra, eles têm o espaço garantido. O Estado
só comparece na vida do cidadão de duas maneiras: escola ou polícia. O
direito a freqüentar escolas está garantido. Atendemos a quase toda população
escolar. O problema é que garantimos o direito a freqüentar a escola,
mas não ainda o direito à educação. Isso está em processo.
Você acha que a
escola, hoje, pode administrar a questão da violência?
Não só pode como deve. As questões escolares são questões de educadores.
O dia que abandonarmos os dilemas escolares em favor da polícia, do médico,
do psicólogo, do advogado, a gente derrocou com isso a idéia da educação.
Porque onde houver educadores de fato, não precisa ter polícia, nem médico,
nem psicólogo. Essa é uma idéia preciosa. A gente sempre acredita que
a redenção da escola vem de fora, nunca de dentro.
A solução, então,
passa pelo papel do professor?
A solução da questão da violência na vida, e não só nas escolas, reside
em uma única coisa: no conhecimento, na possibilidade de as pessoas terem
uma vida mediada pela experiência de nossos antepassados - e isso se chama
conhecimento. Se a escola não é o lugar do conhecimento, qual é este lugar?
Não só a questão da violência mas também como todas as questões inquietantes
do mundo contemporâneo. Vamos pegar a questão do uso e abuso de drogas
ilícitas. Isso aponta para a escola. Vamos pegar os cuidados em relação
ao sexo. Isso precisa ser ensinado. Aponta para a escola. A questão da
ecologia, do cuidado com o mundo, para que exista mundo para as próximas
gerações. Isso aponta para escola. Isso que é o que se chama de temas
transversais. Esses temas devem e podem ser problematizados: a cultura
da paz, do gosto pelo convívio, que é uma das premissas da idéia de democracia.
Aqui cabe uma ressalva: isso não passa pela escola. Isso é matéria de
trabalho escolar. A gente tem de fazer isso pela via do conhecimento.
Colocar a matemática a serviço disso. Nossa tarefa fundamental é colocar
a matemática, ciências, artes, humanidades a serviço disso. Temos de ensinar
as pessoas a serem melhores. Se você não acreditar que a escola pode tornar
as pessoas melhores, não seja educador. Pois, isso tudo está encarnado
na figura do educador. Escolas são os seus profissionais. Ponto final.
E quando não há
condições estruturais, como salas devidamente aparelhadas, segurança na
escola, por exemplo?
O professor tem condições de superar a falta dessas condições? Um bom
projeto pedagógico arregimenta o grupo em torno de um trabalho interessante.
Não se trata de dizer que essas questões assombram só aos professores,
ou melhor, aos profissionais de educação - englobando desde o secretário
da Educação até o bedel da escola. É uma questão que tem a ver com todos.
Questões das condições de trabalho, sociais, culturais, econômicas e políticas
têm lugar no cenário escolar. Essas questões em torno da profissão, vamos
chamar assim, não podem ser as responsáveis pela falência da profissão.
Porque essas questões rondam todos os profissionais, de todas as profissões.
Por que somente entre nós, da Educação, que essas questões se transformam
em impossibilidade? O que nos outros lugares é desafio, aqui é dificuldade,
impossibilidade, obstáculo. Isso exige da gente, dos profissionais da
educação, uma outra visibilidade sobre a própria profissão mais interessante,
mais plástica, mais aberta, mais esperançosa. Não se trata de negar as
condições, mas de problematizá-las.
Certa vez você
disse que escola onde entra o conhecimento, não entra droga. É por aí?
Eu acho! Escola onde tem prazer de viver - e isso você vê na cara dos
professores, dos alunos - é um lugar onde a idéia do conhecimento impera.
Se imperam outras questões - violência, drogas, seja lá o que for - de
alguma maneira, o bom da vida está abafado, nublado. A gente só tem uma
arma na mão. Deveríamos acreditar mais que o conhecimento salva o mundo,
mas nós achamos que tudo conspira contra. Aquilo que conspira a favor
do mundo, de uma boa vida, é o que temos nas escolas a preço de banana.
Está lá todo dia. É o nosso metier. Esse é o ofício do professor: o gosto
pelo conhecimento que é aquilo que engedra o gosto pela vida. Veja duas
pessoas ao final de suas vidas: uma com escolaridade e outra sem para
ver o que aconteceu com elas, com o corpo delas.
Como vencer a resistência
dos alunos?
Você acha que os alunos são resistentes? Os alunos são absolutamente porosos
para o que quer que você faça. Se der lavagem, eles comem lavagem. Se
der um banquete, eles comerão um banquete. A gente deveria parar de pensar
nos alunos e pensar mais na gente. Não tomar o aluno como problema. Não
acredito que haja resistência de nenhuma ordem por parte dos alunos. Qualquer
um que for a uma escola e perguntar ao aluno mais bandido qual é a imagem
de professor que ele tem, ele vai falar de um cara que goste de estar
lá, fazendo o que está fazendo, que o trate com respeito. Porque escola
é um lugar bom! Tão bom que eles não saem de lá.
Você já afirmou
que a violência é um problema de ética...
É claro. Sem dúvida nenhuma. Ninguém é violento de véspera. Ninguém nasce
violento. A violência em geral é uma resposta a um conjunto de humilhações,
silenciosas, que ocorrem todos os dias. Agora tem um senão. Não se pode
confundir violência com indisciplina, nem com incivilidade. São três âmbitos
diferentes. A indisciplina, em geral, é um protesto. A incivilidade tem
a ver com a idéia de rebeldia, de uma recusa, de uma descortesia, quando
se rompem as regras de cortesias clássicas. Isso não é violência. Violência
tem a ver com danifinicação, com depredação quer da integridade física,
quer da integridade moral do outro. A violência simbólica, a da danificação
moral do outro, é uma coisa que está solta nas escolas. Sempre desconfiamos
que o outro não seja capaz ou digno de estar lá, que faça parte de fato
do espaço escolar. Temos um dilema terrível que é o seguinte: escolas
públicas que entendem seu trabalho como esmola, como donativo para pobre,
e escolas privadas que entendem seu trabalho como negócio para rico. Nem
uma, nem outra é escola. Escola é um bem público sempre. Público na acepção
mais bonita do termo. É um direito das novas gerações. Sem ela, não há
vida. Não há possibilidade de participação na cidade contemporânea, por
isso a história da cidadania. Alguém sem uma boa escolaridade não participa,
de fato, do mundo contemporâneo. Ou participa pela metade.
E como ensinar
cidadania na sala de aula?
Como ensinar? Sendo. Fazendo. Sendo em ato. Tratando o outro como ele
merece ser tratado, com respeito e com dignidade. Tratar o outro com dignidade
é ser professor. Então, que diretores dirijam, que coordenadores coordenem
e que professores profecem para que os alunos estudem. É só isso que a
gente tem de fazer acontecer. Esta é a tarefa política fundamental de
qualquer educador: fazer com que as escolas funcionem na sua carga máxima,
a todo vapor.
Você tem uma mensagem
para passar aos professores da rede?
Acho que a pior das violências é aquela onde você se violenta, violenta
a si mesmo. Acho que cada profissional da educação desse País precisaria
repensar se gosta de estar fazendo aquilo. Porque isso é condição sine
qua non. É o grau zero da profissão sem a qual não tem saída. Essa é a
primeira questão porque se eu estiver me violentando sendo profissional
da educação, hoje, é melhor fazer outra coisa. Num segundo momento, é
perguntar se você está disposto a dialogar com as crianças e com os jovens
porque eu creio, penso e julgo que elas estão dispostas. O que constitui
a vida dessas pessoas é essa disposição para o diálogo com o mais velho,
com as velhas gerações. Será que nós estamos? Olhar com desesperança para
as novas gerações é romper a idéia basal, o pacto mínimo, de qualquer
educação, de qualquer povo, em qualquer tempo: que é cuidar sem trégua.
Cuidar, cuidar, cuidar dos mais novos. Eu acho que a violência é um aviso
que isso não está acontecendo.
....................................
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